ANO 4 Edição 44 - MARÇO 2016 INÍCIO contactos

Lisa Alves


POEMAS

O DONO DO AMANHÃ

 

as paredes racham
meninos brincam com césio 137
nos quintais a última marca de existência é um campo de penas
e o escultor  tenta reproduzir a delicadeza das fêmeas com arames farpados,

 

é tudo simulação

 

uma privada exposta em mais um museu
o homem que não sabe cantar mugi
mugiremos até o próximo matadouro
morreremos sem injeção letal e ao som do tic-tac,

 

é tudo performance

 

uma legião caminha às cinco da manhã
pelo pão de cada dia vendei-nos hoje e
se tivermos sorte amanhã (e depois),  pois
o padeiro não perdoa ninguém e ninguém
 perdoará o padeiro pelo trigo transgênico,

 

é tudo demarcação

 

células, anticorpos, DNAs,
estômago, refluxo, aparelho digestivo,
fetos e flores de cianureto
levam a assinatura de um único amo:
o dono do amanhã.

 

CANTEIRO DE PRAGAS

 

Eu não poderia imaginar
naufrágios, tumores, o pai defunto,
a maternidade estacionada
e a secreta decepção de não ter sido.

 

Eu não poderia imaginar
fantasmas povoando
meus sonhos,
meus medos genéticos,
meus dedos miúdos,
minha rara sobriedade,
minha perturbação congênita
e os braços breves demais
para abraçarem o mundo.

 

Eu não poderia imaginar
cavalos pastando livres
em um pátio de concreto
e a mulher morta embalada
pelo último fio de esperança no Eixão.

 

Eu não poderia imaginar
em uma segunda feira
a peculiar notícia sobre o amigo
que desapareceu por completo
depois de assistir o último pôr do sol
 [no paralelo 15.

 

Eu não poderia imaginar
a vida em rifas, o pó alcaloide,
os dentes caídos, a cicatriz no torso,
os cistos hemorrágicos e a conjunção
de cabeças vazias batendo à porta.

 

Eu não poderia imaginar
tua boca todos os dias,
teu cheiro todas as noites,
duas flores se erguendo
em um canteiro de pragas.

 

 Eu não poderia sequer imaginar
nossa biografia vingando em um
diário mofado, coberto por fungos
e narrativas sobre remédios, pontos
na carne e um estrangeiro título na capa: Pest Garden

 

A TELESPECTADORA

 

Eu não acreditei nas manchas de sangue derramadas
em Boyermoor e Dachau.
Eu não acreditei na rosa exterminadora de Hiroshima.
Eu não acreditei no espectro gigantesco dos opositores de Stalin.
Eu não acreditei nos corpos que boiavam nas margens de Cuba.
Eu não acreditei na fala branda dos humanistas.
Eu não acreditei no câncer disseminado pelo fast food.
Eu não acreditei na foice&martelo e muito menos nas reivindicações do MST.
Eu não acreditei em reformas, sindicatos,
ONGs e lutas pela igualdade.
Eu só acredito nos finais felizes das novelas.
E a vida está ótima.

 

ODE AO RANCOR

 

Desintegram fotografias e células.
Os olhos se desmancham sobre a relva,
as mãos se oxidam na dança do tempo,
o pai já não está e a mãe se prepara para
 [o beijo da Morte.

 

Você estuda sobre remédios
e sobre a decomposição da carne.
Vive o seu tempo e aprende
sobre antigos fantasmas e q
dentro da História familiar
também existiram opressores.

 

Você sente a existência depois de terríveis dramas:
depois de sua avó perder cinco bebês e bem depois
de seu bisavô ter matado vinte índios e violentado a
honra de centenas de imigrantes.

 

Você existe entre bilhões e
tudo o q precisa saber é trocar
as fraldas de sua mãe, a utilidade
de cada medicamento, cicatrizar as
feridas e dizer dez vezes por dia
para sua velha: tudo vai dar certo.

 

Depois virá a poesia,
pois a poesia começa tarde,
depois do crepúsculo,
depois dos velórios,
depois q as pernas falharem,
depois da pele se tornar um mapa do tempo – coberta de linhas e cicatrizes.

 

E se o amor começa tarde (como bem disse o poeta gauche),
o ódio acorda cedo – nas reminiscências da infância
quando a mão bruta e pesada
humilha a sua inocência para
q mais tarde só restem poemas rancorosos.

 

O ÚLTIMO REFRÃO DA MÚSICA

 

Quando um pai morre
uma filha reveste o pescoço de proteção
e joga sal grosso na casa
e toma banho de ervas benzidas.

 

Quando um pai morre
morrem também os espinhos tutores das rosas,
morrem os bravos guerreiros do inconsciente
e a força motriz q nos faz caminhar no Tenebroso Mundo Nosso.

 

Quando um pai morre
os outros homens tiram os chapéus
& os carregam contra o peito
& cantam pelos órfãos da casa
& choram e bebem até que a alma
do paimorto se levante e cante o último refrão da música:
“♪     ♫        ♪”
(só quem vela conhece a canção)

 

Quando um pai morre
as mães vagam em um deserto imaginário;
folheiam o álbum de casamento e quando um filho queda
a mãe repreende: “Ainda bem que Ele não está aqui para assistir isso!”

