ANO 4 Edição 53 - FEVEREIRO 2017 INÍCIO contactos

Joana Magalhães


Cultura Científica na Identidade Galiza - Portugal

No passado mês de Dezembro o Ateneu Comercial do Porto recebeu-nos com o debate “Galiza e Portugal – Qual (quais) fronteira(s)?”, com Joaquim Pinto da Silva (Director da Orfeu), Ana Miranda (Eurodeputada do BNG) e Ramiro Torres (Co-director da Palavra Comum) que apresentaram diferentes perspectivas, históricas, políticas e culturais da inter-relação, colaboração e da identidade própria do eterno binómio formado pela Galiza e Portugal.

 

Na discussão pós-debate surgiu o tema sobre o papel dos cientistas, da ciência e da cultura científica como vectores de integração e fortalecimento de relações, nomeadamente na Eurorregião Galiza-Norte de Portugal. É neste contexto que surge este artigo, a convite de Henrique Dória, Director do Ateneu Comercial do Porto.

 

Situação actual da Cultura Científica na Galiza e Portugal

 

Nas últimas décadas a promoção da cultura científica e tecnológica, tanto na Galiza como em Portugal, assistiu ao surgimento de diferentes iniciativas e à criação de museus, centros de ciência, gabinetes de comunicação, empresas ou associações com actividades de promoção da ciência, entre outros, devido ao apoio e investimento a nível autárquico, autonómico, estatal e europeu.

 

Para um maior entendimento da evolução e estado actual recomenda-se a leitura dos livros “Cultura Científica em Portugal” de António Gramado e José Vitor Malheiros, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e o “Informe sobre a divulgación da ciencia en Galicia” coordenada por Xurxo Mariño e editada pelo Consello da Cultura Galega, ambos em 2015.

 

Estes livros surgem da necessidade de identificar os agentes e as diferentes iniciativas promovidas, oferecendo reflexões críticas sobre lacunas existentes ou destacando boas práticas. Colocam ainda em evidência o efeito a curto e longo prazo das decisões políticas recentes (ou falta delas), nomeadamente recortes que levaram inclusive ao abandono de estratégias da promoção da cultura científica, e que põem em causa a sua sustentabilidade e o futuro dos seus profissionais, tendo um impacto negativo que repercute finalmente na própria sociedade.

 

Relações de Cultura Científica entre Galiza - Portugal

 

As colaborações existentes entre as comunidades científicas, académicas, empresariais e culturais entre a Galiza e Portugal não são recentes e têm vindo a ser intensificadas desde a constituição da Eurorregião Galiza-Norte de Portugal contando actualmente com um investimento de 105 milhões de euros até 2020, segundo o Plan de Inversiones Conjuntas de la Eurorregión Galicia-Norte de Portugal 2014-2020 (PIC 14-20), do Agrupamento Europeo de Cooperação Territorial - Galicia Norte de Portugal(GNP-AECT).
O Plano destaca 4 objetivos estratégicos que se definem em 4 linhas de actuação: 1) Investigação, Desenvolvimento e Inovação, 2) Competitividade, Internacionalização e Emprego, 3) Protecção e uso eficiente do território e os seus recursos e 4) Fortalecimento institucional e resiliência social. Curiosamente e apesar de que as linhas do PIC 14-20 foram elaboradas em consonância com o programa europeu H2020, destaca o facto de que este não faça nenhuma referência a programas de Educação Científica, com especial enfoque ao sexo feminino jovem, ou ao Envolvimento do Público (do inglês Public Engagement) em Ciência e Tecnologia.
O facto de existir uma proximidade espacial e uma afinidade cultural e linguística a nível da Galiza e (Norte de) Portugal, tal como acontece noutras regiões europeias, supõe um forte incentivo para a cooperação entre ambas. Este deveria incluir a promoção da cultura científica, podendo a mesma ser usada como um vector de integração, estabelecendo pontes entre instituições de diferentes índoles, não só entre meios científicos e/ou educativos mas também culturais e meios de comunicação. Seria importante identificar pontos fortes e necessidades comuns que levassem à sua inclusão em planos estratégicos futuros e consequentemente ao seu financiamento.
Ainda que nenhuma das obras mencionadas anteriormente teve como objetivo recopilar iniciativas comuns, encontram-se brevemente citadas algumas colaborações existentes:
- “A Associação Viver a Ciência (VAC) mantém uma relação próxima com a Asociación de Amigos de la Casa de las Ciencias da Corunhae foi parceira, durante a sua realização (2007 a 2011), da Mostra de Ciência e Cinema da Corunha.” pg. 75 Cultura Científica em Portugal (Nota: Apesar de esta Mostra ter terminado por falta de financiamento, é certo que o efeito da parceria criada reflecte-se em propostas apresentadas a outros festivais: “… é a possibilidade do festival Doclisboa incluir uma secção de Ciência em futuras edições, que está a ser considerada pela organização.” pg. 56 Cultura Científica em Portugal)
- “A bióloga Marisa Castro é igualmente autora de «Cogomelos de Galicia e norte de Portugal» (2004), tamén na súa segunda edición e publicada por Xerais, editorial que conta no seu catálogo con varias guías da natureza.” pg. 158 Informe sobre a divulgación da ciencia en Galicia
- “A Mostra de Ciencia e Cinema (2007-2011) foi un evento cultural anual organizado pola Asociación de Amigos da Casa das Ciencias (AACC)… que tivo como obxectivo a promoción e difusión de filmes sobre ciencia… Houbo, ademais, ciclos como … o Ciclo de documental portugués, en 2011, en colaboración coa asociación Viver a Ciência.” pg. 196 Informe sobre a divulgación da ciencia en Galicia.
Existem ainda iniciativas independentes com objetivos similares no que respeita à estratégia utilizada para aumentar a literacia sobre um bem comum, o mar, como o caso do “Olhó peixe fresquinho“ promovido pelo MARE-Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Portugal) e por outro lado, workshops nos mercados de peixe e o “Campus do Mar na Praia” promovidos pelo Instituto de Investigações Marinhas (Galiza) do Centro Superior de Investigações Científicas (CSIC) (pg. 29, A36 - Livro de Resumos SciComPt 2015 e pg. 220 Informe sobre a divulgación da ciencia en Galicia).
Também são de destacar iniciativas com os media tanto no sector público como no privado:

