ANO 4 Edição 54 - MARÇO 2017 INÍCIO contactos

Alexandre Brandão, Alexandre Marino e Antonio Barreto.


Tempo de celebrar a Amizade e a Literatura. De Literatura e Amizade: Três Crônicas feitas de Entrelinhas e Letras.

A dor de entremeio

Alexandre Brandão

Para Alexandre e Antonio

Penso em dois amigos, poetas e conterrâneos, a quem devo a chance de ter passado por experiências poéticas não muito usuais. Um deles, num dia, e, muitos anos depois, o outro, ao lerem um de seus poemas em uma pequena roda na qual conversávamos, deram uma travada, tropeçaram na leitura e sucumbiram à lágrima. Qualquer leitor percebe que, na criação daqueles versos, ambos foram aonde poucos vão — ao inferno, ao céu, sei lá em que extremo está localizado o sítio pelo qual transitam os verdadeiros poetas. Vi quando ambos reviveram o gesto inaugural de seus poemas, momento inevitavelmente de caos, de aparição sem disfarce das muitas camadas da emoção, empilhadas sem ordem sobre um móvel esquecido entre o cérebro e o coração.
O que o poeta faz ninguém faz. Possuído pela dor — para ser coerente com as leituras que ecoam nesta crônica, tenho de falar em dor —, ele a espalha no papel, depois, com algum distanciamento — quando fica a serviço da razão —, ordena tudo em versos, que deixam de ser dor somente e se transformam em beleza doída, em arte. O leitor tem contato com a dor transformada e reconhece a dor bruta sem nunca alcançar sua intensidade. O poeta, ao voltar algum tempo depois ao poema, revê na beleza com que ornou sua dor a dor autêntica — e seu corpo acusa o golpe.
O que há de extraordinário nisso? O poeta mergulha no que lhe é mais íntimo e exterioriza sua intimidade para torná-la atraente a quem nada tem a ver com ela. Ele doura a pílula, trapaceia, mas, no fundo, no fundo, não ordena o caos. (E ele, mais que ninguém ou mais ninguém, sabe disso.) Se, ao escrever, o poeta corta, longe da vista de todos, os pulsos, ao ler, repete o gesto, a vista de poucos, e sangra de novo.
Escrevo com ostentação, certo de que estive entre uns poucos escolhidos, num instante com vocação de raro. Em público, o poeta evita a leitura autofágica, reservando aos mais chegados, em um sarau improvisado, o próprio desamparo. É um momento mais de confissão que de outra coisa — nele, a tal vaidade do artista não entra, talvez fique fumando lá fora, no sereno frio.

 

