ANO 4 Edição 44 - MARÇO 2016 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


PORTUGUÊS DITADOR NO BRASIL

"Cheguei a Atenas e ninguém me conheceu"

 

- Demócrito de Abdera -

 

Sendo o/a prezado/prezada leitor/leitora portuense, na certa se lembrará de uma livraria-alfarrabista, situada na Rua de Cedofeita. Hoje desaparecido, o sebo* localizava-se quase em frente a um edifício setecentista, onde D. Pedro IV aquartelou, algumas semanas, seu estado-maior, durante a guerra travada contra as hostes de D. Miguel, seu irmão.

 

Certa manhã de julho de 1979, o verão no apogeu, entrei de rompante na livraria e disparei à queima-roupa.

 

- Bonjour, Seu Sérgio, será que o senhor tem algum livro sobre Cinema Brasileiro?

 

Com sua peculiar bonomia, o Sr. Trémont foi quase categórico na resposta.

 

- É pouco provável… mas dê uma olhadela nessa prateleira, aí ao fundo.

 

Numa busca expedita não demorei a vislumbrar um livro com a lombada esmaecida pelo trânsito imparável do tempo. O volume jazia soterrado na esconsa prateleira. O peso de corpulentos vizinhos tornava-se insuportável. Num assomo de caridade decidi resgatá-lo de tão esmagador ônus. Era um exemplar de Vamos Falar de Cinema, da autoria de Garcia Escudero, capa e contracapa manchadas pelo intenso manuseio e escasso asseio.

 

O volume nº 41 da Biblioteca Básica Verbo/Livros RTP não indiciava, apesar do título, corresponder a meus anseios.  "É de um autor espanhol… mas não custa conferir…"  Folheando o exemplar, demandei o índice. E deparei com o anexo, "por Luís de Pina". O Cinema Português seguido de O Cinema Brasileiro.

 

"Eureka!", bradei retumbante, como um Arquimedes saltando da banheira, ensaboado e tudo.  Nem investi tempo checkando o conteúdo. Envolto numa toalha felpuda, comprei o book e, enquanto bebia um chope* gelado e comia um cachorro quente no vizinho Café Bissau, comecei a ler o apêndice na página 203. E foi no nome de dois lusos que meus olhos bateram de frente. Eduardo Chianca de Garcia e Fernando de Barros.

 

Chianca era, para mim, um nome (re)conhecido, pioneiro do cinema sonoro em Portugal e diretor de Aldeia da Roupa Branca (1939), entre outros bons títulos. Barros, pelo contrário, não passava de um (total) ilustre desconhecido. Para me ajudar, Pina desenrolou uns centímetros dos pergaminhos da personalidade. "(...) Fernando de Barros, crítico, argumentista, produtor e realizador de muitas fitas (Inocência e Caminhos do Sul (1949), Apassionata (1952), Moral em Concordata (1959), As Cariocas (1966), um episódio, avultam entre suas realizações”. De um modo sumário, o futuro diretor da Cinemateca Portuguesa se encarregou de me apresentar um português - nascido em Lisboa, a 6 de janeiro, de 1915 - que legou ao Cinema Brasileiro um meritório contributo para seu fomento, incremento e desenvolvimento. Isto, apesar de se ter malogrado o ambicioso projeto da Companhia Vera Cruz, que coprotagonizou na década de 50, juntamente com cineastas de gabarito como Alberto Cavalcanti e Adolfo Celi.

 

Turbinado por essas referências, voei, em março de 1990, do Rio de Janeiro para São Paulo, a fim de o entrevistar. Durante o nosso diálogo, Fernando aludiu, à vol d’oiseau, à sua carreira cinematográfica, iniciada em Portugal sob a égide dos mestres Leitão de Barros, Jorge Brum do Canto e Chianca, como se esta estivesse acomodada no arquivo, embora vivo, de seu subconsciente. Somente a instâncias do interlocutor, concedeu descrever, de modo comedido, uma analepse a seus feitos de produtor-diretor-roteirista e até maquilhador. Num somatório que ultrapassa as duas dezenas de produções, ele agiu quase como um factotum.

