ANO 4 Edição 55 - ABRIL 2017 INÍCIO contactos

Antonio Barreto


A Poesia de Antonio Barreto

GATO

 

O principal do gato é a sombra
e tudo o que fica depois
de seu salto

 

O principal do gato é a forma
e tudo o que fica depois
de seu rastro
 
O importante do gato é a unha
e tudo o que fica depois
de seu tato
 
O importante do gato é o olho
e tudo o que fica depois
de se vê-lo
 
O principal do gato é o pêlo
e tudo o que fica depois
de sabê-lo
 
O principal do gato é não lê-lo
em tudo o que fica depois
de se sê-lo
 
O principal do gato é querê-lo
em tudo o que fica depois
de se tê-lo.
 
O mistério do gato: esquecê-lo.
Depois que o gato em nós
se transforma:
a demora do gato que mora na sala,
a ternura do gato que mora no quarto,
embora, o gato, a casa incorpore
(embora, na casa, o gato não more)

 

 O principal do gato é o rato
(e o queijo)
 
E tudo o que fica em nosso desejo
depois que o silêncio do gato transtorna
tudo que em nós do gato retorna:
a fuga, a sombra, a garra, o novelo

 

A IRA DA RETÓRICA

 

Ó rosa horrorosa da genealogia que nos habita
Em argamassas de noitédio e argmas de teologia
Cinco tiros de diébrios calendários nas têmporas
Sofia de outras rosas em quatrodoses de agonia.

 

Ó retratos precoces de uma trombada tecnocrática
Burocracia de almas fazendo a autópsia de Minas.
Ó beócios ó capadócios que deram luz à noiteblu
No dia em que por descuido pesquisei a demolição da aurosa.

 

Como abreviar a solidão das bombas de luz?
Como recordar o futuro nas reminiscências do deserto?

 

Ó ira da retórica, ira da memória videológica!
Ó rosa despudoradamente aberta
Para a invasão dos mísseis e das minhocas!

 

Para sempre aqui timbrada a eternidade dos fígados
E dos poemas?

 

Ó transpiração do intestino em fígado grosso!
Ó miúdos ó paios celestes ó tripas de porco e nacos de laranja!

 

Ó arrozfeijão dos barões assimilados!
Ó gramática de torpedos ó pneus aos quais concedo
Os vestígios de minha viagem ao breu!
Ó brinquedos de palavrear cruzado caneta e dedo
No quadrado da escrituração do medo!

 

Ó tédio segundo os anjos, a propósito da equação de Augusto, o campo!
Ó campos, ó hipocampos, ó ensaios de meteórica teoria,
Essa que introduz no ânus das estrelas
Meus prelúdios, minhas rapsódias,
para o pigmeuleão do relatório!

 

Ó linguagem de cicatrizes que perderam o trem
Parado na estação do comentário!
E imaginou-se apenas nota rodapé reflexão de européus metodologísticos: as variações do Juízo Final.

 

Ó argumento explicativo justificativo avaliativo e expositivo!
Ó fundamentos que abalizaram a meditação possível de menestrel ateu!
E D’eus? Foi eleito por quem?

 

A teus pés, retórica, minha rosa é lâmpada
Que lambe a brasilíngua da íngua dolorida a esmo
E só depois sente o gosto adocicado do neo
Ologismo que transgrido, ó pá, o meu torresmo,
Em busca de outros portuguais.

 

Fabricais vertentes do cotidiano?
Profetizais incógnitas do irremediável?
Transcruzais fronteiras de algébrica fuga?
Descobris limites para as ligações?

 

Do que será, do que virá, saudades? Lembranças? Recordações?
Atirai ao trabalho, à arquitetura do ponto de fuga,
À anunciação do tatibicântico, o louculírico tatibitate.

 

Reinventai o sabão semiótico, o xampu semiológico
Para lavar de uma vez por todas esse giz tatibididático,
Esse verniz profano e cético.

 

(Muito byte para pouco insight os males do Brazilsão)

 

Ó rosa horrorosa do vernáculo! Fuja para o reflexo
Para o métrico do quadrado onde está tudo
Quase claro!

 

E convoque um maciste filológico
Para transportar o teu asséptico distúrbio.