Amizades feitas de letras

Alexandre Marino

Quando me perguntam sobre amigos me sinto um pouco saudosista. Tenho poucos amigos de infância. A maior parte de minhas amizades foi construída na adolescência, época em que os nervos e os hormônios estão à flor da pele e não raro você precisa de uma mão que lhe dê apoio. Depois, deixando a adolescência para trás, mas ainda bem perto, vem a universidade, onde as afinidades nos trazem novos amigos – que nessa condição permanecem pelas décadas adiante.
Um pouco saudosista, mas nem tanto. Continuo aberto a novos amigos, ainda que concorde, no geral, que ao fim do período de universidade novos amigos se tornem espécimes raros. Amizades são como vinho, o tempo e o envelhecimento as amadurece e aprimora, ainda que não se possa eliminar o risco de azedamento. Já as afinidades estabelecem laços, mas as afinidades mudam com o tempo, o que não apenas pode afastar velhos amigos, como impedir o surgimento de novos.
A literatura é excelente amálgama para aproximar pessoas, e mais que isso, unir. E costuma ser paixão da vida inteira, o que torna as afinidades, e em consequência as amizades, sólidas. Já a política é um explosivo capaz de mandar pelos ares amizades fortes como rochas, mas seus movimentos são efêmeros, o que torna um risco colocá-la acima do que de fato nos toca o coração.
Falemos, portanto, de literatura, atividade tão necessária nestes tempos de violência, agressividade e exacerbação de rancores. Parte considerável de minha tímida lista de grandes amigos foi a literatura que me apresentou. O amor pelos livros e, aos poucos, pela escrita filtrou, uniu, estabeleceu laços, promoveu encontros.
Tudo começou lá no interior do Brasil, em Passos, na sede da Upes, entidade estudantil que resistia às proibições da ditadura militar, no início da década de 1970, quando uma garotada inquieta e curiosa decidiu lançar uma revista literária para se manifestar com liberdade. À frente do projeto, eu, Antonio Barreto, Marco Túlio Costa, Marise Pacheco, e uma turma boa de briga. A revista, Protótipo, durou sete edições, entre 1972 e 1975. Tínhamos reuniões frequentes para discutir os textos a publicar, e além disso líamos muito, trocávamos impressões de leitura, emprestávamos livros uns para os outros, e descobrimos um universo que não teremos desvendado totalmente até nossos pontos finais.
Eu tinha 16 anos quando lançamos a primeira edição da revista. Tinha a impressão de que estava me envolvendo com algo grandioso, sem conseguir ainda discernir a dimensão daquilo. Escrevíamos compulsivamente. Tínhamos projetos literários pessoais, e já nos sentíamos capazes de discutir e opinar sobre o tema. Eu me sentia grande, maduro e preparava minha caminhada. Mas fortes, mesmo, foram os laços com que a literatura nos amarrou. Ali construímos não apenas a magia de transformar vida em palavras e vice-versa, mas também a amizade.
Alguns anos depois fomos buscar novas fontes de inspiração em cidades maiores. Por ocasião do último número da Protótipo eu e Barreto já morávamos em Belo Horizonte, onde continuamos nos vendo e conversando sobre poesia e livros. O tempo passou, fui para a universidade estudar jornalismo. Barreto abandonou o curso de letras, lançou seu primeiro livro... Os laços se fazem e refazem.
Meu irmão mais novo, Luiz Fernando, e seus amigos, incluindo um xará meu, Alexandre, brincavam de carrinho no quintal enquanto eu e meus amigos da Protótipo atravessávamos tardes e noites discutindo literatura. Eu lhes dirigia aquele olhar superior típico de irmão mais velho, e lá estavam eles, colegas desde os primeiros anos da escola, fingindo que não me viam. Que coisa! Eu tinha quase o dobro da idade deles!
Desde os tempos da Protótipo eu era leitor assíduo do Suplemento Literário de Minas Gerais, criado pelo grande Murilo Rubião nos anos 1960 na Imprensa Oficial de Minas Gerais. Ele circulava encartado no Diário Oficial de Minas e minha mãe, que era professora, o ganhava de presente das amigas da Delegacia Regional do Ensino de Passos e o repassava a mim. Mantive o hábito de lê-lo em Belo Horizonte. Um dia, um exemplar me chamou a atenção. Havia um conto de um escritor estreante, um certo Alexandre Brandão. O mesmo sobrenome do amigo de meu irmão... Seria coincidência, ou era ele mesmo? Li os dados biográficos: que bela surpresa! O pirralho também era escritor!
A literatura nos aproximou. O Xará correu atrás, e atualmente tem quase a minha idade... e seguimos juntos também na literatura, renovando a descoberta de que brincar de escrever é a melhor diversão quando os carrinhos de brinquedo perdem a graça. Ele leu meus livros, li os dele, e de vez em quando inventamos algum jogo literário para atiçar a chama que nos mantém vivos, com aquele mesmo olhar do menino que descobre o mundo e do adolescente que derruba horizontes.

 

A AMIZADE, O POETA E A CAIXINHA DE FÓSFOROS

Antonio Barreto


         