 

Televisão

 

- “1 minuto de Biomedicina” e “De mayor quiero ser… científica” são duas coproduções pelas empresas Science Office (Portugal) e Voz Audiovisual (Galiza), emitidas na V Televisión nos anos de 2015 e 2016, respetivamente. As duas minisséries televisivas foram financiadas pela Fundação Espanhola para a Ciência e Tecnologia (FECYT) no âmbito de 2 projectos de promoção de cultura científica (“Biomedicina com e para a Sociedade” e “Mulheres Cientistas em Biomedicina: uma corrida de fundo”) na área biomédica e coordenados pela investigadora portuguesa Joana Magalhães do Instituto de Investigação Biomédica da Corunha (INIBIC).

 

O facto da RTP e TVG terem assinado recentemente um protocolo de coprodução de produtos televisivos também poderia abrir uma porta para o investimento em produções na área da ciência, por exemplo, através de ajudas competitivas à produção Galiza-Portugal, o que aumentaria as possibilidades de internacionalização desses produtos.

 

Rádio

 

- Programa Efervesciencia, na emissora Rádio Galega, coordenado por Manuel Vicente e financiado pela FECYT, em que participam com frequência cientistas e comunicadores portugueses (como por ex. David Marçal, Sílvio Mendes) numa colaboração com a VAC. No ano 2014, o programa fez a cobertura do SciComPt, no Porto, organizado pela Associação de Comunicação de Ciência SciComPt .
- Minissérie “Cápsulas de SoN”, na emissora Rádio Voz em 2015, escrita e narrada pela escritora corunhesa Estíbaliz Espinosa, sobre mulheres cientistas de diferentes nacionalidades, na área da biomedicina, em que um dos episódios foi dedicado à investigadora portuguesa Maria Manuel Mota. Editou-se um livro ilustrado com o mesmo título. Esta produção foi financiada pela FECYT como parte do projecto “Biomedicina com e para a Sociedade”.
Ciência e Arte
São também de destacar algumas colaborações entre artistas e cientistas, que surgem de uma vontade comum de dialogar, explorar e criar laços nos diferentes processos de (de)composição da própria identidade:
- “Transcénica”- Encontro de Novos Creadorxs Escénicos Transmedia: um encontro-laboratório de criação cénica contemporânea, entendendo-a como um dialógo entre corpo, movimento, cinema, tecnologias interactivas, ciência e filosofia. Contou com a participação de Begoña Cuquejo (movimento), Noemi Rodríguez (actriz), Laura Villaverde (actriz), Joana Magalhães (bióloga), Roberto Casteleiro (criação sonora) e Roi Fernández (videocriação), proposto por Artesacía e o Espazo Extramuros, com o apoio do Concello da Coruña e a Fundação Luis Seone e que terminou com uma mostra pública incluída na programação das Festas María Pita em Agosto de 2015.
- “… escrita no ceo”, concerto de arte sonora, música e poesia, sobre o céu, com Estíbaliz Espinosa, Patxi Valera e Madamme Cell apresentado no OCUPAI! – Festival Ibérico de Arte e Ação, Binaural Media 2015 (São Pedro do Sul, Portugal). Este espectáculo foi inicialmente apresentado no Planetário da Casa das Ciências da Corunha com um programa dedicado ao mesmo.

