ANO 4 Edição 54 - MARÇO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


O terço, o texto: crônica

Numa entrevista, o bom romancista capixaba Reinaldo Santos Neves, ao falar de sua formação católica, realça a relação entre catolicismo e literatura, afirmando que essa é, para ele, a religião mais literária. Penso nisso ao me recordar dos terços rezados por minha família, quando era menino. Antes mesmo de frequentar missas (o que deixei de fazer há muito tempo), a religião adentrava nossa casa através de terço a Nossa Senhora das Graças. Na casa de meus pais era (e ainda continua) do dia 31 de dezembro a 15 de janeiro; na casa de meu avô era na primeira quinzena de dezembro; na casa de minha tia-avó Baiá era na segunda quinzena de maio. (Não me esqueço de que uma vez, meu irmão caçula, sempre travesso, querendo ver de perto a cobra pisada pela Virgem, puxou a fitinha em que se apoiava a Nossa Senhora e ela levou uma senhora queda pior do que a da Terezinha de Jesus. Espatifou-se toda. Meu avô, pacientemente, ficou horas tentando colar os pedacinhos...)


Esporadicamente ia à casa de outros tios, mas foram nessas três casas que me familiarizei com mistérios gozosos e dolorosos; com aquela penca de Ave Marias e Santas Marias, a linda e difícil de decorar Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, que era introduzida por uma breve oração que falava em “infinitas graças” e “soberana princesa”. Apesar de, muitas vezes, achar infinito e entediante o terço, fui poeticamente contaminado por adjetivos que apareciam nessas orações. Na Salve Rainha há clemente, piedosa, vida doçura, olhos misericordiosos, degredados filhos de Eva- Meu Deus, nós é que éramos tais degredados!;  há ainda as metáforas que achava originalíssimas (neste vale de lágrimas; deste desterro); a inusitada exclamação e imagem jurídica (Eia, pois, advogada nossa); e o que me seduzia de vez era aquela sucessão de verbos (suplicando gemendo e chorando).


Se havia certa monotonia na sequência das Ave Marias e Glória ao Pai, havia uma espécie de sobremesa (ou sobremissa) que era a cereja do bolo e, para mim, uma dízima periódica de mistérios jorrados pelas palavras poéticas: era a Ladainha! Havia a beleza do coro que fazíamos com o “rogai por nós”, marcando um esplêndido ritmo, com vozes variadas, desde a baixa e grave como a do vovô, sempre ajoelhado e com os cotovelos fincados numa cadeira, a aguda e saliente das irmãs e primas menores, que queriam dar o ar de suas graças à Senhora das Graças. E, acima de tudo, a riqueza das expressões simbólicas, como Porta do Céu, Estrela da Manhã, Consolação dos Aflitos, Arca da Aliança, Torre de Marfim, Rosa Mística e, céus, Causa de Nossa Alegria. Ainda não havia escrito meus primeiros versos (acho que ocorreu aos dez anos), mas a poesia das ladainhas para sempre se impregnou no coraçãozinho de um degredado filho de Eva.

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Revista InComunidade, Edição de MARÇO de 2017


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Foto de capa:

Jackson Pollock - Black poured over colour


Paginação:

Nuno Baptista


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