“Nenhuma literatura vale mais do que uma boa amizade!” – disse certa vez o poeta. É com essa frase quase bíblica – que poderia estar gravada num tijolo de barro da Mesopotâmia – que venho tentando pautar minha vida, desde que conheci esses dois amigos e conterrâneos: Alexandre Marino e Alexandre Brandão (acrescentando aí também, logicamente, o manomago: Marco Túlio Costa).
          O primeiro amigo me veio ainda nos tempos de estudante, em Passos, no início da década de 70, quando editávamos com o Grupoema a revista literária Protótipo e militávamos no movimento estudantil secundarista através da UPES (União Passense dos Estudantes Secundários). Ali, como um bando de elefantes e rinocerontes adolescentes e contestadores (entre 14 e 17 anos), promovíamos bailes, gincanas, campeonatos esportivos e culturais; produzíamos programas de rádio e editávamos jornais (O Liba) e revistas. Tudo sob os eflúvios da turma do Pasquim e a trilha sonora dos Beatles, Creedence, Bee Gees, Jovem Guarda, Raul Seixas, Sá & Guarabira, Caetano, Bethânia, Chico Buarque e Geraldo Vandré. De madrugada, fazíamos serenatas pras namoradas, cantávamos para os mortos no cemitério, subtraíamos galinhas dos vizinhos pra fazer galinhada com hi-fi e cuba libre. O José Alexandre Marino (que tinha apelidos duplos: Zeléx e Zé Dedéia) era fino especialista numa arte: a de pular muros altíssimos e subtrair dos quintais alheios cachos de bananas verdes... Dizia ele que “pra curar ressaca e dor de cotovelo”. Bom: segui sua receita e o Zeléx então virou irmão, além das minhas homéricas e bananais ressacas-com-dor-de-cotovelo. Pois, nas lides estudantis, nas pelejas etílico-culturais entre o Bar do Zé Feio e o Bar do Décio, entre uma sinuca e outra, lá estava o amigo que lia meus pré-poemas e pré-contos. Estudávamos em colégios diferentes, mas isso não impedia nada. Além do mais, eu era aluno de sua mãe no Colégio Estadual, a saudosa Dona Maria Gomes, minha professora de Desenho.
Texto novo na área? Trocávamos opiniões (muda isso, tira aquilo, põe isso). E trocávamos livros. Líamos muito, muito mesmo! E trocávamos caneladas no futebol e também trocávamos de namoradas. Me lembro que na primeira vez que ganhei um prêmio literário importante, o Festival Nacional de Arte do Paraná, chamei o Zé pra me acompanhar no evento. Conosco também foram: Paulo Régis da Silva (outro amigomano que se foi muito cedo) e o Marco Túlio Costa (que tinha na sua casa uma das melhores bibliotecas de Minas: a Biblioteca do Alvimar Costa, seu pai, o Egiptólogo). Em Curitiba ficamos por uma semana inteira, hospedados no Colégio Estadual, assistindo shows, recitais, teatro; conhecendo a cidade e aprontando algumas com o Rui Werneck de Capistrano (outro amigomano nativo, também premiado no evento). Este nos aplicou na arte de tomar cachaça gelada e caçar porco-espinho no Passeio Público, um parque que ficava nas imediações do colégio. Depois viajamos juntos pra vários outros eventos literários Brasil afora. Sempre que um ganhava um concurso (e às vezes até uma reles menção honrosa) levava o outro. E assim viemos vindo, até aqui, eu e Zé, literariamente irmãos. E assim será pela vida afora.
          O segundo “grande Alexandre, o Grande”, o Brandão (que também tem apelidos duplos: Xandão e Xanbran) fiquei conhecendo mesmo, de verdade, já aqui em BH. Em Passos, talvez devido à diferença de idade (sou uns 10 anos mais velho que ele) vi-o muito pouco. Quando saí de Passos ele ainda era menino. Mas eu já sabia: tratava-se de um garoto “que amava os Beatles, os Rolling Stones e escrevia muito bem”. Xandão me chegou através de um poema. Sim, ele é poeta dos bons! Na época (já nos anos 80) Murilo Rubião havia me chamado pra fazer parte da comissão de redação do “Suplemento Literário de MG”. Eu era encarregado de ler, analisar, opinar (por escrito, numas fichas) e aprovar ou não os poemas que chegassem para publicação. De cara carimbei lá: APROVADO! O poema do Xandão fez um sucesso danado. E dali pra frente fomos nos sabendo por aí (ele em BH, eu no Iraque; ele no Rio, eu em BH), até que finalmente chegou o século 21 e nos tornamos amigomanos de verdade. Desses que nem precisa falar: a gente já saca o outro pelo olhar, pelo jeito de rir, pela inflexão da voz ou por um gesto pego pela metade. Xandão é desses caras que dá vontade de ficar horas e horas conversando com ele. Principalmente agora que voltou a tomar uma cervejinha (o que, antes, era um baita sacrifício pra mim). Como pode um cara que nem ele não tomar cerveja?
