ANO 4 Edição 48 - AGOSTO 2016 INÍCIO contactos

Cláudia Cassoma


SOU ALGUÉM QUE É NINGUÉM

 

recebi minha luz nos sujos degraus da entrada da maternidade
no chão frio daquela noite
minha mãe fez seu calor permanente
seu berro foi tão alto quando o da D’eles
mas foi abafado pelo agressivo cantar dos fogos nas armas
vivo com o que me causaram as mãos despreparadas daquela senhora
até então sinto o forte cheiro que a revestia
o cheiro dos seus dias passados
o cheiro das suas desgraças
lembro-me da dureza das suas mãos
das marcas, do peso
sempre pensei diferente das mãos da minha mãe
finas, suaves
vejo-a como alguém
mesmo sem face
mas não alguém que é ninguém
vejo-a bem

 

meu pai hoje é meu
mas não foi sempre assim
os Tiranos tinham-no longe de mim
lembro-me dos meus gritos altos
amotinação em longos saltos
lembro-me bem
sei o que me custou
meu pai hoje é meu
mas só o resto que o jugo me deu

 

o que adiantou?

 

lembro-me dos ensinamentos tardios
“filho meu, tu podes” —dizia ele.

 

hoje deposito confiança na lata de leite que era só pra me sentar
na janela velha feita quadro negro
no caderno sem folhas em que perdi tempo a estudar
deposito confiança nas palavras desse velho confuso
enganosamente orgulhoso

 

vou pelas mesmas ruas que os outros
meu corpo oscila nos mesmos ventos
mas só minhas pegadas são apagadas
nenhum passo meu se faz ao pretérito
percorro distâncias incalculáveis
sigo rumos inalcançáveis

 

sou alguém que fazem ninguém!

 

descubro as mesmas portas que Eles
mas se fecham ao me avistar

 

meu sorriso brilha com olhos esgotados
meus gargalhos são vagidos frustrados

 

visualizo esperança:
no sorriso ingénuo do mona
na alegria das flores depois da chuva
no canto harmonioso dos pardais

 

estupidez!

 

essa criança cresce.
essa chuva desaparece.
esse pardal se aborrece.

 

sou alguém que é ninguém
e enquanto Eles forem os mesmos
meus passados serão meus futuros

 

Cláudia Cassoma é jovem angolana, nascida em Luanda, mergulhada na arte de escrever desde tenra idade. Música, canto, teatro, dança, foram (são) outros dos seus devaneios; hoje, além de estudante, amante das letras e dos menores, vive crendo que "o voluntário ajuda quem precisa, contribuindo para um mundo mais justo e mais solidário", e dedica qualquer hora vaga ao trabalho social. Entre as coisas que lhe alegra fazer está a edição do seu blogue; visitar www.claudiacassoma.com é garantia de conhecer melhor esta emergente escritora.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2016


FICHA TÉCNICA


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Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Henrique Prior, Jorge Vicente, Júlia Moura Lopes e Maria Estela Guedes, Maria Toscano


Colaboradores de Agosto de 2016:

Alexandra Nobre, Cinthia Kriemler, Claudia Cassoma, Danyel Guerra, Gabriela Rocha Martins, Gociante Patissa, Henrique Prior, José Manuel Pureza, Lauriano Tchoia, Maria Toscano, Marinho Lopes, Moisés Cardenas, Ngonguita Diogo, Onofre Varela, Ricardo Cunha Teixeira, Rosa Sampaio Torres, Sandra Makowiecky, Susan Pensak, Vitor Rafael.


Foto de capa:

'Paseo a orillas del mar' de Joaquin Sorolla


Paginação:

Nuno Baptista


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