ANO 4 Edição 53 - FEVEREIRO 2017 INÍCIO contactos

Ramiro Torres


Letras e artes a sul e a norte do Minho

Porto, 3 de Janeiro de 2017.

 

          A cultura galega hoje está numa situação convulsa.

 

          Por um lado, temos vários factores que escurecem o presente e o futuro imediato, que podem ser resumidos no que chamaria bloqueio perceptivo da maioria das galegas e galegos a respeito do seu enorme potencial criativo e cultural, devido a questões diversas:

 

          - A falta -quase permanente desde há séculos- de sectores sociais ou classes (como quiserem), de dirigentes identificados com naturalidade com a cultura própria (ao contrário do acontecido, por exemplo, na Catalunya ou em Euskadi), assumindo a maioria destes sectores como natural a uma condição subalterna a respeito do centro espanhol (Madrid), e a conseguinte adopção dos discursos (mediáticos, sociais, culturais, etc.) dominantes, ali como uma forma de ratificarem os seus privilégios na Galiza.

 

          - O desinteresse da maior parte da população galega -influída, por imitação das elites, pela situação descrita anteriormente- por aquilo que não passe pelo centro social e mediaticamente canonizador, que padecem de um provincianismo no melhor dos casos condescendente com o património cultural próprio (arqueológico, linguístico, estético, etc.).

 

          - A incapacidade, até este momento, de criar, desde os espaços basilares da cultura, uma série de discursos e prácticas culturais suficientemente potentes para se tornarem hegemónicas na sociedade galega, devido à persistência, ao meu ver, de uma óptica em excesso resistente, na vez de uma perspectiva assumida de confiar nas próprias capacidades para dialogar em pé de igualdade com o mundo (temos exemplos disto último, mas tendemos a cair colectivamente numa espécie de óptica melancólica e moicana que vem reforçar em grande medida o discurso dominante).

 

          Mas, ao tempo, temos outra série de aspectos que acho merecem ser tidos em conta, relâmpagos de inteligência e criatividade individuais e colectivas que anunciam outros tempos possíveis a cada momento:

 

          - O principal aspecto é a qualidade intrínseca de muitas das manifestações artísticas e culturais criadas aqui e agora. Temos um arquipélago de ilhas individuais e algumas colectivas que sabem alimentar-se livremente, rompendo os moldes dominantes do provincianismo, enquanto evitam instalar-se no resistencialismo mais primário.

 

          - A persistência em determinadas minorias no uso consciente e criativo da língua e doutros sinais de identidade, abrindo-se a todo tipo de horizontes desde uma atitude conscientemente universalista, embora existam claras dificuldades para manter-se autonomamente, por falta de massa crítica de população ligada à cultura e à visão distante por parte da maioria dos poderes públicos galegos (não todos, por fortuna, praticam a cegueira selectiva: há alguns que facilitam os caminhos para a imaginação criativa, nomeadamente a nível municipal).

 

          - A outra face dos problemas para se converter as diferentes manifestações culturais em projectos rendíveis economicamente, é o facto de se favorecer a procura de novas formas com maior independência dos diversos poderes, o que lhes dá uma liberdade (arriscada, mas liberdade) criativa que visa ser um espaço constitutivo de novos tempos, face a outras concepções mais estáticas.

 

          - E não quero deixar de comentar duas das grandes novidades dos últimos decénios: uma delas é a incorporação massiva da mulher a uma maior visibilidade da sua obra, e a um desenvolvimento de ópticas próprias que tem enriquecido notavelmente, por exemplo na poesia, os discursos artísticos. A outra é o facto de termos a capacidade de conhecer directamente diversas criatividades do mundo, algo ao que também ajuda o facto de morarem autores em diversos lugares do planeta, como Xavier Queipo, Ramón Neto ou o grupo musical Ialma em Bruxelas, por exemplo...
         