Hoje, vira e mexe, numa roda de boteco, quando os gornopes já começam a ultrapassar a linha divisória dos três chopes bem tirados e o papo adentra pelo gramado da literatura, um deles sempre me indaga: “E aí? Conta aquela sobre a amizade... Como foi que você conheceu o Drummond, o poeta? Conta, conta!”
Vai. É uma história que já derramei várias vezes, e que envolve outros personagens, outros grandes amigos. E acho que, cada vez que a reconto, o faço de maneira diferente, ou acrescento um detalhe. Talvez pelo ensinamento que ela contém sobre a literatura e o bem querer, sobre o afeto e o não poder. Talvez porque eu concorde com aquele provérbio árabe que diz: “As visitas raras aumentam a amizade”. Ou talvez pra não dizerem por aí que não sou mentiroso. Ou que não tenho veia de ficcionista. E bem sei: há coisas da memória que a gente vai esticando sempre, como se com isso pudéssemos também ir alongando o tempo. Ora, o tempo é só isso: uma espécie de estilingue. Então deixa eu botar (novamente) minha “pedra no caminho” desse bodoque e esticar a goma. Depois, se eu quebrar a vidraça, tento pagar o conserto.
          Puxemos pela memória...
          Eu tinha 27 anos, era 1981. Acabara de voltar de uma primeira viagem ao Iraque, onde estive trabalhando na construção da ferrovia Bagdá-Akashat e da Expressway, que ligava Bagdá a Ammam, na Jordânia. Jeferson de Andrade, outro grande amigo – e o cara que me deu o primeiro emprego de datilógrafo em Beagá, em 73 – já era editor da Record, no Rio. A Record tinha acabado de “comprar o passe” de Drummond, que estava na José Olympio. Então, Jeferson e CDA ficaram amigos. O primeiro editava o segundo. E eu morria de vontade de conhecer pessoalmente o meu ídolo maior: ele, o grande poeta de Sentimento do mundo! Na verdade, já havíamos trocado correspondência, depois que CDA leu meu primeiro livro: O sono provisório. Esse livrinho (editado pelo Paulo Rocco, que na época estava na Francisco Alves) havia vencido o prestigioso Prêmio Remington de 77, concorrendo com mais de 3 mil escritores do Brasil inteiro. Eu era totalmente inédito em livro, e com 23 anos. Aquilo chamava a atenção do pessoal da área, modéstia às favas! Drummond recebeu o livro via Affonso Romano e Silviano Santiago, que estavam na Comissão Julgadora, juntamente com a professora Dirce Cortes Riedel, da UFRJ. O poeta, então, me encheu a bola numa carta (aliás, chegou até a fazer algumas linhas sobre minha poesia, em uma de suas crônicas do JB). Aí, passamos a trocar figurinhas.
Lá um belo dia o Jeferson me liga e fala: “– Quer conhecer o hôme?”. Quase desmaiei. E fui pro Rio, mais a Graça, minha mulher. Lá chegando, encontramos também com o Roberto Amado (sobrinho do Jorge Amado) que era doidinho pra conhecê-lo, que nem eu. Aí, na hora de entrar e subir naquele elevador pantográfico do prédio, na Rua Conselheiro Lafaiete, me deu uma suadeira, uns arrepios na espinha e coisital... Coisas de tiete mesmo, diante da possibilidade de conhecer o ídolo maior, o “monstro sagrado” da adolescência e da juventude. Na hora agá as pernas tremeram. Falei: “– Podem ir na frente que vou tomar um pouco mais de coragem! Vou depois...”.
Os três subiram. Na porta do prédio acendi um cigarro (parei de fumar já faz 5 anos mas, na época, eu traçava mole uns 20 cigarros por dia!). Me lembro que era o último palito de uma caixa de fósforos... Tentei relaxar e, depois de uns minutos, vupt! Subi. Subi e, de repente, vi o cara ali na minha frente: magrinho, cara chupada, triangular, queixo proeminente (que nem o meu), olhinhos vivos e azuis, serelepe, cordial. E como falava! Ao contrário do que muitos pensavam, não era tímido coisa alguma. Tinha uma verve, uma oratória de deixar qualquer bom “adevogado” no chinelo.
          Naquela tarde conversamos e conversamos, entre doses de conhaque (um Napoleón legítimo, que ele me deu de presente) e uns queijinhos provolone, de tira-gosto. Ele queria também me servir uma pinga “da boa” – pois já sabia que eu gostava de apreciar umas canjebrinas – mas resisti. Não misturei. Só misturei as palavras. Eu parecia uma máquina de escrever enferrujada. Catilografava o ar, mas não conseguia encontrá-las, as palavras... Cadê elas? Fugiram pra Pasárgada? Ou pra Itabira?
