ANO 4 Edição 45 - ABRIL 2016 INÍCIO contactos

Leandro Rodrigues


POEMAS

RAÍZES

 

Escrevo torto em desmedida decomposição
Não tarda abreviarmos tudo
Reinvento desenhos com simetrias descentralizadas
Não descendo de nada
Agora apenas traduzo as formigas e o que mais arrastam
Ciprestes imóveis em horas mudas
Descascados túmulos em que os insetos adentram
Para criar raiz nos mortos.

 

OS NADADORES

 

O rio é profundo.
Reparo que nele
há nadadores mortos.
A água escura encobre.
Os nadadores mortos
nadam,
puxam o fôlego.
Sobrepõem-se ao turvo e
às plantas aquáticas.
Os nadadores mortos
ainda nadam.

 

1910

 

5 tiros de chumbo disparados
para a Lua
O gosto metálico cinza de fuligem
e pontiagudas arestas invertidas
Escombros/ restos de uma manhã
covarde
Os gritos expostos na paisagem aprisionada
– enquadrada janela em estilhaços
Um terço caído no chão
trêmulas mãos monitoradas
Mulheres com seus longos vestidos negros
habitam praças, leitos de rio, pátios
desgrenhados
e dão sua canção de ninar
ao vento.

 

SÃO PAULO IX

 

Na cinzentude opaca
de fuligem e concreto armado
estilhaços – espaços entre as grades
fragmentos e frestas
o grito
que vem das galerias
de esgoto e escorre
entre o rio que não
é rio
e a revolta represada
na merda.
]
Três tiros bastaram
para sangrar essa lua
para estancar esse medo
para escorrer o óleo diesel
do olhar lacrimejante
da moça bem vestida da Consolação.
]
Três golpes frios – lâmina branca
para jorrar ladeira abaixo
todo esse lixo de plástico descartável
– biodegradável
Todo esse caráter artificial
mais valia $ $ $ $
com gosto de opressão
(os subúrbio pulsam)
]
Na cidade mais podre/
em putrefata simetria
(de chumbo)
[
Três tiros bastaram
para apagar de vez esse lirismo doente,
doentio,
semi-morto.

 

LOUVAIN

 

Quem estará frente ao espelho
na noite saqueada?
Quem despirá a escuridão
desses corpos turvos medidos mudos petrificados
sumidas silhuetas noites de perpétuas sombras/
ancestrais penas?
Quem decifrará a carta suicida não escrita
mas salpicada de sangue
lançada ao vento/ ao mar/ ao espaço
em folha vegetal tão recortável minúscula?
Quem?
Ao meio-dia ousou ser a metade de tudo
o quanto não foi, nem sequer será ao certo e
andando entre as ruas com sua meia-sombra
num dia inválido impróprio com gosto de
fuligem barroca abstrata cena se curvou
para ver as horas e viu um relógio sem
ponteiros e teve pressa de não chegar
Panas And Echo
Panas and Pytis
The Cult of Pan
des
ceu
os
de
graus
bebeu toda água da clepsidra
adornou bonecos entalhados de madeira
mastigou as velas e o curto pavio do desprezo
anotou endereços de antigos colegas mortos só para atirar
nos jardins sementes de ipê roxo branco amarelo ou mesmo
girassóis que irão nascer no crepúsculo.

 

 

Leandro Rodrigues, nasceu em 06/01/1976 em Osasco -SP, onde reside com a esposa Lúcia A. Lins e o filho João Gabriel. Formado em Letras - Pós-Graduado em Literatura Contemporânea. É Professor de Literatura Brasileira e Língua Portuguesa. Também é autor do blog poético nauseaconcreta.blogspot.com.br,  e um dos autores da Revista Zona Da Palavra. Possui alguns poemas em diversos sites e revistas literárias como:  Zunái, Germina, Mallamargens, Cult, Antônio Miranda Portal de Poesia Iberoamericana, Musa Rara, Portal Vermelho, Cronópios, Banquete Poético, SérieAlfa (com traduções do poeta catalão Joan Navarro), Revista Alagunas, Diversos e Afins, O Novelo e etc. Seu livro Aprendizagem Cinza será lançado em Abril de 2016 pela Editora Patuá-SP.

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2016


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Colaboradores de Abril de 2016:

Adelina Barradas de Oliveira, Cecília Barreira, Daniel Lopes, Danyel Guerra, David Fernandes, Filomena Barata, Henrique Prior, Jesus Bajo, Júlia Moura Lopes, Leandro Rodrigues, Luís Felipe Cosme de Oliveira, Luís Fernando Fierti, Luís Fernando Cuartas, Manuel Mora Serrano, Maria Toscano, Mariana Basílio, Moisés Cárdenas, Ricardo L. Hoffmann, Rubens da Cunha, Sarah Valle, Silas Correa Leite, Yorgo Rouvalis.


Foto de capa:

Amadeo Souza Cardoso, pormenor do quadro 'A menina dos cravos'


Paginação:

Nuno Baptista


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