ANO 4 Edição 55 - ABRIL 2017 INÍCIO contactos

Denise Botman


OS RUBAIYAT DE MANUEL BANDEIRA E DE TORRIERI GUIMARÃES

Um componente da história da tradução – sobretudo literária – no Brasil que nunca cessa de nos surpreender é o plágio de tradução. Os casos pipocam pelo menos desde os alvores do século XX (o primeiro caso documentado de que tenho notícia recua a 1903) e, embora tenham se reduzido muito na última década, volta e meia descobrem-se casos até então desconhecidos ou surgem novas ocorrências.

 

Em termos muito gerais, o plágio de tradução no Brasil consiste em três ou quatro procedimentos bastante simples: para determinada obra que se pretenda publicar, normalmente caída em domínio público, recorre-se a alguma tradução já existente, seja portuguesa, seja brasileira. Em se tratando de tradução brasileira, prefere-se uma antiga, feita por tradutor já falecido, publicada por alguma editora muitas vezes extinta. Toma-se essa tradução, elimina-se o nome do verdadeiro tradutor e se a publica atribuindo sua autoria a outro nome, que pode ser real ou fictício. Pode-se ter a pura e simples reprodução intocada do texto ou sua modificação com pequenas alterações aqui e ali – geralmente nas primeiras páginas ou em início de parágrafos – a fim de tentar disfarçar a cópia. Um exemplo é a célebre tradução de Les Fleurs du mal, de Charles Baudelaire, feita por Jamil Almansur Haddad, publicada em 1958 pela extinta editora Difel, e republicada com algumas toscas adulterações em 2001 pela editora Martin Claret, com o nome real de Pietro Nassetti. 

 

Raros, raríssimos são os plágios de traduções lançadas poucos anos antes e ainda ativas em catálogo. No entanto, existem. E é um caso desses que pretendo abordar.

 

Em 1966, a editora carioca Tecnoprint, atual Ediouro, publicou O Rubaiyat de Omar Khayyam com tradução de Manuel Bandeira. No final dos anos 1970, a editora paulista Hemus publicou o volume Rubaiyat, de Omar Khayyam, com tradução atribuída a Torrieri Guimarães.

 

Aqui cabe uma brevíssima explicação. Os ruba’i (quadras ou quartetos) do matemático, astrônomo e poeta persa Omar Khayyam, do século XI, passaram a ser conhecidos no Ocidente a partir do século XIX, principalmente com a tradução de Edward Fitzgerald para o inglês, em versos, em 1859, com 75 ruba’i (posteriormente aumentados para 100). Outra tradução que se tornou muito conhecida foi a de Franz Toussaint, em francês e em prosa, de 1924, com 170 ruba’i.  São essas duas traduções, a de Fitzgerald e a de Toussaint, que costumam servir de referência para as inúmeras traduções indiretas dos poemas de Khayyam em diversas línguas.

 

No Brasil, a primeira tradução do Rubaiyat é a de Octavio Tarquinio de Souza, feita a partir do texto de Toussaint, publicada em 1928 e que ainda se encontra em circulação, com inúmeras reedições.

 

Como a tradução de Toussaint está vazada em prosa, tomá-la como texto de interposição significa normalmente que a tradução indireta também será em prosa. E aí temos a primeira peculiaridade da tradução de Manuel Bandeira, o qual, assim como Tarquínio, partiu de Toussaint, porém convertendo sua prosa em quadras. Nisso poderíamos ver, talvez, uma tentativa de se reaproximar, ao menos em parte, da forma poética original. Mas deixemos a exegese para outra hora. O que importa notar é que Torrieri Guimarães – o qual afirma que “A tradução que fizemos está rigorosamente baseada [grifo meu] na tradução de Toussaint” – também converte sua prosa em quadras.

 

Ademais, a tradução de Bandeira apresenta outra peculiaridade. Adotando a forma poética da quadra para a prosa corrida de Toussaint, ele não se limita a uma quadra. Aqui cabe notar que o ruba’i na tradição persa é uma forma poética rigorosa, um breve poema composto por quatro versos apenas [daí seu nome, como já dissemos], com várias classificações internas quanto ao tipo de metrificação e com o predomínio da rima no primeiro, segundo e quarto versos, o terceiro sendo branco, tal como a usa Khayyam. Bandeira adota a quadra – salvo em três ruba’i montados em quintilha –, mas não se restringe a uma estrofe, e recorre a metros variados. Seus ruba’i, se ainda assim pudermos nos referir a poemas com número variável de estrofes, metrificação diversificada e versos brancos, apresentam de um a quatro quartetos, além das três quintilhas citadas (137, 142 e 143).

