ANO 4 Edição 55 - ABRIL 2017 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


António Sardinha e o contacto com algum pensamento católico brasileiro

O teórico e político António Sardinha (1887-1925) foi aprofundado em grande parte por Ana Isabel Sardinha Desvignes que desde 2006 tem dado a público teses e correspondência deste grande nome.

 

Influenciado por Maurice Barrès e por outros nacionalistas franceses, o Integralismo é a base de um nacionalismo pan-expansionista.

 

A estadia em Madrid deu muitos frutos ao ir beber de ideias de “utopia hispânica”, num  caldo de pensamento nacionalista que culminaria em 1922 com Primo de Rivera e, mais tarde, com Franco.

 

A última publicação de Sardinha, que só viveu 37 anos, foi o livro Aliança Peninsular (1924), cuja utopia deu azo a dezenas e dezenas de estudos académicos.

 

A América Latina e o Brasil cobririam os limites territoriais de um “império” verdadeiramente “latino”. Para o ideólogo, sobretudo nas questões da “Raça” e do “Império”, teria de se medir índices cefálicos, pormenores biológicos e etnológicos para percepcionar o “Génio Peninsular”. Aliás, desde o século XIX que se problematizam as questões etnológicas de raças perfeitas com vista à genialidade.

 

O “supernacionalismo” de Sardinha teria dado muito jeito ao jovem professor e ideólogo de Coimbra, António Oliveira Salazar (nas vertentes  tradição,  nacionalismo e império).

 

Uma outra vertente emerge, mais ou menos em 1923, com a revista Nação Portuguesa a dar a temática, sobre o Brasil. Gilberto Freire (1900-1987), com o seu luso-tropicalismo, corresponde-se com o português António Sardinha, exibindo uma ironia sobre Portugal e os portugueses. O nosso autor apercebeu-se da situação. Outro pensador brasileiro que se correspondeu com o teórico português foi Jackson de Figueiredo (1891-1928), o qual nunca acreditou numa aliança hispano-sul americana (1924).

 

Outros grandes nomes do pensamento nacionalista brasileiro que se cruzaram, na correspondência, com o português foram Ronald de Carvalho (1893-1935), Elísio de Carvalho (1880-1925), Oliveira Lima (1867-1928), etc.

 

A obra de Silvio Romero, como nos acrescenta a teórica Ana Desvignes, influencia fortemente Sardinha. A partir de 1923 aproxima-se do ideário católico e conservador brasileiro.

 

Fidelino de Figueiredo é fundamental nesta aproximação do político aos pensadores do Brasil.

 

O pensador Jackson Figueiredo, com a sua conversão ao catolicismo, ocorrida em 1919, quando conheceu Alceu Amoroso Lima, trocou correspondência com Sardinha. Em 1921 preside à revista A Ordem e funda o famoso Centro Dom Vital, non Rio de Janeiro. O pensamento positivista ainda se realçava. Mas o filósofo, leitor de Pascal, negava qualquer espécie de individualismo.

 

É semelhante o trajecto destes dois pensadores : Jackson e Sardinha iniciaram um percurso radical, anti catolicista. Mas converteram se nos mais apologéticos católicos. Por exemplo, o pensador brasileiro em 1921 publica  “Do Nacionalismo na Hora Presente” e “Literatura Reacionária” em 1924.

 

 Em 1923 a revista portuguesa Nação Portuguesa dedica um número inteiro ao Brasil.

 

Outra das questões muito abordadas por António Sardinha foi a tese de um “colonialismo ibérico”, muito benévolo por comparação a todos os outros colonialismos. O Brasil seria sempre uma chave de ouro, neste Império.
    

BIBLIOGRAFIA:

 

BARREIRA, Cecília: Três Nótulas sobre o Integralismo Lusitano (evolução, descontinuidade, ideologia, nas páginas da “Nação Portuguesa”, 1914-1926), Lisboa: «Análise Social», p. 1421-1429, 1982

 

CASTELO, Cláudia: O Modo português de estar no mundo. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961), Porto: Afrontamento, 1998

 

CASTELO, Cláudia: Leituras da correspondência de portugueses para Gilberto Freyre, Porto: “As Ciências Sociais nos Espaços de Língua Portuguesa: Balanços e Desafios”, p. 422-444, 2002

 

DESVIGNES, Ana Isabel Sardinha: António Sardinha (1887-1925), Um Intelectual no Século, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2006

 

DESVIGNES, Ana Isabel Sardinha: “Hispanismo e relações luso-brasileiras: a última cruzada contrarrevolucionária de António Sardinha”, Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, p. 75-104, 2016

 

DESVIGNES, Ana Isabel Sardinha: A correspondência de António Sardinha, Lisboa: Universidade Católica, 2008

 

LEAL, Ernesto Castro: A Ideia de Confederação luso-brasileira nas primeiras décadas do século XX, «Ibérica», p. 5-20, 2010

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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