          Nesse vaivém de batucada cacofônica, coração também desfibrilado, de repente, me surgiu um assunto. Falei que já estava meio desanimado com “esse negócio de ser poeta, num país de ágrafos e analfabetos...”. Enfim, reclamei da falta de leitores para o gênero poético. Então ele me respondeu o seguinte (e nunca mais me esqueci disso):
          – Olha, meu rapaz, se você fosse jogador de futebol, com 27 anos nas costas e ainda não tivesse sido convocado para a Seleção Brasileira, eu te daria razão. Mas você, nessa idade, já faz parte da Seleção Brasileira de Poesia, não percebeu ainda?    
          Me arrepiei! E aí ele completou o meu nocaute. Me mandou pra lona, de vez:      – De mais a mais, normalmente, um poeta só se faz depois dos 60 anos bem vividos... De forma que, aos 27, você já tem 33 anos de frente, no páreo com os outros convocados!
          Aí, o que restava da minha tapera veio abaixo! Puxei outro cigarro pra relaxar, mas cadê fósforos? Ele percebeu minha ansiedade e foi lá na cozinha buscar uma caixinha. Gentilmente acendeu-me o cigarro – como era cavalheiro! E botou a caixinha em cima da mesa. Tentei rebater a teoria dele, dizendo que era “muito tempo pra encarar, que nunca havia pensando em viver até os 60 anos”, coisital... essas velocidades que a gente se impõe na juventude. Ele falou que também, na minha idade, pensava da mesma forma.
          Rimos a valer, conversamos fiado mais um pouco. A Graça descobriu com ele alguns parentes comuns em Itabira (coisas de mineiro, sempre) e até ganhou de presente um desenho que ele fez, de próprio punho, na hora, de São Francisco de Assis. Jeferson e Roberto ficaram na maior inveja. E, na saída, depois de mais um golinho de Napoleón, o Roberto pegou a caixinha de fósforos em cima da mesa e pediu pra ele botar um autógrafo nela: iria levá-la de recordação. Drummond assinou, nos despedimos e descemos novamente pelo elevador pantográfico. Lá embaixo protestei:
          – Roberto, essa caixinha de fósforos devia ser miiiiinha, pois ele acendeu com ela foi o meeeeeeu cigarro! E não o seu! (Roberto também fumava).
          O amigo propôs, então, que jogássemos uma partida de porrinha – era um exímio jogador de porrinha. E quem ganhasse ficaria com a caixinha. Claro, ele tinha certeza que iria ganhar mais essa. Jogamos. Saí de lona. Ele cantou dois palitos. Eu cantei um... e pimba! Acertei!
          Até hoje tenho essa caixinha guardada no meu escritório, do jeitinho que ela ficou: com 44 palitos! Só um foi usado! E esse um palito, mais tarde, Roberto me confessou: ficou com ele. Pegou-o no cinzeiro e levou-o de lembrança, por via das dúvidas...
          Naquele dia, então, ouvi do mestre, na despedida, algo que nunca mais me esqueci. E que procuro sempre colocar em prática na minha vida (antes de riscar um fósforo pra iluminar a escuridão dos dias):
          “Nenhuma literatura vale mais do que uma boa amizade!”
          E acho que essa é a frase que ilumina até hoje o meu caminho, no coração desses dois grandes Alexandres: o Marino e o Brandão! Evoés!
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PS para lembrar e para não “desanimar” os poetas iniciantes: Muitos reclamam, hoje em dia (mesmo  com o advento da Internet), que não conseguem editores, nem leitores, apesar das redes sociais frequentadas por dezenas, centenas, milhares de pessoas, diariamente. Ora, é bom lembrar que Alguma poesia (1930), livro de estreia de Drummond, foi uma edição de apenas 500 exemplares, sob o selo imaginário de Edições Pindorama (criado por Eduardo Frieiro) e com impressão facilitada pela Imprensa Oficial de MG, onde CDA trabalhava. Detalhe: a edição foi descontada na folha de vencimentos do poeta. Segundo consta, na noite de lançamento, vários amigos ofereceram-lhe um jantar comemorativo e no qual foi efusivamente saudado por Milton Campos, seu amigo. Seu segundo livro (Brejo das Almas, 1934; sob o selo da cooperativa “Amigos do Livro”) teve edição menor ainda: 200 exemplares. E o terceiro, Sentimento do mundo (1940, também custeado pelo poeta através do selo Pongetti, Rio), teve a “fantástica” edição de 150 exemplares! – também distribuídos entre os amigos. Somente em 1942 é que CDA (com o volume Poesias, reunião dos três títulos acima citados) conseguiu uma editora disposta a bancar os custos de sua publicação. Drummond, então, tinha 40 anos.