 

          Os diversos sectores culturais galegos, portanto, estão, em geral, do ponto de vista quantitativo das suas produções, numa situação descendente, desde o 2008-2009, anos anteriores à crise económica que afectou (e afecta) todo o estado espanhol, e à Galiza, em particular, que tem originado uma resposta maioritariamente conservadora na sociedade e a destruição ou redimensionamento decrescente de grande parte das propostas.

 

          Porém, também de maneira geral, tanto a literatura, a música, as artes plásticas, e, em menor medida, por terem maiores dificuldades, o cinema, o audiovisual e o teatro, responderam com maior intensidade criativa nas suas respectivas artes. Aqui há também o resultado de contarmos com a geração mais qualificada de pessoas vinculadas à cultura, que aproveitaram a sua preparação em anos anteriores para darem o melhor de si numa conjuntura cada vez mais esquiva para manter os seus projectos. Muita gente das diversas artes aguarda tempos melhores, enquanto outra continua a criar e recriar as suas actividades como projectos de vida (muitas vezes, isso sim, parcialmente, pois têm que dedicar-se a várias tarefas para subsistirem).

 

          Nessa dialéctica convulsa entre a criatividade mais ampla e as dificuldades para levar adiante todas as suas potencialidades estamos, cheios e cheias de força e também de medo [esse lobo cinzento que acompanha os poderes estabelecidos desde o início da história da humanidade para tentar manter um status quo determinado em cada momento], entre o fervor da consciência cultural e a incompreensão da maioria do público potencial e institucional com horizontes muito mais conservadores, consumidores passivos de opções lançadas desde o centro da península...
          O porvir, então, vai depender em grande medida da capacidade de transformarmos a cultura num espaço partilhado, não só entre as artes, mas também na imbricação com a sociedade, procurando tecer alianças férteis (partindo do respeito à necessária introspecção criadora) que enriqueçam o colectivo numa espiral aberta ao futuro...

 

          Acho que terão reparado em que não falei ainda de nós, desse nós amplo e plural que percebe o Minho como uma artéria vital para a cultura às suas duas beiras…

 

          Como bem saberão, temos uma língua (ou sistema linguístico, como preferirem) comum, embora hajam na Galiza duas perspectivas básicas sobre este tema:

 

          - Uma considera que galego e português estiveram unidos numa altura, mas que os diferentes vaivéns históricos os diferenciaram de tal maneira que hoje é aceite pela maioria da sociedade galega escrever esta língua com a grafia do castelhano, chegando a considerar-se por alguns sectores como uma língua independente do português. Segundo isto, escrever de maneira unificada teria mais problemas do que vantagens (diluição na cultura portuguesa, problemas de reconhecimento dos galegos ao verem escritos assim os seus falares, etc.). Há elementos nesta perspectiva a ter em conta, e merece todo o respeito, ao tempo que também devo assinalar que foi implementada como modelo de língua escrita tanto no ensino como na administração galega, com o que é a mais usada quantitativamente, o que provocou ser a forma standard habitual recebida pelas novas gerações.

 

          - A outra perspectiva básica considera que continuam a ser, galego e português, formas de uma mesma língua, e acha não só reversível, mas necessário para manter as estruturas próprias e genuínas do galego, achegar, reintegrar, a sua escrita no tronco comum, como uma parte mais desse arquipélago chamado Lusofonia, mantendo (em maior ou menor grau, aí também há diferenças de critério) determinadas formas e fórmulas próprias para tentar evitar os eventuais problemas que se assinalavam antes. Esta perspectiva teve um seguimento menor em número de utentes, mas vai ganhando qualitativamente espaços, apesar (ou, quem sabe?, talvez precisamente por isso) de não ter qualquer apoio público e avançar autonomamente.

