ANO 5 Edição 52 - JANEIRO 2017 INÍCIO contactos

Casé Lontra Marques


Passos pela água

1

 

Não quis reunir no colo as letras do grito, como se colecionasse gravetos para, debruçado na terra pobre, confeccionar um facho de fogueira onde queimar, no calor cujo corpo recusa qualquer conforto, um naco de carne amarga, dedicada aos dentes que sobraram na boca ruidosamente sossegada; não quis reunir no colo

 

as letras do grito porque, na fresta entre os silêncios que assediam algum sentido com sílabas que ignoram a utilidade de continuarem caladas, havia um estilhaço de vidro, aceso de sede, tão breve

 

quanto o farelo de luz pendurado — por um fútil

 

fio — nos lábios da saliva que aflorara

 

em ferida. Quando o joelho tocar o cascalho do sono, com o sangue ainda calmo, improvisando um precário chocalho, isso não consagrará uma morte; nem um intervalo; nem um descanso; pois não haverá corte: o joelho, no estofado de cascalho, estenderá uma desordem — sem a pressa

 

de um pânico desnecessário, sem a lentidão

 

de um cuidado assustado — próximo, quem sabe, das engrenagens que o vento inventa para talhar os próprios atalhos. Depois de se erguer de uma queda seca, um cão veio beber a memória

 

do meu rosto. Por enquanto, guardo, no atrito

 

provocado pela língua, um vestígio, imperceptível, de fogo: por enquanto, não me movo — nem durante uma risada rala — do pouco

 

que apreendo dos cães que se desprendem

 

da sua carcaça. Carrego

 

a dor que amanheceu nos olhos, por mais

 

que envergue a árvore de onde colho,

 

como a um pomo,

 

a mão que planta os meus passos.

 

2

 

Em vez de expulsá-la das órbitas, pretendo
prorrogar
sua presença; contra as migalhas

 

de paralisia que
se acumulam

 

na camisa, habitarei — de outra forma —
esta hora: mesmo
que presencie, em mim, alguma viga

 

a ruir. Ao velar
minha
dor, ainda mastigo —

 

junto
às suas cinzas —

 

um punhado

 

do pó expelido pelas
fábricas
que emergem, no horizonte,

 

alavancadas

 

da água. Interrogar

 

esta obstinação
será destecer o peso
que impõe
à vida uma aniquilação

 

tediosamente

 

consentida, apesar
de não

 

se saber dissolver
os dedos

 

que dão de
comer
à quietude

 

a crescer
sobre outro

 

dia — o peso
de
acreditar ser

 

preciso

 

aceitar
uma fragilidade

 

mais
vasta

 

que a voz diária,

 

mais
veemente

 

que a paisagem

 

desdobrada

 

pela
respiração

 

dos animais

 

que
se sujam

 

no chão
da enchente.

 

3

 

Escolherei um nome para os destroços mantidos no tremor
                    dos braços, enquanto
                    restauramos caminhos soterrados na lama perfurada
por veredas que fincam — na medula do leito —
                    estacas sólidas, porém
                    esquálidas; não procuro, no entanto, um nome
                    inédito — tanto mais ávido
quanto mais estéril; escolherei
                    um nome para
                    os destroços — um nome que saberei
                    viver — sem
                    conseguir, contudo, articular sua urgência.

 

4

 

Passa outra noite pelos pontos onde
tombaríamos
com a cabeça despejada

 

sobre a nuca,
num
exercício

 

que desenvolveríamos próximos
do apuro

 

de uma pétala

 

decepada;
nossa noite — aquela que

 

conhecemos,

 

apesar do que
ainda

 

não tateamos;
aquela
que esquecemos,

 

apesar dos fatos
que
fundamos — nos inunda

 

até
a cintura: é uma noite

 

imóvel,
instalada

 

contra a imensa
água
que nos arremessa

 

a uma
nova

 

voragem. Movendo a língua

 

pela cavidade
da boca, brinco
com a areia
que não quero

 

na garganta. Mas não repudio

 

a destruição
nem
o desespero — cultivo,

 

mesmo
que atordoado,

 

o desprazer — não o desprezo: diante

 

da voracidade,
penso
nos órgãos

 

retalhados; penso —

 

distante
de estar exausto —

 

nos ossos
assolados

 

por
uma fácil

 

insolação. Destino
ao
pensamento o risco

 

de um nascimento

 

físico — consolidando

 

— nos gestos
do corpo — uma pulsação

 

de acesso
tanto à sutileza

 

quanto
ao excesso. Quando

 

descritos

 

como legião, iniciamos
outro ciclo

 

de desabrigos: nossa

 

imagem

 

desliza — inutilizando,
desse modo,
a comparação — por resíduos

 

que não conduzem

 

nem
ao conflito

 

nem
à exclusão. Sua subsistência

 

não deslumbra,

 

da mesma forma
que
a fome (a fome

 

que inaugura

 

uma nova
fúria,

 

uma
fúria alerta)

 

não deslumbra —

 

mas
consome

 

os coágulos
que
apodreceriam

 

(calcinados
pelo
cansaço)

 

no
interior

 

dos passos, antes

 

que se fundisse — com
os metais

 

da
desolação — o organismo

 

a ser

 

oferecido aos rios

 

que
a fuligem

 

acomoda

 

no
meio de

outros

desperdícios.

 

 

Casé Lontra Marques nasceu em 1985. Mora em Vitória (ES). Publicou Movo as mãos queimadas sob a água, Saber o sol do esquecimento e Mares inacabados, entre outros. Reúne o que escreve em caselontramarques.blogspot.com.br.

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Revista InComunidade, Edição de JANEIRO de 2017


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Foto de capa:

Marc Chagall - 'Su Vitebsk' (1914).


Paginação:

Nuno Baptista


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