ANO 4 Edição 56 - MAIO 2017 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


Ecos de Portugal no Brasil I

Inicio aqui uma série de pequenas crônicas sobre alguns episódios turvos da história da tradução no Brasil. O tema a uni-las é a apropriação de traduções portuguesas em variados títulos publicados no Brasil, ocultando sua autoria ou atribuindo-a ao nome de outrem, real ou fictício. Esta primeira crônica se debruça sobre aquele que – até onde vão minhas pesquisas – foi o marco fundador da triste história dos plágios de tradução in terra brasilis.

 

          Trata-se de um volume com contos de Edgar Allan Poe. Não é que não conhecêssemos Poe antes disso. Sua obra em poesia e prosa, mesmo se filtrada pelo prisma do simbolismo francês, era lida, analisada, imitada, cultuada desde os meados do século XIX. Poemas e contos eram esparsamente traduzidos e publicados em algum veículo da imprensa local desde os anos 1870, e a célebre tradução de Machado de Assis de The Raven é de 1883. Mas é apenas em 1903 que teremos a publicação do primeiro livro de ficção de Edgar Allan Poe no Brasil. O volume é lançado com o título de Novellas Extraordinarias, contendo dezoito contos e mais “A gênese de um poema”, a versão em prosa que Baudelaire fez do poema The Raven. É um belo voluminho, com o rebordo das páginas em dourado, a encadernação em tecido vermelho gravado com uma estampa floral (aliás, muito pouco poeana) também em dourado, em formato 18 x 11, com 344 páginas. Não traz introdução, prefácio, nota editorial ou biográfica. Apenas a página de rosto com os dados da publicação, et voilà, mergulhamos diretamente na obra, com “O Rei Peste” (The King Pest).

 

          A página de rosto merece especial atenção. Ela especifica: EDGAR PÖE; NOVELLAS EXTRAORDINARIAS (TRADUCÇÃO BRASILEIRA) H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR.

 

          Que a tradução é indireta, feita a partir do francês, fica evidente, não só pela presença da baudelairiana “A gênese de um poema”, mas mesmo à mais perfunctória comparação entre o original, a versão francesa e a dita brasileira. O surpreendente é que, a despeito da indicação “Traducção Brasileira” na página de rosto do livro, trata-se de simples e intocada cópia das traduções portuguesas de Poe feitas por Mécia Mouzinho de Albuquerque (1889 e 1890) e Christina Amélia Assis de Carvalho (1890 e 1891), publicadas na coleção “Bibliotheca Universal Antiga e Moderna”, vols. 37, 61, 69 e 80 respectivamente, pela lisboeta Companhia Nacional Editora. Essa edição brasileira da H. Garnier teve mais algumas reedições na mesma casa, até 1919, já então rebatizada como Livraria Garnier.

 

          Os contos traduzidos por Mécia Mouzinho de Albuquerque e reproduzidos pela H. Garnier como se fossem da lavra de algum tradutor brasileiro são: O Rei Peste; O corvo (A gênese de um poema); Pequena discussão com uma múmia; O gato preto; O homem das multidões; Colóquio entre Monos e Una; Colóquio entre Eiros e Charmion; Poder da palavra; O poço e o pêndulo; O demônio da perversidade; William Wilson; Berenice; O escaravelho de ouro; Silêncio; Hop-Frog; O sistema do doutor Breu e do professor Pena.

 

          Os contos traduzidos por Christina Amélia Assis de Carvalho e submetidos ao mesmo tratamento são Duplo assassínio na rua Morgue e A carta roubada.

 

2.

 

          Cabe agora apontar uma confluência de fatores que poderia explicar esse acontecimento específico. Até 1808, antes da chegada da corte real portuguesa ao Brasil, era proibida a produção editorial no país. Somente em 1808, com a instalação da família real no Rio de Janeiro, escapando às guerras napoleônicas, é que se inicia a publicação de livros no Brasil, com a criação da Impressão Régia. E somente a partir dos anos 1830 e sobretudo dos anos 1850 em diante é que se tem a presença de um movimento editorial efetivamente atuante no Brasil – embora algumas das principais editoras da época fossem de origem estrangeira, como a Laemmert e a B.L. Garnier, e os livros fossem, de modo geral, impressos no exterior, sobretudo na França. Além dessa produção nacional, era significativo o volume de importação de livros estrangeiros, fosse de Portugal ou da França.