 

          Bom, cada vez é maior o número de pessoas que reconhecem(os) a validez das duas perspectivas nalguns pontos, embora sigamos mais alguma delas, e a necessidade de abandonar isolacionismos medonhos para abraçar as imensas possibilidades que uma maior interacção com o espaço cultural lusófono, também como maneira de compensar as dinâmicas assimiladoras que o castelhano comporta na Galiza (começando, mais uma vez, pelas suas elites). Temos na contra a inércia histórica (acho que não é ousado aqui lembrar o que se passou em Portugal entre 1580 e 1640: imaginem agora o peso de mais 370 anos com essa dinâmica operando…), mas também temos a favor uma relação directa entre nós que patenteia o dever de aproximar-nos com total liberdade para usufruirmos em comum o que nos vem dado naturalmente…

 

          Perdemos demasiado tempo de costas viradas, quando não de olharmos com desconfiança para um Outro que realmente é um Nós. Não nos atrevemos a criar o nosso discurso partilhado, atravessando os muros invisíveis que tivemos medo em reconhecer como tais: pura invenção interessada de dois estados, o espanhol e o português… E precisamente acho que estamos num momento propício para fazê-lo.

 

          Com certeza, já conheceis muitos dos antecedentes dos nossos relacionamentos, desde o valor do imenso continente da poesia galaico-portuguesa medieval até o vínculo luminoso que Teixeira de Pascoaes achou com a Galiza, passando pela Geração Nós galega (Vicente Risco, Castelao,…), o próprio Zeca Afonso, todo o trabalho crítico de Ernesto Guerra da Cal (nascido em Ferrol) sobre a figura de Eça de Queiroz, assim como o trabalho favorecedor do reencontro promovido, de uma maneira ou outra, por intelectuais como Leonardo Coimbra, Santos Júnior, Carlos de Passos, Hernâni Cidade, Rodrigues Lapa, Viqueira, Jenaro Marinhas del Valhe, Valentim Paz Andrade ou Ricardo Carvalho Calero.

 

          Mas gostava de falar do presente. Tenho o honor de codirigir, junto a Alfredo Ferreiro e Táti Mancebo, uma revista digital, Palavra Comum, nascida com a primeira lua nova de 2014, que tenta recolher esse legado desde uma perspectiva completamente livre, e fazer dialogar as diversas manifestações culturais e humanas, não só artísticas, da Galiza, da Lusofonia e mesmo do mundo inteiro desde uma concepção ampla da nossa língua comum, onde têm cabida as duas sensibilidades gráficas de que falamos antes e, evidentemente, as diversas manifestações do galego internacional ou português...

 

          Isto serviu para que colocássemos os radares em funcionamento, e pudemos constatar uma importante quantidade de projectos existentes, assim como pessoas e entidades que botaram a andar assumindo estas perspectivas…

 

          - O Projecto Ponte nas Ondas, uma experiência educativa que se vem desenvolvendo desde o ano 1995 graças à cooperação entre escolas de primária e secundária da Galiza e do norte de Portugal, com a participação de outras escolas de outros países, e que promove, entre outras actividades, a apresentação da Candidatura do Património Imaterial Galego-Português diante da UNESCO.

 

          - O grupo Galabra, vinculado inicialmente à Universidade de Compostela, e que desenvolve fundamentalmente trabalho sobre discursos e práticas culturais na comunidade local da cidade de Santiago em função dos visitantes (da Galiza, Estado Espanhol, Portugal e Brasil). Linhas como assessoria cultural, diplomacia cultural e internacionalização de mercados culturais (em particular o literário da área brasileira) estão também presentes na sua atividade, onde a dedicação fundamental está centrada no âmbito das comunidades de língua portuguesa. Fazem parte dele Elias Torres ou Roberto Samartim, entre outros, vinculados também, junto com Raquel Bello, à Associação Internacional de Lusitanistas. O próprio Roberto Samartim é o editor de Plataforma 9, Portal Cultural do Mundo de Língua Portuguesa (projeto da própria AIL e da Fundação Calouste-Gulbenkian).

 

          - A existência de diversas editoras que publicam livros em português ou galego internacional, na Galiza, de maneira sistemática, como a Através Editora -vinculada à Associaçom Galega da Língua, AGAL- e as obras publicadas desde a Academia Galega da Língua Portuguesa, ou bem dentro de outros catálogos (Laiovento, que manteve durante um tempo a Colecção Vento do Sul, Axóuxere Editora, Espiral Maior -onde publicou um livro original António Ramos Rosa -O Navio da Matéria-, Amadeu Baptista, José Manuel Teixeira, etc.-, A Porta Verde do Sétimo Andar ou Corsárias).