 

Alexandre Brandão, Alexandre Marino e Antonio Barreto

 

Alexandre Brandão, Antonio Barreto e Alexandre Marino

 

Alexandre Brandão

 

Alexandre Marino

 

Antonio Barreto (Foto de Ronaldo Almeida)

Alexandre Brandão, escritor mineiro que vive no Rio de Janeiro, Alexandre é autor de livros de crônicas e de contos publicados desde 1995. “Qual é, solidão?”, lançado em 2014 pela Editora Oito e Meio, é o mais recente. Foi vencedor do “Bolsa do autor”, da Funarte, em 2000, escreve para a revista Rubem (rubem.wordpress.com) e mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com.br). Participa do “Estilingues”, grupo que lançou, ao longo de seus 30 anos, três coletâneas de contos de circulação não comercial.
Alexandre Marino nasceu em Passos, Minas Gerais, e lá viveu até os 17 anos, quando, já se sentindo escritor, foi morar em Belo Horizonte, terceira metrópole brasileira, onde foi estudar jornalismo. Lá publicou seus dois primeiros livros – Os operários da palavra (1979) e Todas as tempestades (1981), ambos de poesia. Depois de oito anos foi viver em Brasília, onde costuma se perguntar: “Que diabos estou fazendo aqui?” Mas foi em Brasília que aprendeu a ver o mundo como vê hoje, apesar da miopia, da diplopia, da alotropia e da morte das utopias. Lá escreveu seus livros seguintes, também de poesia – O delírio dos búzios (1999), Arqueolhar (2005), Poemas por amor (2007) e Exília (2013), além de um novo título, também de poemas, que vem por aí, e grande volume de crônicas, contos e outros textos que pretende reunir em breve.
Blog: www.alexandremarino.com.br ; Facebook: https://www.facebook.com/poetaAlexandreMarino/ ; Contatos: poesianomade@gmail.com

Antonio Barreto, 62, nasceu em Passos (MG) e reside em BH. Já fez parte da comissão de redação do Suplemento Literário de MG. É cronista, contista, poeta, romancista e autor de literatura infanto-juvenil com mais de 40 obras publicadas, entre elas: A Guerra dos Parafusos; O Sono provisório; Vastafala; A noite é um circo sem lona, A Barca dos Amantes, Lua no Varal, Isca de pássaro é peixe na gaiola, O papagaio de Van Gogh e Livro das Simpatias. Venceu alguns dos mais importantes prêmios literários do país. 
Contatos com o autor – E-mail: antonioba@uol.com.br / Facebook:https://www.facebook.com/antonio.barreto.12139

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Revista InComunidade, Edição de MARÇO de 2017


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Foto de capa:

Jackson Pollock - Black poured over colour


Paginação:

Nuno Baptista


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