ANO 4 Edição 50 - NOVEMBRO 2016 INÍCIO contactos

Cláudia Cassoma


Dois textos

(...) na manhã seguinte

 

Os raios de sol já invadiam o quarto pelas cortinas brancas na janela larga que defrontava a cama casal. Os lençóis de linho aqueciam e por conseguinte os corpos que neles se resguardavam. Damásio abriu os olhos primeiro, lento e atento, memorizando a longa e ondulada figura da dama à sua esquerda. Percorreu-na do espesso polegar, passando pelo magro da sua perna, pelo grosso da sua coxa, fazendo uma pausa no que debaixo dos lençóis pareceu ser uma bunda alteada; pensou em levantar os panos para apreciá-la sem revestimento mas preferiu deixá-la a sossegar. Continuou então a analisar o panorama dessa mulher que até então não recordava o nome. Admirou a minúscula cintura, viu o alongar de sua lira até a extremidade superior dos carnudos braços que trazia. No instante em que notou a bainha dos lençóis anunciando o seu fim, Damásio não conseguiu esconder a alegria e expôs de imediato a branca e bem esculpida fileira de dentes que o adornava. Brilhou os olhos e encarou de queixo caído os dormentes mamilos da jovem que em plena segunda-feira dava-se ao descanso como se não tivesse nada mais importante para fazer. Ele queria continuar, talvez passar pelo pescoço, procurar por cicatrizes, ou pelo menos admirá-la por completo, mas ao sentir o lento mover do seu corpo debaixo do lençol, apressou seus olhos frente aos dela e os encontrou acordados. As pestanas dela se afastaram, as pupilas se expuseram, os olhos se abriram, mas só por segundos, não tardou, entregaram-se ao sono outra vez. O instante foi tão rápido que pareceu que ela não tivesse notado que Damásio encontrava-se do outro lado; mas não tinha como, era notável. O relógio estava assentado atrás dela, bem no centro da mesa de cabeceira, então Damásio soergueu seu firme e peludo corpo, de jeito moroso; e ao notar que o relógio digital lia onze horas e vinte e três minutos, voltou ao lado direito da cama. No seu caminho de regresso, Damásio deixou no rosto esquerdo da jovem com a maçã saliente, um beijo mudo, um beijo de olhos fechados. Beijou-a, e ao reparar que nem isso a despertou, beijou-a outra vez, e fez seguir um outro beijo antes de voltar a descansar a sua careca na almofada de fibra que combinava com o verde descarregado nas paredes do quarto.
Numa segunda-feira normal estaria já engravatado e preso no escritório. Teria já lido e assinado, no mínimo, quatro contratos. Estaria já se preparando para a reunião do meio dia, e talvez, se lhe dispensassem alguns minutos, comeria alguma coisa antes disso. Mas depois de um domingo que não recordava por inteiro, Damásio viu-se na cama até tarde. Quando os lençóis foram mexidos pela donzela dormente, o que lhe cobria se fez abaixo dos seios, perto da cintura, deixando bem visível o que há muito tentou desvendar. Embora um fora escondido por deitar-se de lado com o braço a amassá-lo, os pomos dessa, que a olho nu parecia uma doce mulher, estavam duros e arrepiados, como se estivessem a responder a seu toque. Damásio os encarou demonstrando estar carente há algum tempo, e foi por vias da sua memória tentando rebuscar os momentos que levaram-nos a ficar despidos até tão tarde numa manhã laboral. Notou que a jovem que descansava os cabelos grossos em suas fronhas não era a única com as partes à mostra, e como em outras alvoradas, seu canal cilíndrico estava já preparado para deixar passar os devidos fluídos matinais, estava duro e auspicioso. Pela cabeça de Damásio passaram momentos que nem ele mesmo sabia se foram os da noite anterior ou os que, por ausência destes, sua mente criou: Já presos entre suas paredes, vindos