ANO 5 Edição 52 - JANEIRO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


A cidade de cada um: o Baixo-Belô segundo Antônio Barreto

 

Mais do que informação, diversão e boêmia erudição, o volume 24 da série A cidade de cada um (Belo Horizonte:  Conceito Editorial, 2014) traz, com a peregrinação “lítero-etílico-cultural” de Antonio Barreto, um porre de linguagem lúdica e invencioneira.


O centro e baixo-belô – entenda-se e se estenda pela zona boêmia de Guaicurus e adjacências – ganhou um mapeamento que, desde as páginas de Beira-Mar, de Pedro Nava, a literatura mineira não conhecia. Apesar de ter menos de oitenta páginas, o livrinho é denso e recheado de ótimos casos, memórias de boteco e uma legião de nomes – a começar pela pródiga dedicatória. Praticamente quase todos os escritores de Belo Horizonte, da década de setenta para cá, são nomeados, alguns deles tendo incisiva participação em passagens anedóticas, poéticas ou históricas.


Barreto escolheu a dedo as epígrafes das três partes de seu livro, começando com Ítalo Calvino e terminando com Dantas Motta, juntando o universal e o local para esquadrinhar o coração de sua cidade, marcando passo a passo um território afetivo, erótico, etílico, que serviu de exílio ao adolescente vindo de Passos.


Tratado lírico-lúdico-memorialístico da “beagandaia”, esse livro ostensivamente e barretianamente tem uma linguagem que zoa e que zune, vai zanzando de bar em par com um tema caro aos escribas de todas as latitudes. Barreto é uma espécie de Dom Caixote cavalgando botecos, cutucando garçonetes, garimpando histórias, alinhavando inscrições e demonstrando, no “beabá das abcervejas”, a insondável mistura da “poesia com algaravia, do céu com o beleléu”.


Assim como as memórias de Pedro Nava oferecem ao leitor um suculento texto de extrema sensorialidade, as páginas de Antonio Barreto, ao enumerar tira-gosto e marcas de cachaça, inebriam e dão água na boca, divertem e surpreendem – como uma inesperada Lua que se assemelha a um ovo frito estatelado “na frigideira do céu ao fundo”. Por falar em ovo, é saborosa a passagem em que o autor, parodiando outro colega bamba na arte de botecar, o Aldir Blanc, reafirma porque e como o ovo cozido “era o fast-food daquela época”.


Trata-se de um livro que salienta, entre as iguarias relatadas, a iguaria sem igual da própria linguagem, constantemente inquieta, puxando por múltiplos fios, desarranjando clichês, como por exemplo, afirmando que “todos os gatos eram parvos e tudo o que era sórdido de desmanchava no ar”. Se junta uma palavra à outra, Barreto foge do lugar comum, mesmo em se tratando de botecos, lugar comum de boêmios escritores.


Mesmo quando o autor se finge de professor de geografia para dar coordenadas mais objetivas ao seu texto, a linguagem encontra sempre uma fresta para reinaugurar sua festa: estamos diante de um escritor que, por ser devoto da “Nossa Senhora da Santa Saideira”, encontra sempre uma saída no léxico e na prosódia. Daí, em meio a bichos pré-históricos como os tatus gliptodontes, vamos encontrar os “etcépteros”, definidos como “insetos lépidos e trabalhópteros que vagam pelo texto”. E chegamos mesmo a ouvir vozes baratinadas falando de “broblema búblico”. Sem dúvida, o leitor vai “batar a zede” bebendo desse copo de cócegas.


O leitor é levado a uma viagem pelas décadas de 70 no opala azul de Oswaldo França Júnior ou no Cadillac de Rita, a chacrete que se tornou amiga de João Antonio – um escritor reverenciado por Barreto. Machado de Assis jamais imaginaria que personagens e frases de seus livros um dia virariam nomes de tira-gosto no baixo-belô. E que uma garçonete apelidada Capitu iria se casar com um motorista da viação Cometa. Naqueles tempos, “que não havia colesterol”, a rádio patrulha era chamada de Rita Pavone e o farmacêutico e escritor Manoel Lobato sabia do segredo de um certo medicamento chamado “popatapataio”. Em sua “babélica bebiologia”, Barreto relembra as musas dos bares, entre elas uma “priscílaba” e uma “incompreensílvia”. E a gente vai lendo um livro tão gostoso, que o vizinho ao lado há de falar como um pivete num boteco: “ô tio, me dá um pedaço desse trem! Cê tá cumeno com a boca boa demais da conta!”

 

 

Caio Junqueira Maciel  é pseudônimo de Luiz Carlos Junqueira Maciel. Nascido em Cruzília, MG, em 1952. Mestre em Literatura Brasileira pela UFMG, de Belo Horizonte. Foi professor por quase quarenta anos. Foi editor da Horta Grande Edições. Autor de livros didáticos e de livros de poesias, inclusive infantil (Era uma voz).  Faz parte do grupo Coletivo 21, de Belo Horizonte, integrando em coletâneas de dois livros de contos coletivos ( Adolescência & Companhia - Editora Miguilim, e Antologia Coletivo 21, ed. Autêntica). Letrista, tem vários cds em parcerias com Newton Maciel Ribeiro e Zebeto Corrêa. Entre seus livros de poemas, há Sonetos dissonantes e Doismaisdoido é igual ao vento.
Publicou ensaios no suplemento literário do Minas Gerais. Atualmente, vive em Braga, Portugal.

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