ANO 4 Edição 51 - DEZEMBRO 2016 INÍCIO contactos

Solange Firmino


Poemas

Mergulhos



Sigo Ícaro pelo ar
e pelo mar
profundo.
Jogo uma oferenda,
repito as palavras
que dão ritmo às ondas.
Como Penélope, teço, 
engano com palavras.
Não invejo o melodrama
de Alice em frente ao espelho.
Sou mais Narciso e seu
reflexo.



Medusa me fita,
mas dou uma de Narciso
e evito seu olhar
mirando meu
rosto na água.

 

Nômade

 

Decorei meu nome
para andar no sem rumo
dos abismos.

 

Observei os ventos 
que se cruzavam
em desvios sonâmbulos
que estilhaçavam 
os espelhos.

 

Vi as sereias chamando os marujos
nas praias bravas
que se desdobravam
e engoliam navios.

 

Percebi as sombras nos muros
das noites insones.
Fui cúmplice do brilho das estrelas
e do silêncio deslumbrado
das manhãs de verão.

 

Partida


Dou um rasante,
qual ave,
seguindo a linha do horizonte.
Conto nos dedos os dias
que faltam para o Outono.

 

O som sufocado da gaivota
rasga o silêncio
e se aninha na chuva da tarde,
seu colo de mãe.

 

Sou um peregrino
na romaria silenciosa.
Meus passos ressoam,
rememoram os caminhos
que perdi.



Pressinto
o nome que eu tive gravado na lápide,
antes do esquecimento,
e do último poema que
escreverei.

 

Lâmina do tempo

 

Todos temos os dias contados
na ampulheta do tempo.
Cada dia que morre
é um a menos que nos resta.
Como deter a voragem de Cronos?

 

Canto a Eros e pranteio a Thanatos.
Canto de Sereia
chamando o marujo no cais.
Navio perdido
no percurso sem  Norte.

 

Quero durar até o dia de morrer.
Náufrago, revejo jornadas que me perderam
e tudo o que já ganhei
em queda livre no abismo:
riscos

 

Efemer-
idade


O passar dos dias põe a cor grisalha
nos meus cabelos.
O tempo escasso é propício
ao esquecimento
e à lonjura da infância.

 

No meu olhar
e nos meus lábios
a marca da sede.

 

Eu espero o Outono na beira
do abismo.
Choro por instinto só para enxugar a
face em frente ao espelho.

 

Relevo do avesso

 

Eu fico à margem,
na corda bamba,
enquanto o abismo recluso
estremece,
explode feito vulcão
e delineia a polêmica paisagem
sem curva da noite insone.

 

Quanto mais me assemelho
ao desassossego,
mais me desequilibro,
a ponto de cair no abismo.

 

Vida afora

 

No verso
distorço
o reverso,
e na vertigem
sossego,
excluo palavras ébrias,
sublinho letras.

 

Nenhuma dor me soletra.
Quero somente
as palavras encantadas das 
cantigas de ninar.

 

Desato no choro,
no desmedido espaço
entre a dor
e o poema.

 

Epitáfio

 

Na véspera de minha morte
naufraguei nas
abissais ondas do Letes.



Subornei oráculos para saber meu fim,
mas os vates discretos
resistiram,
assediaram-me com seu séquito
de sacerdotisas sensuais.
Eles sabiam da minha fadiga
e trouxeram asas
como as de Ícaro.
Foi assim que caí feliz
no abismo.

 

Descrição

 

Meu poema se lê
como cego que tateia no escuro,
sorriso que não se vê,
esquecido na memória.

 

Meu poema se lê no silêncio,
como quem não conhece
a palavra poema,
a rima preciosa,
a metáfora escondida.

 

Meu poema é liberdade não escrita,
que se dependura e
cai no abismo.
Meu poema sou eu.

 

Solange Firmino nasceu e vive no Rio de Janeiro. É poeta e professora de Língua Portuguesa e Literatura. Escreveu durante mais de seis anos a coluna 'Mito em Contexto' para o portal cultural Blocos online. Participou de publicações de contos e poemas no Brasil e Portugal. Seu primeiro livro, "Fragmentos da Insônia", foi lançado em junho de 2016 pela Benfazeja. Os poemas aqui selecionados são inéditos e constam no segundo livro, "Geometria do Abismo", que será lançado em 2017 pela Gramma. Recentemente ganhou o prêmio do Governo do Pará com seu livro "Alguns haicais e mínimos poemas", a ser editado também em 2017.

Blog: http://solfirmino.blogspot.com/

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Paginação:

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