 

- “Placas de Petri Sonoras”, literatura e ciência, leituras da obra Frankenstein – O Moderno Prometeu de Mary Shelley e O Valor da Ciência de Richard Feynman, por Estíbaliz Espinosa e Joana Magalhães, emitido na emissora Cadena Ser, para evento XIX Dia da Ciência na Rua, organizado pela Associação de Amigos da Casa das Ciências.

 

- “Soños de robots”, performance científico-literária sobre literatura, ficção científica e robots, criada e realizada por Estibaliz Espinosa e Joana Magalhães para o MUNCYT no verão de 2014.

 

Ciclos e conferências

 

- Ciência em Redes 2016 (Madrid), organizada pela Associação Espanhola de Comunicação Científica, que contou com Sílvia Castro, vice-presidente da rede SciComPt com a conferência “Science Communication through social media in Portugal”.

 

- Semana da Biotecnologia 2015, Museu Nacional de Ciência e Tecnologia (MUNCYT) – sede da Corunha: exibição do documentário “A história de um erro” de Joana Barros.

 

- “Mulheres cientistas estrangeiras em Espanha” 2015, um ciclo de conferências organizado pela investigadora portuguesa Joana Magalhães em colaboração com o MUNCYT - sede Corunha.

 

- Astrogalicia 2010 (BoiMorto, Galiza), que contou com a participação do físico e matemático português Pedro Russo.

 

Outros

 

A rede GPS – Global Portuguese Scientists (2016), tem como objetivos colocar no mapa os investigadores portugueses no estrangeiro, promovendo contactos e o seu reconhecimento na sociedade portuguesa. Fugas2 é uma iniciativa semelhante a nível espanhol, para tentar quantificar a fuga de cérebros, no entanto os dados não são actualizados desde 2014. A rede GPS, assim como a actividade de algumas associações de investigadores da Galiza no estrangeiro (algumas com forte presença nas embaixadas), podem vir a ter um papel fundamental ao fomentar a colaboração dos investigadores com as suas regiões de origem mas também para promover a sua própria região no lugar em que se encontram estabelecidos.

 

A rede Native Scientists, que apoia o empoderamento de comunidades imigrantes através da ciência. A sua missão é criar impacto social em áreas STEM (do inglês Science, Technology, Engineering and Maths) explorando e promovendo a diversidade cultural e linguística. Nesta rede colaboram investigadores portugueses com visitas a centros educativos, fomentando uma visão internacional da ciência, a integração nas sociedades e celebrando o multilinguismo. Esta rede ainda não opera em território espanhol mas poderia ter um impacto elevado na comunidade galega na promoção da língua portuguesa e a investigação feita por portugueses na Galiza.

 

Reflexões finais

 

No cerne da promoção da cultura científica está o de situar a ciência num lugar destacado na sociedade e o envolvimento do público na mesma, construindo, na era do conhecimento, sociedades com um maior capital científico (um conceito desenvolvido recentemente por Archer a partir do conceito de capital cultural de Bourdieu) e por este motivo deve constituir uma forte aposta de qualquer plano de investimento no que respeita a criar riqueza cultural, social e económica.

 

Os laços históricos, culturais e linguísticos existentes entre a Galiza e (Norte de) Portugal fazem com a que a identificação, exploração e apoio à construção de iniciativas conjuntas de promoção de cultura científica tenha um elevado potencial para a integração de ambas regiões. E, agora que foram dados passos (praticamente em simultâneo) para um conhecimento crítico do panorama da promoção da cultura científica na Galiza e Portugal, talvez seja o momento de uma reflexão comum de forma a ter impacto no desenho do próximo PIC da Eurorregião GNP. A ciência une.

 

Joana Magalhães, cidade da Corunha, 21 de Janeiro de 2016

Joana Magalhães é investigadora na área da Engenharia de Tecidos no Grupo de Investigação em Reumatologia do Instituto de Investigación Biomédica de A Coruña (INIBIC). Além da carreira investigadora também trabalha na área da comunicação da ciência, tendo coordenado diferentes projectos com os media para a promoção da cultura científica em biomedicina e a visibilidade das mulheres na ciência. Co-directora de 2 séries televisivas "1 minuto de Biomedicina" e "De mayor quiero ser... científica" e da série radiofónica "Cápsulas de SoN".

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