ANO 4 Edição 45 - ABRIL 2016 INÍCIO contactos

Mariana Basílio


POEMAS

XLVI

 

De uma luz incomensurável.
De uma batida silenciosa.
De um adeus revelado.
Sei que EXISTO.

 

Para que se construam as
rasuras de novos olhares,
formando as nuances
azuladas de claras
e vívidas nascentes.

 

Eu sei, EXISTO.

 

De uma partida pirâmide.
Nascida de sonhos arbóreos.
Como plasmas sufocando
os braços do tempo. Uma
seara de instantes caducos,
inertes pelo vazio do TUDO.

 

Nua no avesso, no instante que
não se convence. No coração que
se perde no enredo que evapora.
Casta.

 

Que EXISTO
para ser.

 

PARA.

 

Mais do
que ontem e
menos do que
amanhã

 

AGORA.

 

LXVIII

 

“Vem, precisamos sair da cidade
Para muito longe.”
Alfred Lichtenstein

 

SONETO DA IMORTALIDADE

 

Ó, branco espumado! Vida cantada!
Andando pelo vento em vosso abraço,
quando sísmica esperança, sou cada
verso que lhe ofereço em nosso laço.

 

Calada, crio a poesia alada.
Dançando ao teu chamado, corpo-aço.
Imortal. Em roseiras, fina fada.
Brilhando pelo céu, sem embaraço.

 

Desencarnada. Sopro o hangar dos Anjos.
Espíritos dormem em minhas pétalas.
Sou agora uma rubra voz: em cânticos.

 

A repousar o afeto no invisível.
No mistério que abraça a minha vida,
enquanto sonho o sonho imperecível.

 

LXXIV

 

FEIÇÃO NOTURNA

 

*

 

Ó céu escuro! Indômito.
Em nossos instantes futuros
escorre. Feito água-mundo.

 

Vejo nele todos os sonhos passados.
Vejo nele todos os homens-oceanos.

 

Dentro & fora de mim: ó céu escuro!

 

**

 

Logo a chuva cairá. Como a sinfonia
de tristes canções. No ar úmido que se
vai. Chorando os lamentos celestiais.

 

(Na enorme lacuna sobre nós: DEUS.)

 

***

 

O mundo agora me parece estático.
A unção invisível que me estende o
pensamento. Céu claro. Asas leves.

 

Pelas nuvens, velo a íris de teus
olhos. Recubro a vida de azuis.
Crua.

 

Reconstruo-me, senda.
Porque sou lunar.
Porque sou luar.
Porque sou lua.

 

LXXXII

 

Corpóreo. Alcalino. Frêmito.
Caminho, desejando o desejo.

 

Como se beijasse o milagre da vida.
Perdido amor, halo de memória.
Guardo-te no silêncio da aurora.

 

Como se frestas contornassem
artérias que sustentam a voz.
Estou aos pés do inverno,
clamando-te em meu peito.

 

Murmúrios.
Reflexos do Sol:
Tudo é cintilância.

 

No profundo dos olhares.
Na poesia que é verdade.
Como espumas macias.
Somos plumas felinas.
Trançando-nos, altar.
Pela lacuna do vento.
Por toda nossa vida.

 

LXXXIII

 

A noite são vozes poentes.
Nuances de grilos.
Raios em luzes.

 

Seca & mole. Em tua fronte.
Amanhã renascerá, anis.
Tua face. Círculos de fogo.

 

Desfaleço-a, em SONHO.
Sorvendo em seu cheiro.
Como os lírios-sopros
do campo. Cadente.

 

LXXXIV

 

“Pergunto-me se a perfeição
Seria o não dizer?”
Hilda Hilst

 

E adormeço em minha dúvida.
Cerrando as ideias pela carne
esponjosa do sentimento.

 

O grito. O vazio. O canto.
Poderia o meu descanso
entorpecer-te no distúrbio?

 

Quase-nada. Sou-tudo.
Inútil, destemida. Inexata.
Silencio. Em raios de chuva
e vistas do sol. Em poder
do indefinível presente.

 

Escorro. Se tu me moves,
hei de ser girassol.

 

LXXXV

 

O tempo em terra fresca.
O fundo da terra que sou.
Vermelha-escarlate.

 

A morte estancará a tua
boca enquanto comes das
figueiras e das sombras?

 

Anjos. Trêmulos. Inocentes
Pássaros. Sobrevoam o
túmulo de nossos adeuses.

 

E o Homem já se foi.
Para sempre é nunca mais.

 

Desconexo. Imortal.
À treva e ao perecível.
Estendo-me, irreal.

 

 

LXXXVI

 

Ao conjugar os verbos
e expor sibila minha vida,
sou um líquido cristal a
compor-me em poesia.

 

Olhos-do-mar. Vista
feroz. Alada. Esticada.
Em sortilégios & devoção.

 

A cantar-me poeta, sou mistério.
Pela língua-do-céu, em versos.
Deus-Pai, ó líquido mar!
No teu largo-fundo, almas
construo pelas linhas,
em tuas espirais.

 

Pela via, vida, crua e silente.
Alma, crua, Vida, nua,
alça de tripa e metal.

 

LXXV

 

Estas mãos que correm os rios.
Estas mãos a soprar pela alma.
A tocar os detalhes do mundo.
No sonho do amanhã.
Ao limite do céu.

 

LITÚRGICAS.

 

Emergindo nos centímetros da
distância. Fluindo pelo futuro.
Na força de um desejo. No toque
que enlaça todos os segredos.

 

XCI

 

Desde que a manhã
renasça, o tempo é
Deus. Ressurreição.

 

Ó Senhor, pela manhã
renascerás em nós?
Ou tudo será apenas
desilusão?

 

Desde que as nuvens
brilhem, o silêncio
das asas se firmará.
Desde que venhas.

 

Oca é a nossa voz.
Oco é o brilho do mundo.

 

Adiante, nos fluidos das folhas.
Libertaremos os sentimentos.
Se juntos estivermos.

 

 

Mariana Basílio é pedagoga, mestre em Educação e poeta. Autora dos livros Nepente (Giostri Editora, 2015) e sombras & luzes (prelo). Premiada em antologias poéticas como a IX CLIPP e V Prêmio Literário de Poesia Grupo Scortecci, tem entrevistas e poemas publicados em programas de TV e jornais como JC Cultura, TV Câmara e revistas e fanzines do Brasil e de Portugal como Efémera, Inefável, Conexão Literatura, Limbo, Raimundo, Garupa, mallarmargens, O Equador das Coisas, O Garibaldi, Anexo 6 e Germina.

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2016


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Foto de capa:

Amadeo Souza Cardoso, pormenor do quadro 'A menina dos cravos'


Paginação:

Nuno Baptista


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