ANO 4 Edição 54 - MARÇO 2017 INÍCIO contactos

Maria Estela Guedes


Beleza tocada em José Emílio-Nelson

Santa, perfeito Verbo, Língua, Santa,
Santa que fala pelos cantos,
E é tocada pelas sombras andando ao sol.
[…]
É bífida, a Língua

José Emílio-Nelson, “O olho intrusivo”

 

 

Beleza tocada (Lisboa, Abysmo Ed., 2016), o mais recente livro de José Emílio-Nelson, Obra poética, em subtítulo, reúne as obras que publicou entre 1979 e 2015. São quase 740 páginas de prosa e verso muito difíceis de criticar, por diversa ordem de razões, a mais óbvia por se tratar de literatura fescenina e iconoclasta. Ela ataca alguns dos pilares da nossa cultura, como a moral sexual. Não é sequer fácil de citar, mas daremos o exemplo breve e mais laboratorial do que animal da página 381, centrado nuns fetos conservados em frasco num museu, coligido n’A festa do asno (apesar de o bestiário implicar mais os cães – incluídos os cães do Senhor, ou dominicanos - do que O burro de ouro de Apuleio) :

 

Na frascaria das prateleiras altas,
Na penumbra da sala,
Uns fetos em gosma floresciam pelo brilho da chapa em latim que os
          legendava.

Um crucifixo, verdete.
E um dístico que nos alivia.
(Quem chora a morte a cão que renasce?)

 

Não devíamos considerar a originalidade um caráter exclusivo do autor que assim classificamos. José Emílio-Nelson é um dos poetas mais originais que conheço a escrever na nossa língua, apesar de se integrar numa linhagem que vem desde autores clássicos, passa pelas cantigas de escárnio, por Rabelais, Bocage, por Sade (e por Munch e Masoch entre outros, n’ A palidez do pensamento, pp. 101-111), pelos frades escrevinhadores d’ O Palito Métrico, etc., e chega ao Abjeccionismo, onde se encontra, ou onde eu lhe promovo encontro, com o também originalíssimo João César Monteiro. Esta lista pode ser alargada às centenas de nomes e até ao anonimato dos decoradores de catedrais, com as suas figurinhas obscenas a acompanharem nas gárgulas o escorrimento da chuva ou  desenharem o portal para o divino. Centenas de nomes é nada se pensarmos que só no presente e só em Portugal devemos ter no ativo mais de três mil escritores. Boa pergunta para a secretária da Associação Portuguesa de Escritores: - Quantos são os sócios da APE?

 

Então, começando por João César Monteiro, o maldito cineasta que encarnou a pessoa de Deus, e informou que o filme Branca de Neve tinha sido criado do ponto de vista do olho de Georges Bataille, dizia ele que não era abjecionista, sim abominacionista. Qual a diferença? O abjecionista é o surrealista português, é aquele que revela os segredos da abjeção mundana, nele como em José Emílio-Nelson, antes de Abril de 74, a ditadura da moral de sacristia e a censura política, em primeiro lugar. Hoje há outras sacristias e outros motivos de sátira política. Transgride-se a moral profana para combater a abjeção. O abominacionista vai mais longe, é sacrílego: não se limita a decorar com figurinhas obscenas o arco exterior das portadas de igreja, entra no espaço destinado à oração e transgride o que pertence ao divino.

 

Voltemos aos números: poucos têm esta coragem. Mais poderosa ainda do que a censura é a auto-censura, o medo de as nossas palavras nos fazerem perder família, amigos, emprego, tudo o que nos oferece sofá e televisor para o conforto dos dias. Neste aspeto, José Emílio-Nelson não usa sofá nem otomana, trepa ao trono da soberana elevação a que uma expressão como “tragi-comédia” talvez assegure inteligibilidade. Vejamos: os frades e outros estudantes que escrevinharam os versos macarrónicos d’ O Palito Métrico assumem postura de Zé-povinho, calçam baixo coturno, como os populistas, de modo a garantirem ao discurso escatológico a sua verdade humana. Como se só o povo dissesse e conhecesse palavrões e o que lhes corresponde em coisa e ato. O autor de Beleza tocada, e já o título merece exegese, coloca-se, com a Beleza, no trono celeste e é lá, no alto da Alta Cultura, que toca a maçã tocada, ou é lá que se aproxima do Sol, como Ícaro, “Sem beleza, sem apear-se,/ Dardejante com /Asa da descida,/ Asas de cinabre,/ Asas de perjúrio, / Asas resplandecentes. Se acerca do Sol.” Em A coroa de espinhos, p. 269). Daqui um tremendo contraste entre a elevação da Estética e a peniqueira matéria aqui e ali defecada.