 

          - Livrarias com fundo galego-português, nomeadamente a Suévia, na Corunha, e a Ciranda, em Compostela, mas também a Couceiro e a Pedreira -Santiago-, Andel -Vigo-, ou Biblos -Betanços-.

 

          - A práctica escrita de diversos autores galegos e portugueses que estão a criar um corpus cultural bem destacável:

 

          · Isaac Alonso Estraviz, linguista,   autor do “Dicionário Estraviz” na rede, que recolhe tanto formas galegas como portuguesas.

 

          · Xosé Lois García. Escritor que tem divulgado a literatura lusófona na Galiza, criando uma vasta rede de contacto também com os PALOP.

 

          · Luís García Soto. Filósofo galego que tem analisado a saudade e publicado em diversas revistas e editoras de Portugal.

 

          · Antom Laia. Incansável divulgador da poesia lusófona e galega desde as redes, ele próprio também poeta.

 

          · Carlos Paulo Martínez Pereiro. Grande investigador da literatura medieval galaico-portuguesa e de autores contemporáneos, como Almada Negreiros.

 

          · Alva Martínez Teixeiro. Investigadora e crítica literária, quem analisou a obra de Raduan Nassar ou Sophia de Mello Breyner Andresen, entre diversos autores.

 

          · Carlos Quiroga. Publicou recentemente A imagem de Portugal na Galiza, e que tem participado em numerosas publicações, palestras e actos públicos a um lado e outro da raia do Minho, além de ser vogal de Lusofonia na AELG.

 

          · Carlos Pazos-Justo, professor universitário em Braga, membro de Galabra, e autor da também recente A imagem da Galiza em Portugal.

 

          · Francisco Salinas Portugal, quem publicou diversas investigações sobre as literaturas africanas de expressão portuguesa.

 

          · E diversos autores galegos que optam (íntegra ou parcialmente) por esta norma gráfica: Adela Figueroa, Alberte Momán, Alfredo Ferreiro, Ângelo Brea, António Gil Hernández, Artur Alonso Novelhe, Carlos Durão, Carlos Santiago, Carlos Taibo, Celso Álvarez Cáccamo, Concha Rousia, Eugénio Outeiro, Henrique Dacosta, Igor Lugris, Iolanda Aldrei, João Guisan, Joel R. Gômez, José Alberte Corral, José António Lozano, José Manuel Barbosa, José-Martinho Montero Santalha, Laura Branco, Luís Maçãs, Manuel Meixide, Manuel Miragaia, Maria Castelo, Maria Dovigo, Mário Herrero, Pedro Casteleiro, Ramiro Vidal Alvarinho, Ramom Reimunde, Raquel Miragaia, Séchu Sende, Sílvia Capón, Susana Sánchez Arins, Táti Mancebo, Teresa Moure, Thalámas Salamatu, Verónica Martínez Delgado, Vítor Vaqueiro, Xavier Alcalá, Xavier Frias Conde, Xavier Vasques Freire, Xurxo Nóvoa Martins, ou eu mesmo, entre outros.

 

          · Amadeu Baptista, poeta português que tem publicado obras em editoras galegas, e mantém relações com a literatura galega.

 

          · António José Queiroz, que acolheu a escritores galegos nas suas revistas literárias Anto (1997-2000) e Saudade (2001-2010), e colabora na Palavra Comum.

 

          · Carlos Vinagre, poeta que tem participado em múltiplos eventos na Galiza, editor da revista cultural Mallarmagens.

 

          · Henrique Dória, escritor e advogado, que participou em diversos recitais e livros colectivos na Galiza, além de ser director da revista Incomunidade.

 

          · João Madureira, escritor e fotógrafo de Trás-Os-Montes: “Passei a ser um galego do sul, sem bilhete de identidade, mas isso pouco interessa. A verdadeira pátria está guardada dentro do coração de cada um.”