de um lugar que lhes permitiu se alcoolizar, foram contra os cantos da escura sala de forma apressada, chegando a quebrar o candeeiro assente na mesa perto da entrada do apartamento. Damásio viu-se com as mãos pelos cantos dessa mulher que de modo ansioso entregou-se a ele. Passou-lhe a língua pelas cartilagens; nariz, orelhas, não houve ângulo deixado por explorar. As grossas e largas mãos apertaram os glúteos da jovem como se com elas quisesse arrancá-los do corpo dela. Damásio assistiu-se a mordê-la e a ser mordido por ela. Notou que ao pé da cama só estavam os sapatos deles e a camisa que assumiu ter usado naquele domingo por ser a única fora do closet. Concebeu então uma imagem onde os dois, já com os corpos aquecidos e sob ataque dos desejos perdidos, levaram-se à cama casal que dava seu espaldar à larga janela, e só la, foram retirados os sapatos. Damásio atreveu-se ainda a pensar que tal não aconteceu até depois de fortes preliminares, por isso um dos altos sapatos vermelhos da donzela estava ainda na ponta dos lençóis, no final da cama. No seu retrato, a jovem estava aos berros e no mesmo instante viu-se a puxar os curtos e duros cabelos dela, mas não como mera selvageria, pra ele, tal era a mais profunda demonstração de prazer. Vindos de onde nem ele mesmo sabia, Damásio e essa de lábios de bem beijar, carnudos e adocicados, absorviam, um do outro, caldos leves e pesados. Nessa imagem que até então para Damásio era memória, ele viajava pelos berros contentes da moça que agarrava-se aos lençóis de linho de jeito estimulante, os mesmos que tinha estendido na manhã do mesmo dia na cama que habitualmente seria só para ele. Ao ouvir, por fim, a nota mais alta da canção que criou a jovem para expressar seu agrado, Damásio desfez-se das memórias e encarou a figura longa e ondulada que deitava-se no lado oposto. Nos momentos remanescentes, Damásio notou o levantamento do seu cano e decidiu que havia chegado então a altura do banho. Embora quisesse saber ao certo como essa mulher, aparentemente bem composta, acabou passando a noite em seus braços, o sono dela, além de incompreensível era azucrinante. De modo extremamente vagaroso, com o corpo quase a flutuar, tudo para não acordá-la, Damásio levantou-se e marchando na ponta dos pés dirigiu-se ao quarto de banho para que, ainda que com sensação penosa, retirasse do seu corpo os sobejos da noite que pouco sabia narrar.
          Sandra Mirandela já havia sentido há muito as queimaduras do rabugento sol da primeira segunda-feira em que faltou ao serviço e dormiu distante do marido, mas limitou-se em permanecer deitada e dormida por não saber como reagir perante a situação em que se encontrava. Não era a primeira noite de Sandra afastada do esposo, mas era a primeira em que o separador entre eles deixou de ser uma das almofadas da sua cama king size. Ao perceber o barulho do chuveiro, Sandra abriu rapidamente os olhos que na verdade nunca estiveram completamente trancados, pegou no sapato que estava sobre a cama, apanhou o pé atirado pelo chão, e enquanto procurava com os olhos por outros acessórios, se fez à sala. Sobre o balcão da cozinha encontrou o vestido florido que usou no domingo em que tudo que havia planeado era uma viagem à igreja mas que por efeitos de outros agentes acabou passando a noite na casa de um dos moços que a teceu elogios.
Sandra Mirandela, com os sapatos em uma das mãos, tirou apressadamente a bolsa vermelha do sofá de couro que se encontrava na sala e de forma cautelosa, sem deixar sequer uma nota na agenda magnetizada no negro refrigerador, abriu a porta e se fez à rua, mas não antes de pisar em um dos cacos do candeeiro outrora quebrado.