 

Torrieri Guimarães, salvo algumas exceções que não chegam a dez por cento dos 170 ruba’i em questão, mantém exatamente o mesmo número de estrofes usadas por Bandeira para cada poema.
 
Vejamos um exemplo, o ruba’i 102:

 

Manuel Bandeira:

 

Quando eu deixar de existir,
Não existirão mais rosas,
Ciprestes, lábios vermelhos,
Canções, vinho perfumado...

 

Não haverá mais auroras,
Não haverá mais crepúsculos,
Não haverá mais amores,
Nem penas, nem alegrias.

 

O mundo será abolido,
Pois do nosso pensamento
É que a sua realidade
Depende exclusivamente.

 

Torrieri Guimarães:

 

Quando eu não mais existir
Não existirão mais rosas,
Ciprestes, bocas vermelhas,
Nem vinho tão perfumado...

 

Não existirão auroras,
Nem crepúsculos também,
Não existirão amores,
Nem alegrias, nem dores.

 

O mundo estará abolido,
Pois de nosso pensamento
É que sua realidade
Depende, dele somente.

 

Agora, vejamos Toussaint:

 

Quand je ne serai plus, il n'y aura plus de roses, de cyprès, de lèvres rouges et de vin parfumé. Il n'y aura plus d'aubes et de crépuscules, de joies et de peines. L'univers n'existera plus, puisque sa réalité dépend de notre pensée.
         
Isso do ponto de vista do número de estrofes. Passemos ao teor. Se em “Quand je ne serai plus, il n'y aura plus de roses, de cyprès, de lèvres rouges et de vin parfumé” podemos ver que Bandeira, para manter o metro em heptassílabos, acrescentou “canções”, do que se absteve Torrieri, por outro lado “Não existirão auroras,/ Nem crepúsculos também,/ Não existirão amores,/ Nem alegrias, nem dores” está visivelmente mais próximo de “Não haverá mais auroras,/ Não haverá mais crepúsculos,/ Não haverá mais amores,/ Nem penas, nem alegrias” do que de “Il n'y aura plus d'aubes et de crépuscules, de joies et de peines”. O mesmo se pode dizer quanto à proximidade maior de “O mundo estará abolido,/ Pois de nosso pensamento/ É que sua realidade/ Depende, dele somente” com “O mundo será abolido,/ Pois do nosso pensamento/ É que a sua realidade/ Depende exclusivamente” do que com “L'univers n'existera plus, puisque sa réalité dépend de notre pensée”.

 

Outro exemplo ilustrando essa proximidade é o acréscimo do terceiro verso em Bandeira, retomado com ligeira alteração em Torrieri, no ruba’i 113:

 

Bandeira

 

Pedi numa taverna a um velho sábio
Que sobre os mortos algo me ensinasse.
“O que há de certo é que não voltarão”,
Disse. “É tudo o que sei. Bebe o teu vinho!”

 

Torrieri

 

Pedi numa taverna a um idoso sábio
Que algo sobre os defuntos me ensinasse.
“O certo é que não mais retornarão”,
Disse. “É tudo o que sei. Bebe teu vinho!”

 

Eis Toussaint:

 

Dans une taverne, je demandais à un vieux sage de me renseigner sur ceux qui sont partis. Il m'a répondu: “Ils ne reviendront pas. C'est tout ce que je sais. Bois du vin!”

 

Vejamos agora o ruba’i 61, como exemplo de omissão de termos ou frases em relação ao texto de Toussaint:

 

Bandeira

 

Só conhecemos da ventura o nome.
Nosso mais velho amigo é o vinho novo
Afaga o único bem que não engana:
A urna cheia do sangue dos vinhedos.

 

Torrieri

 

Sabemos da Ventura só o nome.
Nosso amigo mais velho é o vinho novo.
Acaricia o bem que não engana:
A urna cheia com sangue das vinhas.