 

          · João Rasteiro, poeta de Coimbra, que nos tem dito: “dever-se-á incrementar o intercâmbio cultural entre os dois lados, para que assente nas suas peculiaridades, quer sejam nas semelhanças, quer seja nas diferenças, se possa construir um espaço único, embora sempre vivo no que concerne às suas peculiaridades.”

 

          · João Sousa, poeta e músico português: “A minha experiência com a Galiza é dos eventos recentes da minha vida que mais impacto nela gerou. (…) O (re)descobrir de um berço cultural uniu-se ao descobrimento de um novo universo.”

 

          · José António Gomes, grande escritor português que tem colaborado muito com a Galiza, através de cursos, redes de investigação, colóquios, etc.

 

          · José Manuel Teixeira da Silva, também do Porto, que nos disse sobre a Galiza: “Será um espaço muito singular da Lusofonia, parece-me. Um irmão gémeo que foi viver, é claro, a sua própria vida, que não deve esquecer as origens nem alienar as circunstâncias.”

 

          · Jo Pinto, jovem poeta português, colaborador em Cultura que une, e codirector da revista Três Reinos: “De cada vez que vou à Galiza percebo que a fronteira é política. Que, por motivos históricos e linguísticos, é um regresso a casa, reencontrar uma nostalgia que esteve sempre presente, mas só se reconhece lá. E ao fim deste tempo poder repetir: os artistas galegos têm a porta aberta (literalmente) há séculos e a mesma vontade férrea de criar em conjunto. (...) Na minha opinião, a palavra chave para o futuro é: partilha. Reforçar iniciativas cá e lá, reinventar irmandades e reforçar os laços culturais.”

 

          · Luís Serguilha, escritor de Famalicão, impulsor das Raias Poéticas, sempre procurando a presença de poetas galegos.

 

          · Marília Lopes, poeta que tem publicado na Galiza (Castas), participando em diversos actos literários.

 

          · Ondjaki, que publicou recentemente Os modos de mármore + 3 poemas também em Através Editora.

 

          · Pedro Eiras, excelente autor de aqui mesmo, do Porto, que tem dito: “Sou desde sempre fascinado pela Galiza. (…) E recentemente fiz um périplo pela Galiza –Betanços, Santiago, Ponte-Vedra– a convite do Instituto Camões, falando de Bach. O meu excelente anfitrião, João Ribeirete, levou-me ao encontro de muitos leitores, e dialogámos numa deliciosa fusão de português e galego… Que haja mais périplos assim: eis um caminho, sem dúvida, para a relação com a lusofonia.”

 

          · Pedro-Guilherme Moreira, escritor também do Porto: “É um sonho antigo, a aproximação à Galiza. Creio que é urgente o abraço, porque, como dizia a Ledicia Costas, e bem, por mais que gostemos uns dos outros, sabemos muito pouco uns dos outros”.

 

          · Pedro Miguel Rocha, narrador que diz de si próprio: “A sua ligação afetiva à Galiza está, aliás, patente em todas as suas obras, sendo considerado como "o escritor português de alma galega".”

 

          · Samuel Pimenta, poeta português muito jovem. É um dos impulsores do Prémio Emergente para novos criadores, sempre aberto à Galiza: “A Galiza, para mim, é uma outra parte de Portugal, uma outra identidade da nossa cultura da qual fomos forçados a distanciar-nos pela imposição de uma fronteira. Temos uma série de símbolos culturais em comum, como o mar, a resistência à opressão, a vivência na diáspora, a espera de um devir, que na Galiza é uma Penélope e um Ulisses num poema, em Portugal é um D. Sebastião, entre tantas outras referências.”

