ANO 4 Edição 52 - JANEIRO 2017 INÍCIO contactos

Alice Macedo Campos


Recensão crítica ao livro “Seiva" de Breve Leonardo

 

Há de nós os que são vivos, e há os que, pela nobreza de carácter, terão redivivido, na medida em que, o chamamento para a arte ou para uma área superior do pensamento, os terá tocado com uma beleza de espírito que os distingue dos primeiros. Breve Leonardo é um desses iluminados, quando escreve põe o melhor de si no que faz e acredito que haja até sofrimento à escala íntima para conseguir resultados. A complexidade de escrever poemas exige do autor um empenhamento que muitos reconhecem difícil, pelo grau de entrega necessário à boa criação.
Em “Seiva”, podemos ler a melhor colheita deste longo trabalho de cultivo a que Breve Leonardo se tem dedicado. O livro começa de “peito suspenso”, como que a instruir uma regra de respiração, penetrando–nos com uma dose de oxigénio relaxante que nos dará fôlego para a viagem na floresta, de onde “com alguma dignidade regressaremos reescritos”. Esta imagem de escrita multiplicada e acrescida comove–nos e incita-nos uma confiança nova. A comunhão com as palavras desperta a vontade de representá-las, por exemplo, quando lemos “abro os braços, abro os nomes”, abrimos não só os braços e os nomes, abrimos várias possibilidades.

Este ofício reprodutor permite a continuidade e melhoria dos versos sempre no sentido da luz, ascendendo a um lugar encantado, pleno de mistério, que “recolhe em silêncio a noite”, e “a palavra onde tudo começa e acaba” onde “um pano cru arde dentro da estrela errante”, ou “para ser mais exacto, de dia inteiro”. É frequente imaginar–se a figura do homem que assim diz à poesia o seu nome Breve, seguido de outro que o descreve com “mão e voz hesitante”, mas é capaz de ser a chave de algumas “portas exactas que há muito não são abertas”. São metáforas cujo efeito de evasão permanece à flor da pele muito tempo depois de lidas.
 
A cada instante, Leonardo recorda a si mesmo a humanidade de que é feito, suspeitando que essa condição o impede de ser perfeito, menos preocupado que isso diminua o homem mas mais o poeta. Em simultâneo, o lado imaterial que se manifesta, revela um dom combativo dessa condição, fazendo–a superar–se em contínuo: “sou ou faço a claridade, o dia”. Penso ser esta a qualidade que o distingue de outros autores contemporâneos, mais submissos à sua condição e muito pouco dedicados à arte de se transformarem em escritores autênticos.
Para ser bom no que faz: “colhe um pouco mais de rio empedrado”, reafirmando a sua convicção de sacrifício pela causa literária, demarcando–a enquanto prioridade. Por outro lado, assinala diversas epígrafes como mote de entrada para vários poemas, homenageando aqueles que antes de si também terão sentido o árduo labor das palavras, ou cujo talento lhe terá guiado o curso de uma ideia. Breve Leonardo terá certamente lido muito e com isso terá alimentado o sonho de igualmente poder ser lido, tornando–se o inspirado em fonte de inspiração.

Há quem diga que para ser poético tem de ser melódico ou musical, que o verso tem de sugerir a canção da chuva, o vento frio, ou então uma perda, um amor descalço, a separação. A lista de ingredientes necessários à poesia é extensa e no entanto cabe em tão pouco: “das sete chaves de um corpo que já foi intacto”, “este meu corpo apeadeiro, pássaro passageiro”, dando sinais de alarme para uma realidade: “alguns nomes são emergências na pedra sólida”. E Breve Leonardo é um desses nomes. E este livro, “Seiva”, a pedra viva que o grava.

Alice Macedo Campos

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Revista InComunidade, Edição de JANEIRO de 2017


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