 

Um deus janicéfalo

 

Fiquei com a nítida impressão de que, a exemplo de um deus janicéfalo, o virtuose preferia exibir prazenteiro, seu rosto de fazedor de opinião em matéria de Moda, nas ubíquas atividades de jornalista, crítico, consultor e historiador. Por muito que, até 1971 –data de Lua de Mel & Amendoim -, tivesse continuado a dar a outra face ao primeiro amor, um desvelo declarado aos 18 anos escrevendo e assinando críticas e crônicas nas revistas lisboetas Movimento e Cine. Com  divórcio declarado, mesmo assim nessa derradeira "Lua de mel", Barros testemunharia as vantagens da ambivalência e coabitação de seu Cinemoda.

 

Posso quase garantir que não teria me empenhado na redação deste expedito perfil, se acaso Fernando não tivesse, já entrado na meia-idade, capitulado ao fascínio (profano) do Fashion e se dedicado à pregação de seu (sagrado) decálogo, coroado pela publicação dos livros Elegância - Como o homem deve se vestir e O Homem Casual. Apostolado reconhecido, em 2001, pela Associação Brasileira de Indústria Têxtil. Aplaudido de pé pela plateia do Teatro Municipal de S. Paulo, o adorável ditador subiu ao palco para receber o prêmio especial da entidade. Como testemunhou o empresário André Brett, da Emporio Armani, "o brasileiro era um dos homens mais mal vestidos do mundo. Fernando, então, começou a mudá-lo, pouco a pouco."

 

Será pacífico reconhecer que, já hoje, a legenda de Fernando de Barros não muito se nutre das mais-valias produzidas por seu labor de cineasta. Nos anais do Cinema Brasileiro, sua diversificada filmografia, obediente aos modelos convencionais, circunscrita às fronteiras do Cinema Nacional, não se verá contemplada com muito mais do que um par de parágrafos. As comédias de costumes que assinou, com reiterado pundonor, dificilmente poderiam passar incólumes pelo crivo implacável da massa crítica dos historiadores.

 

De qualquer forma, mesmo o mais encarniçado dos cinemanovistas não deixará de concordar ser Apassionata, "um extraordinário retrato de uma pianista devorada pela sua paixão pela arte”, conforme elogiava o parisiense Le Monde, na sua edição de 10 de outubro de 1996. O filme exibe nos créditos a assinatura do argumentista Chianca de Garcia, note-se. Concebida para ter Tônia Carrero como atriz protagonista, a fita assinalou a estreia de Paulo Autran na sétima arte. Foi igualmente sob a direção de Barros que se desvelou, nas telas, a auréola de divas fulgurantes como Tônia Carrero, Maria Della Costa, Marisa Prado, Odete Lara ou Giedre Valeika, o que não é proeza de desprezar ou menosprezar, muito pelo contrário.

 

 

O reporter Fernando Barros do jornal "Última hora",  entrevistando Edith Piaf, quando esta fez espetáculos no Brasil, em 1956.

 

Danyel Guerraé natural da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (Brasil), tem uma licenciatura em História, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Além do livro acima citado, escreveu e editou os livros 'Em Busca da Musa Clio' (2004), 'Amor, Città Aperta' (2008), 'O Céu sobre Berlin' (2009), 'Excitações Klimtorianas' (2012), 'O Apojo das Ninfas' e 'Oito e demy' (2014).

 

NOTA DA REDACÇÃO DA INCOMUNIDADE:

 

Danyel Guerra acabou de lançar o livro 'FERNANDO DE BARROS - O Português do Cinemoda”, com a chancela da Douro Editorial. A apresentação do livro esteve a cargo do jornalista e crítico de Cinema Mário Augusto, no passado dia 28 de Fevereiro, no Teatro Municipal do Porto - Rivoli.

 

 

Para quem não pôde estar presente, fica a dica: a próxima apresentação será no dia 31 de Março, às 18,00 horas, na FNAC de Santa Catarina, na cidade do Porto.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2016


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Paginação:

Nuno Baptista


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