 

Esperança Emancipada

 

Sou causa dor dos seus insucessos, indiciado por seus retrocessos. Carregam por mim, no círculo negro do centro dos olhos, um ímpeto de raiva que lhes controla os tecidos adiposos pelo notório desmazelo. As mães esbraseam as vaginas por onde saí. Descerram com as próprias unhas com o intuito de expurgarem os negros úteros. Choram com angústia pela sensação corporal penosa que supostamente lhes causei. Os pais duvidam dos seus corpúsculos fecundantes. Inibem suas passagens vedando a abertura dos seus rega dores. Engordam suas gorduras machistas e explodem de modo colérico à proporção que abjuram seus supostos poderes varonis. E resguardando-se de comprometer a veracidade dos seus arrebatamentos, dirigem súplicas AO que aparentemente reptei e de repente já sou o que foi mais belo e forte querubim.
          A planta do meu pé ainda não tinha potência física para marcar a terra de onde corri; por tal, fui convicto que minhas pegadas não me enganariam perfidamente. Minha derme era ainda de espessura reduzida quando ocasionaram o início da minha condenação. Assim sendo, a fundura das minhas feridas igualaram-se a estas dos poços de que escapei. Por meses, vermes entupiram o meu corpo anemizado, sobrevivi dos restos dos S-A-N-T-O-S, da misericórdia dos transeuntes, tal como da estima dos mal-informados. Arrastei minha nudez pelos matos dos meus avós rendendo-me à ilusão em que me levavam os meus ascendentes; estes dos quais herdei paus tortos e podres dentes. Batizaram-me Peca Dor Absoluto e pra mim, comiseração nenhuma do DEMIURGO. Pela convicção íntima dos meus pais como lúcifer fui tratado e a ausência do meu clarão é por eles associada à queda ocasionada pelo P-O-D-E-R-O-S-O-C-A-N-O-N-I-Z-A-D-O.
          Apoiando meus ossos nos furos dos cantos das suas Kubatas, vi com os próprios olhos o desamor que leccionavam aos seus. Aos que eram também meus. Sem dançar os cílios, persuadiam os que lhes competiam do mal que traziam os coloridos; da desvantagem que era-lhes a ausência da melanina, do espírito rapinante que possuíam, da ignorância que lhes revestia. Davam-lhes balas verbais e não para lançarem com piedade à estes f-a-l-s-o-s profetas. Doutrinavam-lhes sobre como repreender esses espíritos heréticos; apontando-me como culpado pela difundida sentença S-A-N-T-A quando o que lhes regia era, de maneira semelhante, inegavelmente níveo. Reviraram os olhos, fecharam-nos; livrando-se da punição da cumplicidade; frutos das vaginas da minha saída, das danças dos seus fecundantes, metade minha de toda parte; estes menosprezaram-me também. Nem consanguíneos, nem germanos, nem os que de mim tudo têm, ninguém para exercitar o tal amor que roucamente sermoam. Os últimos longos abraços carimbados por minha magreza são das famintas muriçocas. Até onde lhes leva a ignorância, sou eu a desgraça, finalmente, emancipada.
          Com o bojo saturado, o tronco vergado, lábios áridos, entregue aos castigos dos seus pecados, fui, sarcasticamente, recebido por braços sem pigmento pardo-escuro, com o espírito mais sublime que o TAL que veneram, sabia mais sobre mim do que os que suplicavam a minha morte. Meus pais estavam certos de que ela nada era senão mais uma da legião dos desviados, quiçá seu pecado fosse mesmo a atitude desafiante com que defendia o que não via como errôneo. Essa mesma mulher de fios longos e bolsos alinhavados, mulher de supostas entranhas, transgressora da lei do S-A-N-T-O-D-E-I-S-R-A-E-L, com o corpo marcado, desconsiderando Levítico dezanove deu-me a água que devolveu-me vida mesmo não sendo de Samaria. Negou sua altura, pôs-se no chão e instantemente ocasionou meu esclarecimento sobre esse sentimento que por muito falaram os que mesmo sem mim continuam miseráveis.
          Esperança passei a ser. Fui ressuscitado por essa mulher; essa, que não trazia sequer um lenço cobrindo os seus cabelos, com o corpo exposto, fazendo-se arquétipo de todos os males, da penúria me fez ressurgir. Quando o verde esperança e a paz na bandeira que me pariu virou-me as costas, ninguém senão este ser, o tal da legião emancipada, com todos os males cometidos, derme esbranquiçada, descrente do azar que supostamente lhe podia causar; ser de genuína maviosidade, nenhum outro senão este mesmo ser,  incrassou-me quando em mim só vermes.

 


 

Em homenagem a “Hope” (Esperança), 2 anos.
Nigeriano, acusado de feitiçaria, resgatado pela dinamarquesa Anja Loven.

 

Cláudia Cassoma é jovem angolana, nascida em Luanda, mergulhada na arte de escrever desde tenra idade. Música, canto, teatro, dança, foram (são) outros dos seus devaneios; hoje, além de estudante, amante das letras e dos menores, vive crendo que "o voluntário ajuda quem precisa, contribuindo para um mundo mais justo e mais solidário", e dedica qualquer hora vaga ao trabalho social. Entre as coisas que lhe alegra fazer está a edição do seu blogue; visitar www.claudiacassoma.com é garantia de conhecer melhor esta emergente escritora.

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Colaboradores de NOVEMBRO de 2016:

Henrique Prior, Adriana Henriques / José Carlos Gonçalves Peixoto, Adriane Garcia, Alberto Pucheu, poeta. Apresentação de Myrian Naves, Alberto Lins Caldas, Alexandre Guarnieri, Alice Macedo Campos, Alice Macedo Campos / Professor Vítor Neves, Amadeu Carvalho Homem, António Vilhena, Carlos Barbarito, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Cláudia Cassoma, Dagmar Braga, Danyel Guerra, Federico Rivero Scarani, Gabriela Rocha Martins, Gociante Patissa, Guilherme Preger, HENRIQUE DÓRIA com MARIA LETÍCIA DE MELO, Hilton Fortuna Daniel, Inês Amaral, Joaquim Cardoso Dias, Joaquim Maria Botelho, Laura Avelar Ferreira, Luis Alberto Alves, Luis Fernando, Maria Leonardo Cabrita, Maria Toscano, Marinho Lopes, Moisés Cardenas, Mônica de Aquino, Natália Nunes Bonnaud, Rosa Sampaio Torres, Rui Fidalgo, Silas Correa Leite, Silvana Guimarães, Susan Pensak, Viviane de Santana Paulo, Yorgos Rouvalis


Foto de capa:

Paisagem (A Lebre), 1927 - Joan Miró


Paginação:

Nuno Baptista


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