 

Da outra parte, há muitos, para voltarmos à questão estatística da originalidade. Por exempo, Herberto Helder teve um séquito de seguidores, a dado passo metade dos poetas imitava-o e a outra metade fugia disso, como tão bem notou Pedro Proença no meu segundo livro, A obra ao rubro de Herberto Helder. Talvez por isso ele tenha fugido nos últimos livros para o extremo oposto, o iconoclasta, o sacrílego, o da beleza tocada – como da fruta com sinais de podre - mas não chegou a tempo de constituir obra que a legitimasse perante a censura alheia. Em suma, o grande poeta  não foi assim tão original, não por defeito dele mas por excesso dos outros. A originalidade não consiste só em sermos únicos mas também em nos deixarem, por pudor ou barragem de arame farpado, ficar sós com a nossa própria idiossincrasia. Quando os predadores se apropriam das nossas características pessoais, a beleza pode ficar tocada e então começam a desenvolver-se aí  as larvas da academia.

 

As dificuldades que criam barragem não só à leitura como à crítica, e por isso à predação, são muitas em José Emílio-Nelson, aponto só duas ou três: o índice de títulos, por ordem alfabética de artigos, sabendo nós que o artigo definido ou indefinido inicial não conta para fins de indexação, o que torna satírica a sua inutilidade; o vocabulário raro, erudito, arcaico – “(De amor) velido”, e ainda mais, na glosa de trovadores, pp. 36-37 - ou científico – (“A vagina é /Galbo gálbula gálbano”), em “Nu inclinado”, p. 72; a sintaxe não normativa; a decomposição da palavra em elementos para desenhar figuras, à maneira da poesia visual, e neste caso tomemos por referência o modo como o título da obra se dispõe graficamente na capa dura (na página de rosto já a disposição difere):

B
EL
EZ
ATO
CA
D
A

 

As primeiras letras tornam-se sílaba e esta transforma-se em palavra, Bel. Bel, antigo deus ainda resistente em topónimos como Belmonte, foi transformado em Demónio pelos padres, quando a cristianização soterrou as culturas primitivas. É Belzebu, o Senhor das Moscas, é ele quem toca a beleza, é a sua larva que faz apodrecer a maçã do Paraíso. Os sátiros abundam nesta lírica, a assegurar-lhe a valência satírica, ou mesmo satânica, como se lê logo na abertura do livro Extrema paixão, de 1984, com o poema intitulado “Satan”, e como vemos logo em epígrafe, quando o autor descreve a Santa Língua, tocada e bífida, como a da serpente do Paraíso.

 

José Emílio-Nelson encripta voluntária e involuntariamente, do primeiro lado porque isso o diverte, faz parte do prazer de criar, do segundo porque o léxico pressupõe uma encriptação, aquela língua bífida das serpentes (e outros répteis) - o segredo é-lhe conato, tal como a revelação. Daí os dicionários, certo? Ninguém domina integralmente o código ou, para lembrar Umberto Eco, é por sentirmos prazer nisso e querermos dominar códigos que elaboramos listas, listas como os índices de Beleza tocada. Porém, não é Umberto Eco, sim Georges Bataille, a mais profícua bengala para nos atrevermos a calcorrear o labirinto da poesia deste autor, cujo fio de prumo mede exatamente a distância entre o Mal e o Bem.

 

Georges Bataille formulou a ideia de que existe uma relação estreita entre o Mal e a Morte e entre estes e o erotismo, a cujo clímax, de resto, atribui o descritivo de petite mort. Pequena morte, diz o autor de La Littérature et le Mal. A poesia de José Emílio-Nelson, conduzida por estas pulsões, desafia o leitor, força-o a tomar partido moral, entre o Bom e o Mau, e ético, entre o Bem e o Mal. O leitor defende-se, eu defendo-me, deixando aos juízes deste mundo a pena ou o prémio, e consentindo à Literatura aquilo de que ela precisa: liberdade para morrer, se tal deseja, de tanta transgressão e de tanta beleza.

 

Mas atenção: o prazer e a beleza das palavras não é transponível para a realidade, do mesmo modo que alguém certa vez negou que fosse desejável uma diva com “colo de marfim”. Creio mesmo que a designação de “erótica” é inapropriada para classificar certa arte, como a literatura de Sade, a filmografia de João César Monteiro, a poesia de José Emílio-Nelson e até os contos de Luiz Pacheco. O conceito de erotismo merecia revisão. Se erótico é aquilo que dá prazer e apela para o desejo sexual, então não é disso que estivemos a tratar. A transgressão, o sado-masoquismo, a visão da matéria fecal, a tortura, o MAL, enfim, não fazem parte do sex-appeal de ninguém, sim do seu contrário. São sex-repellents. 

 

O leitor rende-se: é demasiado normal para sentir prazer adentro do que as sentenças significam. E provavelmente é esse sex-repellent o maior embate da arte contra a abjeção da vida, é esse caráter que toca a Beleza com sinal repulsivo, e daí o seu poder de combate ao que merece ser banido da vida.

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Revista InComunidade, Edição de MARÇO de 2017


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Jackson Pollock - Black poured over colour


Paginação:

Nuno Baptista


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