ANO 4 Edição 55 - ABRIL 2017 INÍCIO contactos

Bárbara Lia


A poesia de Bárbara Lia

amorosa sedenta, encha a boca 
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor... Então, enterre-me no céu! 

Marina Tsvetáieva

 

Tsvetáieva pediu: Enterre-me no céu!
Sonhava viver mais perto do terrível falcão
Ansiava alturas para transformar-se em neve
E desmaiar em brancos flocos meio às crianças russas
Antes de a terrível guerra penetrar
Pele, ossos, vidas pequeninas...
Sabia Marina da dor inexorável do adeus
Sabia que ninguém deve morrer sem conhecer:
Um boneco de neve e uma cama branca de amor

 

in Respirar (2014)
O ano da morte de Ricardo Reis

 

Não cante o desprezo dos deuses, Ricardo
Não colha as flores mortas ao lado do Tejo
Os fardos humanos são apenas isto – Fardos
E os beijos sensuais são apenas isto – Beijos

 

Sou toda verão na alcova, acesa,  à tua espera
Estonteante mulher que levas a ver as flores
Enquanto os pássaros trinam alto – Neera!
Nada nos falta, mas, em ti brotam mil dores

 

Quando a morte te buscar, aquela que conheces
Voltarei aos prados colhendo as flores vivas
Tocarei a pele do planeta murmurando preces

 

Banquetearei na relva, as flores como convivas
Dói, Ricardo, saber que todos os campos serão meus
Ainda orvalhados de lágrimas dos belos olhos teus

 

in Respirar (2014)

 

“Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos
Emily Dickinson

 

Não nasci para resfriar o mundo
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas

 

Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol
Do velho de Hemingway

 

Sou mar e trovão no coração
Nasci para amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is my way

 

In A flor dentro da árvore (2011)

Dans l’air

 

Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
 – Rimbaud e eu –

 

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

 

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

 

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

 

- Por isto, tão pouca a vida
para tanta voracidade -

 

in Tem um pássaro cantando dentro de mim (2011)

 

Não sei costurar o invisível
A cada crisálida
Rompida antes do tempo
Borboletas morrem
Em minhas mãos

 

in Respirar (2014)

 

Os meninos e eu

 

Os meninos empinavam pipas;
eu, pássaros.

 

Os meninos folheavam revistas
de garotas nuas;
eu, assistia ao namoro dos sapos.

 

Os meninos iam ao cine;
eu, atravessava a pé
o igarapé.

 

Os meninos desenhavam piratas
tesouros, navios;
eu, a escafandrista solitária.

 

Agora
solidão nos devora
em negros prédios
meio à elite ignara

 

Os meninos vestem
negro/desencanto
seguem com cifras
nas pupilas vítreas

 

Tão tristes os meninos
reclusos, bebendo
o índice Dow Jones
com café.

 

Trocando de amantes
a cada inverno.
A alma pesada os faz andar
em cadência de elefante.

 

Eu,
desenho gravuras
em tons rosa chá
teço minhas roupas
danço minhas músicas
escrevo meus poemas.

 

Não atravesso
o vidro frio do templo
moderno
- shopping center –

 

Não atravesso
a porta de cedro
do antigo templo
(enquanto o Vaticano
não doar aos pobres
todo o ouro seu)

 

Vivo nas esferas
desço ao chão
para pisar águas
dos igarapés.

 

Adormeço
no berço-arraia
que me embalazul
no “mar/
belo mar selvagem…”

 

Insônia


Este é o século da nossa insônia
Mentes plugadas em telas isonômicas
Longe dos mitos e da cosmogonia
Dopados de “soma” e monotonia

Este é o século lavado à amônia
Escravos cardíacos da luz de néon
Escravos maníacos dos mantras
Escravos agônicos do abutre Mamon

E havia esperança no pássaro
Havia luz nas colmeias tardias
Havia ar nas barricadas de Paris
Havia armar-te. Havia amar-te... Havia.

 

in Respirar (2014)

 

Nenhuma palavra guarda
A exatidão da luz
Que os atravessa
Dão ao silêncio suas bocas
E ficam a nadar
No ar da completude
Deste amor nada rude
Nada pálido
A rir de calendários
A chutar o banal
O silêncio das coisas perfeitas 
Os ata
- Pela primeira vez
Amar não mata -

 

Você me amaria se eu não tivesse nome?
vivesse em um jardim: a podadora de bonsais?
se meus dedos fossem garranchos tristes
crispados, imprestáveis para ordenhar
teu pau de primavera?
se minha canção de ninar
fosse o uivo                                   
dos lobos clandestinos
que anunciam o verão?
você me amaria se eu não tivesse nome?
só esta cicatriz nas costas
feita - com urgência –
por alguém que traçou
uma lua e uma lágrima
com lâmina de caçador?
você me amaria sem nome
e com garras horrendas,
meu amor?

 

 

Bárbara Lia nasceu em Assai (PR). Poeta e Escritora. Professora de História. Publicou os livros: “O sorriso de Leonardo” (Kafka edições baratas), “O sal das rosas” (Lumme), “A última chuva” (ME), “Constelação de Ossos” (Vidráguas), “Paraísos de Pedra” (Penalux), “Solidão Calcinada” (Imprensa Oficial do PR), “Respirar” (Ed. do autor), “Forasteira” (Vidráguas), entre outros. Integra várias Antologias, entre elas: “O que é Poesia?” (Confraria do Vento / Cáliban), “O Melhor da Festa 3” (Festipoa), “Amar - Verbo Atemporal” (Rocco), “Fantasma Civil” (Bienal Internacional de Curitiba), “A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua” (Maputo).

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Revista InComunidade, Edição de ABRIL de 2017


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Foto de capa:

25 de Abril por Vieira da Silva


Paginação:

Nuno Baptista


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