 

ZÚRZIA

 

(à memória de Dantas Motta)

 

deste mundo também não sou mas tudo que me sobe um dia caio tudo que me caio um dia subo tudo que me cabe um dia saibo tudo que me sobe um dia curvo tudo que me é raio um dia cubro tudo que me cubo um dia caibo tudo que me soube um dia esqueço nada que me é noite me amanheço tudo que me pago um dia cobro tudo que me pego um dia obro tudo que me obra um dia sobra e nada que me abro um dia fecha tudo que me é arco um dia é flecha tudo que se mexe um dia para tudo que me pira um dia apara e nada que me digo em mim resiste tudo que me é obra me soçobra e nada que se mira me arremata quando enfim me corro na hora exata tudo que socorro me desata onde tudo foi a solidão persiste onde tudo era tudo iro e oro onde tudo aturo tudo aro e erro aí na roca a roda afia onde nada o fio do urro urra onde tudo berro roca a roça rogo nada teia desse dia me deixará sozinho porque de mim comigo me sobrou o ninho antes que me deixe o passarinho tudo que me vinho venho a ver de nada tudo que vermelho verde em mim se muda outra mente boca de outra sede fico ao viver-me vivo do que meu ser persigo e mudo sonho a fala de perder-me nela a porta que me importa fechada na janela se abre em outra porta que me sumo e assome: meu coração é dela mas virou pronome tudo que me toca enfim me ama o nome e tudo que me cama enfim me adorme e some

 

SUPORTES

 
palavra não existe
não existe poema livro imagem
tela teclado bit byte
painel scanner bat-but
out-door out-window
não existe exit
nem the and
nem no no
nown
nem ecstasy sexy fantasy
de homens-homeros-objexos
de árias ariadnes sem nexo
não!
nem trama pincel tecido
ópera vídeo dança
teatro música tambor
sino som ruído
granada sirene letreiro
guitarra quadrinho prisão

 

... nada disso existe ...
o que existe é truque
&
batuque
&
além disso
sua língua seu olho seu ouvido sua mão
que escreve
em volapuque
seu nariz
que respira
e pira
nessa noite
de tablets
&
note books
além é claro de sua
idiota ideo
linhagem
de sua mental mito
linha de montagem
na alin(g)hagem
dos motores e mutuns
perpébiles
com seus ritos e mutagens
serelépides
nas lápides
paralelebípedes
das tríplices
pílulas pípedes
ou seja:
essas babélicas interlinguagens
essas lateralinguagens
que matam
as mensagens
=
(matalinguagens
de black
blocs
em xok-xoks com as tropas
de choque
do anarco-stablishment
dos Mc
Donalds e Star
Bucks)
Ops!

 

eis aí, portanto, contudo, no entanto
o símio álacre
e hílare
em seu simulacro
de herético homo
(sem hímen)
interagindo
teletrônica
mente
na semiosfera dos palíndromos,
das camas,
e dos caligramas

 

apenas simulábios de semilacres
de bocas assimiláveis
no salivar silente
dos batráquios
refalantes
tudo isco esconso
&
dissimulável
na zona híbrida
e túrbida
do múltiplo
bustrofédon

 

o que passar disso não é alma
mas é tudo o mais
o que ficar disso não é memória
mas é o nada a mais

 

 

Antonio Barreto, escritor brasileiro com mais de 40 livros publicados desde a década de 80. Estudou História, Letras e Engenharia Civil. Morou também em cidades do Oriente Médio (como: Ramadi, Fallujah, Bagdá, Istambul) na década de 80, trabalhando como projetista de estradas e ferrovias. Além de poeta, é cronista, contista, romancista e autor de vários livros infanto-juvenis. Ganhou dezenas de prêmios literários importantes no Brasil, Internacional da Paz (ONU), Ezra Jack Keats (Unicef), IBBY (Unesco) etc. Desde 1999 coordena o Grupo Didacta/TBH, de professores, linguistas e designers dedicados à produção de obras e projetos educacionais, didáticos e paradidáticos de Língua Portuguesa.
antonioba@uol.com.br
http://facebook.com/antonio.barreto.12139

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Foto de capa:

25 de Abril por Vieira da Silva


Paginação:

Nuno Baptista


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