 

          · Tiago Alves Costa, poeta de Famalicão residente na Corunha desde há anos: “Se o meu berço materno está em Portugal, a minha matriz histórica está na Galiza. Sou uma metade absoluta de cada: um galego-português. No entanto, tenho que reconhecer que foi na Galiza que me descobri… curiosamente, como português também. E levo-a marcada, indelevelmente, no meu imaginário de filho inquieto do mundo.” Publicou o seu livro, Mecanismo de Emergência, na editora galega Através…

 

          · Victor Domingos, criador cultural de Braga, que editou diversos livros de autoria galega na já desaparecida arcosonline.com: “Há um injustificado desconhecimento mútuo. E digo injustificado, antes de mais, porque temos tanto em comum, a começar pela nossa língua. Chamemos-lhe galego, português, brasileiro… A verdade é que temos uma língua comum, com particularidades nacionais, regionais e locais, que lhe conferem uma enorme riqueza lexical e expressiva. E o potencial desta língua comum está por explorar. Presos à ideia de que falamos línguas diferentes, separadas quase unicamente por uma mera convenção ortográfica arbitrária (e o Português do Brasil é fonética e lexicalmente tão ou mais distinto do Português Europeu, do que o Galego ou Português da Galiza), limitamo-nos a uma relação empobrecedora.
         
          - Gostava também de citar o trabalho de abertura da AELG, onde autores como Pepetela, Lídia Jorge ou Luiz Ruffato foram nomeados Escritores Galegos Universais nos últimos anos.

 

          - Ligado com isto, é de salientar os intercâmbios promovidos pelos Centros de Estudos Galegos em Portugal e pelo Centro do Instituto Camões em Vigo, graças aos que diversos autores podem mostrar a sua obra atravessando a Raia regularmente.

 

          - O trabalho de fundo da Associaçom Galega da Língua, que desde inícios dos anos 80 propõe um modelo muito mais cercano entre as duas variantes da nossa língua comum, e que nos últimos anos ganhou em presença social, falando abertamente das vantagens que traz consigo esta cercania e propondo também uma focagem muito mais directa nas suas actividades (aPorto, campanhas como A Nossa Língua é Mundial, o Dia do Orgulho Lusista e Reintegrata, etc.). Cá quero mencionar também as figuras de Valentim Fagim e José Ramom Pichel como grandes promotores desta visão mais fresca e alegre do reintegracionismo, que continua hoje no trabalho colectivo chefiado por Eduardo S. Maragoto.

 

          Também a existência tanto da Academia Galega da Língua Portuguesa, formada por pessoas que reivindicam a unidade entre galego e português, e que vai criando laços entre diversas entidades académicas (por exemplo, este ano, a Academia das Ciências de Lisboa nomeou três galegos académicos-correspondentes), como de múltiplas associações que recolhem localmente actividades abertas a perspectivas lusófonas.

 

          - Cultura que une, um projecto irmão a Palavra Comum que visa “articular acções e intervenções sócio-culturais de base, criando uma rede que fomente a colaboração Galiza-Norte de Portugal”, e que reúne duas vezes ao ano diversas propostas, não só culturais. Aqui devo assinalar o entusiasmo incansável de Luís Martínez-Risco e António Alberto Alves uma extensa listagem de pessoas e entidades colaboradoras neste projecto que botou a andar já em 2015.

 

          - Os universos musicais de:

 

          · Alonso Caxade. Com uma concepção múltipla da música, redige as suas letras em galego internacional.

 

          · João Afonso, com vinculações importantes com a música galega.

 

          · María do Ceo, fadista portuguesa residente na Galiza.

 

          · Ugia Pedreira. Participou em diversos projectos, sempre escrevendo em galego internacional. Manteve um diálogo musical com Fred Martins no seu trabalho Acrobata.

 

          · Uxía. Tem incorporado música portuguesa à sua própria obra (com João Afonso ou Júlio Pereira, por exemplo), organizando esses maravilhosos encontros das músicas lusófonas cada ano nos Cantos na Maré, em Ponte-Vedra. Vinculados a ela estão vários músicos brasileiros, como Sérgio Tannus ou Paulo Silva, que falam abertamente da sua condição brasilega. Também promoveu um disco-livro, chamado CoraSons, com a presença de António Zambujo, Luanda Cozetti ou Aline Frazão.

