ANO 4 Edição 44 - MARÇO 2016 INÍCIO contactos

Fernando Martinho Guimarães


POEMA A MARILYN E OUTROS POEMAS

Poema a Marilyn

 

 

disseram-me que te viram
e que passaste a meu lado
e foi em direcção contrária
disseram
nada que pudesse ser sinal de ti
apareceu
nem indício
e o céu estava como sempre
com nuvens
na rua a gente estava toda lá
e nem uma faltava para que
eu pudesse ler essa ausência
e disseram-me que te viram
e que passaste a meu lado
e foi em direcção contrária
e nesse dia nem sequer
me esqueci de nada e
como sempre estava sem dinheiro
Também não tinha poema
para escrever
ou como quando quero escrever
e não tenho caneta nem isso aconteceu
no entanto
o que a uns pareceu o esbracejar da cidade
ao findar do dia
e a outros o amanhecer
aprisionou-me disseram
e nem perfume senti
ou cabelos loiros ao vento
ou premonição
Continuei a tomar café
e o todos me falarem
do teu sorriso e em cumprimentares toda a gente
exasperou-me
porque pensar no que iria fazer
escapou-me o que fazer
e nem o gostar de te ver sorrir
atenuou o sentimento
de que me fugia o quê não sei
e isso não me admira pois sou mesmo capaz
de faltar ao meu funeral por distracção aliás
ou esquecimento
porém Marilyn foi ao teu funeral
que me atrasei mesmo sabendo
que a tua morte me foi dedicada
e que foi a pensar em mim
que não acabaste o telefonema p'ra quê
Por isso escrevo este poema
pelo seu começo pretensamente poético
e que será evidentemente para guardar
e que é uma forma de o deitar fora
mas isto não sabes nem precisas
já que decidiste a favor de todos os argumentos
o suicídio é como isto a poesia
e que me chateia pois não sei como acabar
e que se calhar foi o que te aconteceu
A vida os filmes tudo o que de ti disseram
não ouvi apenas sei
que quando apareces na tela
me apetece fazer disparates
: como fazer tranças dos teus cabelos
ou soletrar palavras até ao fim
ou fazer castelos de cartas
ou
embora fique especado
e maldiga a vida
que é das poucas coisas para que serve
É assim que fico confuso
De ti o que há a dizer?
o que se diz frente ao nascer
ou pôr do sol?
o que se diz frente ao mar parado
ou tumultuoso?
nunca ouvi elogio ou poema
ao movimento das placas tectónicas
ou às marés
É assim Marilyn que te vejo
e por isso não te quero
pela mesma razão que não
se pode querer o sol a lua
a fissura atlântica
Continuo a pensar que fizeste bem
em não acabar o telefonema
como não acredito
que tenhas ido viver sossegada
com o último homem do mundo
e sonhar o sonho
de quem quis morrer
como viveu
antes o pecado que me deste a conhecer
ou a Europa inundada pelo teu rosto
: palavra d'ordem de revolução
Qualquer coisa em mim não pára
que obscenidade rebolar-me na tua sepultura
e murmurar frases indelicadas
oh! este silêncio sepulcral
de milhões que te avassalaram
sim. nada te sobreviveu
a não ser talvez este gesto
rodopiante de desenhar palavras
e que procura ingenuamente
encontrar um alçapão para a tua morada
Olhem o mundo é um reclamo
tudo se vende mesmo o reclamo
evidentemente
Olhem de onde conheço esta mulher?
a pose não me é desconhecida
tanto se esforça a aspirar a casa
como a compreender incompreensíveis trechos
de Platão
a seguir chora o destino de Quasimodo
fala-me como se há muito me conhecesse
toca-me e beija-me
a razão é a ambiguidade na tradução de um termo grego
alegro-me com a esperança
de que me beijará a cada palavra que leia
desengano-me interroga-se
sobre o motivo por que querem
obsessivamente fotografá-la quando sai da piscina
saberei a razão?
digo-lhe que alguns como Platão
dedicaram a vida a tentar descobri-lo
e não conseguiram?
de uma maneira ou d'outra
mas não a conheceram
e eu?!
gosto demasiado de olhar
e vejo-te sempre da mesma maneira
: a saia esvoaçando alegre descuidada
por isso Marilyn gosto de ti
e mesmo que o soubesses
eu sabia que me iriam dizer
que tinhas passado a meu lado
e que de ti não encontraria sinal
Um destes dias Marilyn
Um destes dias

 

 

***

 

Ao balcão do café

 

Um dia o cinzeiro parte-se
e o quebra luz rasura o sono
tardio de uma noite anunciada
Dormentes os músculos desesperam
da arte da masturbação
num além rio que o futuro nunca cumpre
Respira menina sempre ao balcão
e olha-me nosolhos de olhar
Que sabes tu desta parilisia
que o sono afadiga?
Fiquemo-nos assim pelos gestos
que o café ao balcão exige
e pela promessa certa
de uma espécie de silêncio
a arder na noite.

 

in Poetas de Orpheu

 

***

 

Tirésias

 

No dorso de uma borboleta
navega Tirésias em precário equilíbrio.
Avança e pára, volteia, indeciso.
E as manhãs são intermitências
no dentro das pálpebras.
Descansa agora sobre um espelho de água
a olhar o que ver não pode.
Tudo é sossego nos portões de Tebas.
Nada mexe na natureza e Tirésias,
absorto e desocupado, sem sombra de pecado,
vê mas não olha.
De nada padece e o futuro é limpo
como um dia de sol sobre o Egeu.
No dorso de uma borboleta
repousa Tirésias e não sabe.

 

***

 

Caiu-me um pássaro na sopa

 

Caiu-me um pássaro na sopa
num dia esmaecido
em que o sol turvo e pardo
pardo e turvo acendia
a língua num sopro de espanta-espírito
Caiu-me um pássaro na sopa
e num golpe de asa rasante
navega-me a orelha
em aquosa substância no prato fundo
a humedecer pasmos de vagaonda
numa colher basculante
a debicar miolos de pão.
Caiu-me um pássaro na sopa
e todo ele era leve
como poeira de pedra-pomes
urze e cinza sobre manhãs
sem sombra nem fim
Caiu-me um pássaro na sopa
e era transparente como os futuros
que nos pomos a adivinhar
quando soletramos estranhos vocábulos
ou nos gestos rigorosamente imprecisos
da mecânica amorosa dos corpos
procuramos a gramática do mundo
Caiu-me um pássaro na sopa
e era um torpor que anuncia o sono
uma simpatia breve intensa porém
trouxe-me ao pensamento
espelhos e maceradas estátuas de sal
Suaves filigranas em forma de tempo
a percorrer em aragem as ilhas da terra
Caiu-me um pássaro na sopa
e fez-se noite

 

Fernando Martinho Guimarães

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2016


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Paginação:

Nuno Baptista


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