 

          Ora, ocorre que em 1893, após alguns anos de declínio na saúde e nos negócios, morreu Baptiste-Louis Garnier, o responsável pela mais dinâmica editora brasileira, a já citada B.-L. Garnier. Com seu falecimento, a empresa passou para seu irmão François Hippolyte, radicado na França e responsável pela Garnier francesa. Hippolyte, já quase octogenário, enviou da França um gerente, Julien Lansac, para cuidar da Garnier brasileira, agora renomeada H. Garnier – o qual, por sua vez, com seu desconhecimento da língua e do país, confiava largamente parte da administração editorial a seu assistente Jacinto Silva.        Paralelamente a essa mudança de gestão, já desde 1889, com a primeira Convenção Panamericana dos Direitos Autorais, vinha-se desenhando um novo cenário que se consolidaria com a aprovação da chamada Lei Medeiros e Albuquerque, de 1898. Se até então era possível publicar livremente no país traduções lançadas em Portugal, a situação muda de figura com a nova legislação.
          Assim, o contexto em que se situa essa “traducção brasileira” das Novellas extraordinárias de Poe é o de uma editora comandada à distância por um editor que não se interessa diretamente por ela e administrada por um gerente que, entre suas várias iniciativas de redinamização da Garnier, tenta também fazer frente à nova legislação. Insira-se tal situação na esteira da difícil recuperação do conturbado período da implantação da República no país e de um período de grave crise econômica, e ter-se-á um quadro que, ainda que não justifique, ao menos pode explicar plausivelmente a adoção de uma medida editorial tão pouco lídima, por parte de uma casa que, até poucos anos antes, fora a principal ou, pelo menos, uma das principais referências editoriais do país.
          Diga-se de passagem que a H. Garnier, depois de optar por uma infeliz contrafação no lançamento da primeira obra de ficção de Edgar Allan Poe no Brasil, em 1903, continuou a adotar com frequência o mesmo procedimento nos anos subsequentes, com vários outros autores e até criando um nome de fantasia para os créditos de tradução. Mas este será tema de uma segunda crônica; por ora, voltemos a essa primeira ocorrência.


3.

 

A contrafação que inaugurou a presença de Poe ficcionista em livro no Brasil, em 1903, teve vida longa: prosseguiu até 1988. Em 1925, a Editora Rochera lança um volume reproduzindo seis contos daquela suposta “traducção brasileira”, com o título Duplo assassínio na rua Morgue. Tendo a Garnier encerrado suas atividades em 1934, suas Novellas Extraordinarias ressurgem em 1941 em dois volumes, pela editora O Livro de Bolso: Contos Fantásticos, sem crédito de tradução, e Novelas Extraordinárias, com a especificação “Tradução portuguesa, revista por Faria e Sousa”. Juntos, correspondem aos mesmos dezoito contos já citados, publicados naquela lisboeta “traducção brasileira” de 1903. Em 1943, a Editora Cruzeiro do Sul lança Novelas Extraordinárias, com nove contos, idêntica à d’O Livro de Bolso, porém agora atribuindo a tradução diretamente a Faria Souza. E continua-se a reeditá-las: em 1945, a obra sai pelo Clube do Livro, como Novelas Extraordinárias; em 1972, é publicada pela Ordibra/INL sob licença do mesmo Clube do Livro, com o título de Histórias Extraordinárias e tradução atribuída a João Teixeira de Paula; em 1981, volta a sair numa coletânea chamada Horas de Terror, também pelo Clube do Livro; em 1988, mais uma vez pelo mesmo Clube do Livro e também com o título de Histórias Extraordinárias, com a mesma tradução de sempre, tomada a Mécia Mouzinho e a Christina A. A. de Carvalho, agora atribuída a José Maria Machado. Diga-se de passagem: o Clube do Livro, que adotava a linha de venda domiciliar e sistema de assinaturas análogo ao Book-of-the-Month Club americano, mantinha tiragens de até 50 mil exemplares, bastante altas mesmo para os padrões brasileiros atuais.
          Não conheço a fortuna histórica das traduções de Mécia Mousinho de Albuquerque e de Christina Amélia Assis de Carvalho em Portugal. Mas, em vista desses dados, é de se concluir que elas tiveram grande e prolongado sucesso no Brasil, ainda que sempre sob a embaidora capa do logro ou sob o obscuro véu do anonimato.

 

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954. Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

 

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