 

          · A presença de repertório em galego-português em músicos como Xabier Díaz, Guadi Galego, Najla Shami, Fernando Barroso, Guilherme e Bastardo ou Xoán Curiel, assim como o conhecimento de uma parte relevante do público musical ao norte do Minho de grupos como Deolinda, por exemplo, que conseguiu um eco surpreendente para eles mesmos neste mesmo ano na sua gira por Galiza.

 

          - E, para não me estender mais, também destacaria o projecto de Escolas de Ensino Galego Semente, nascido desde a sociedade civil, que procura ir criando um modelo pedagógico muito avançado, sem qualquer tipo de apoios institucionais, com uma presença fulcral do galego internacional no seu currículo, e que logrou já abrir vários centros na Galiza, apesar das dificuldades económicas de suster este sonho realizado.

 

          Sem esta movimentação não se entenderia que houvesse também mudanças em instâncias mais oficiais. Neste sentido, cabe citar a aprovação da chamada Lei Paz-Andrade em 2014 pelo Parlamento galego, surgida de uma iniciativa legislativa da sociedade, que aprova uma série de medidas a implementar para o “aproveitamento da lingua portuguesa e vínculos coa lusofonía”, por unanimidade, embora o seu desenvolvimento dependa da vontade política existente na Xunta de Galiza. Também é destacável o facto de a CPLP ter admitido recentemente o Consello da Cultura Galega como observador consultivo (se bem, esta entidade de carácter mais ou menos oficial não mostrou grande interesse neste diálogo com a Lusofonia, talvez também por aguardar previamente movimentos desde Portugal, com o que haverá que ir vendo como se desenvolvem os acontecimentos). De qualquer modo, há caminhos abertos também desde a oficialidade, que, sem dúvida, serão mais transitados, em intensidade e extensão, dependendo da força com que na sociedade prenda uma maior vontade de cercania.

 

          Bom, aguardo que todas estas informações sirvam para fazer ver que não estamos a falar de um desejo a desenvolver, mas de uma realidade que está a chamar às nossas portas, a pedir-nos lançar-nos para esse rio-artéria chamado Minho com toda a nossa capacidade imaginativa aberta aos encontros demasiado tempo adiados. Toca-nos escolher, pois, entre continuar a deixar que outros pensem por nós, ou desbloquear, por fim, a nossa liberdade comum…

 

          Em relação a tudo isto, proponho também deixar aberta a Palavra Comum para todas aquelas pessoas que tenham interessantes opiniões ou experiências sobre os caminhos já andados e -nomeadamente- os que ficam por andar de aqui para a frente. Neste sentido, quero assinalar que no fim da palestra, houve várias intervenções nesta linha, como a da científica portuguesa residente na Galiza Joana Magalhães, quem reivindicou o valor das ciências como parte da cultura, assim como o papel crescente da mulher na sociedade e na interconexão e fertilização mútua do conhecimento, algo que partilhamos em considerar como radicalmente necessário...

 

(fotografia tirada por Nacho Baamonde)

 

Nado na Corunha em 1973, cidade onde resido a dia de hoje. Diplomado em Graduado Social na Universidade da sua cidade natal. Actualmente, sócio de Algueirada, S. Coop. Galega. Membro do Grupo Surrealista Galego e codirector da revista digital Palavra Comum.
Publiquei obra em revistas como Poseidónia e Agália, participando em vários blogues colectivos e na obra colectiva Áncora no alén, com gravuras de divers@s artistas plástic@s e poemas, dedicada à figura de Urbano Lugrís, em 2008.
A finais de 2012 saiu o meu primeiro livro individual, publicado polo próprio Grupo Surrealista Galego, Esplendor Arcano.
No referente à minha percepção do que é o poético, recolho o dito n'As Escollas Electivas:
"Entender sempre o poético como via (não exclusiva) de conhecimento, como fogo perpétuo disponível no interior do ser humano, a ampliar a Vida numa vidência originária, estranhamente depositada em nós e transportada por meio de uma música verbal desconhecida e, ao tempo, densamente Real.
Em todo caso, os poemas não se explicam, só se transformam em energia obscura em cada leitura, estourando no coração em alquimia fascinante."

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