 

Toussaint

 

Du bonheur, nous ne connaissons que le nom. Notre plus vieil ami est le vin nouveau. Du regard et de la main, caresse notre seul bien qui ne soit pas décevant: l'urne pleine du sang de la vigne.

 

Ou, ainda, o ruba’i 114:

 

Bandeira

 

Olha! Escuta! Na brisa uma rosa estremece.
Um rouxinol canta-lhe um hino apaixonado.
Uma nuvem parou. Bebe, e esquece que a brisa
Desfolha a rosa, leva o canto e a fresca nuvem.

 

Torrieri

 

Olha! Escuta! Uma rosa estremece na brisa.
Um rouxinol lhe canta um hino apaixonado.
Uma nuvem parou. Bebe, esquece que a brisa
A rosa despetala e leva o canto e a nuvem.

 

Toussaint

 

Regarde! Écoute! Une rose tremble dans la brise. Un rossignol lui chante un hymne passionné. Un nuage s'est arrêté. Buvons du vin! Oublions que cette brise effeuillera la rose, emportera le chant du rossignol et ce nuage qui nous donne une ombre si précieuse.

 

Note-se que “Du regard et de la main” está ausente em ambos os casos do ruba’i 61 e a oração inteira “qui nous donne une ombre si précieuse” desaparece do ruba’i 114.

 

Por tais exemplos, fica evidente que Torrieri se baseou em Bandeira, não em Toussaint, tanto na variada forma poética adotada na tradução quanto no conteúdo vocabular dos poemas, com idênticos acréscimos ou omissões em relação a Toussaint.

 

Poderíamos nos estender longamente sobre dezenas e mais dezenas de outros exemplos, mas creio que os apresentados bastam para mostrar que o procedimento adotado por Torrieri Guimarães em sua pretensa tradução consistiu basicamente em adotar as soluções de Manuel Bandeira, procedendo a modificações de superfície, seguindo um padrão simples e constante, com inversão de palavras e ocasional substituição de termos por sinônimos (“mortos” por “defuntos”, “desfolha” por “despetala”, “exclusivamente” por “somente”, “afaga” por “acaricia” e assim por diante). Sua fidelidade chega ao ponto de apresentar o ruba’i 165 com o 2º. e o 4º. versos recuados, tal como em Bandeira. 

 

Se cópias maquiadas não são fatos inéditos na história da tradução no Brasil, o caso do Rubaiyat vem caracterizado por uma invulgar singeleza: Bandeira lançara sua tradução em 1966, morrera em 1968, seu Rubayat continuava em viçosa circulação; mal passada uma década, os leitores foram brindados com uma versão toscamente copidescada dos ruba’i da lavra tradutória bandeiriana. Se algum consolo há, é o de que a tradução espúria nunca alcançou grande repercussão e não deixou muita memória. Fique, porém, registrada a ocorrência.

 

AGRADECIMENTOS

 

Devo a descoberta dessa fraude a Willamy Fernandes, a quem agradeço vivamente a gentileza em tê-la compartilhado comigo.

 

          Denise Bottmann
Registro, abril de 2017

 

ANEXO

 

Segue-se a listagem dos únicos catorze ruba’i, dentre o total de 170, que apresentam discrepância na quantidade de estrofes usadas por Manuel Bandeira (MB) e por Torrieri Guimarães (TG). Na coluna da esquerda, encontra-se o número do poema; na coluna central, o número de quadras usado por Bandeira; na coluna da direita, o número de quadras usado por Torrieri.

 

Ruba’i      MB              TG

 

10               1                  2
28               4                  3
32               2                  1
53               1                  2
59               1                  2
66               1                  2
73               1                  2
76               1                  2
90               2                  1
93               2                  1
115             1                  2
146             2                  1
147             2                  1
148             2                  1

 

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954. Graduou-se em história pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em epistemologia e teoria da história. Foi docente do departamento de filosofia da Unicamp. É autora de Padrões explicativos na historiografia brasileira e de vários artigos de crítica e teoria historiográfica em revistas especializadas. Atua como tradutora de inglês, francês e italiano desde 1985, na área lítero-humanística, com mais de cento e cinquenta obras de tradução. Na última década, vem-se dedicando a pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. Mantém o blog Não Gosto de Plágio: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/.

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