 

Quando um pai morre
o nosso yin yang  fica manco,
um dos pólos derretem,
as vezes fica só o dia ou
somente a noite povoando
[as estações.

 

Quando um pai morre buscamos nas escrituras sagradas
uma eternidade tardia e se não a encontramos
decodificamos “A Mesa” de Drummond
até nos acharmos em um daqueles filhos
e digerir a ideia do ciclo natural da existência.

 

Quando um pai morre nossa orbe
 fica sem um pedaço e uma ferida
se expande silenciosa até chegar o
tempo de uma inevitável metástase.

 

Quando um pai morre partimos para
o deserto mais instantâneo e gritamos
pelo nome do progenitor até que o
lugar inabitado destrua o eco de nosso luto.

 

Quando um pai morre um filho surge
em outra banda do mundo – o qual
será também, um dia, mais um pai que morre
 com todos os benefícios adquiridos pela vida e pela morte.

 

E as mães? Não! Uma mãe nunca morre!

 

E EU SABOREIO UMA IRISH CAR BOMB

 

Eu bebia uma Irish Car Bomb
enquanto crianças eram pulverizadas por bombas israelenses.

 

O Mal distante é legítima ficção até o dia que
nos extraem de nós mesmos para sermos outros.
Meu vizinho é um corpo de carne e ossos
e se ele se incendeia eu penso em performance.

 

Adel Kedhri (Tunísia): performer
 Jampa Yeshi (Índia): performer
Lâm Văn Tuc (Vietnã do Sul): performer
Prema Devi (Índia): performer

 

Contam que após o domínio do fogo
nossa espécie transubstanciou o cérebro
para algo hábil a criar bombas e rodas.

 

Adel Kedhri incendiou-se
Jampa Yeshi incendiou-se
Lâm Văn Tuc incendiou-se
Prema Devi incendiou-se

 

São Martinho articulava sobre o Homem ser fogo,
Buda propunha que o coração é a lareira
e Heráclito dizia: do fogo tudo flui.

 

Adel Kedhri é uma mensagem
Jampa Yeshi é uma mensagem
Lâm Văn Tuc é uma mensagem
Prema Devi é uma mensagem

 

Sonho com uma tempestade de fogo,
sonho com olhos volvendo em cinzas,
sonho com o cheiro amedrontador do Deus dos Mortos
colhendo infanticídios nos campos de girassóis da Ucrânia.

 

Adel Kedhri é um noticiário
Jampa Yeshi é um noticiário
Lâm Văn Tuc é um noticiário
Prema Devi é um noticiário

 

E eu saboreio uma Irish Car Bomb.

 

IDOMENI

 

Dentro de teus olhos
assisti a criatura
transportando dois
meninos nos ombros.
Você pediu para eu me virasse
 e eu neguei três vezes.

 

Justifico-me agora:
eu também
testemunhei
a passagem da
mãe e suas crias mortas.

 

Eu segui cada rastro de sangue
e me juntei a ela
e uivamos feito duas lobas raivosas
e passamos sangue pelos viadutos
e perfuramos as tetas
e arrancamos o útero
e depois dormimos uma por cima da outra
 [ao som de uma cantiga estrangeira.

 

A canção era um lamento de um tempo de gerações espontâneas:
mal nasciam e já deitavam em um leito de terra,
mal cresciam e já se oxidavam.

 

A canção era preenchida de barreiras, fronteiras e arames farpados.

 

Sim – dentro de teus olhos!
E você sobreviveu.

 

FICAMOS TODOS INVISÍVEIS

 

No passado eu via as vitrines,
as placas, os carros trafegando,
eu via as xícaras flutuando e os
chás descendo por gargantas invisíveis.
Os celulares caminhavam sozinhos e as roupas
de grifes eram nossas únicas identidades.
Eu via os prédios, os muros, as catracas e até sentia uma mão
invisível barrar meu vestido gasto – um carimbo de que ali
 [eu jamais seria bem-vinda.
Eu não tinha imagem – no espelho nenhuma face.
Eu não tinha sucesso – era assunto proibido.
Em um país onde não neva o gelo é a indiferença
(e a nevasca era de janeiro a janeiro).

 

Tempos depois
as crianças surgiram nas ruas,
gritavam suas fomes
e eu assistia mais
do que uma selva de concreto:
eu via o Deus dos Invisíveis
em cada face mascarada.

 

Hoje a história é um velho diário
lavrado por um gigante errante,
todo domingo é uma nova era
e nos sábados é dia de trocar a epiderme,
dar um trato nas crianças:
ensinar logística alexandrina & química molotoviana.

 

QUE O MEU SONHO NUNCA ASSOMBRA VOCÊ

 

Do outro lado
sou a mulher
"de quatro paredes"
ao som de Billie Holiday.

 

Apenas uma “branquela” aborrecida
q sonha ter a cor da terra para ser mais inquilina,
q sonha ser Angela Davis.

 

Deito-me no solo e afundo nos dias frios:
dias de rabadas humanas.

 

A canção diz: “Little white flowers
Will never awaken you.”

 

Quando permanecemos estrangeiros
predomina uma fome de explorar
e não importa se oprimimos
o músculo do entregador de compras
ou o estômago podre de uma vespa morta.

 

A canção diz: “Soon there'll be candles
And prayers that are said I know”

 

Gosto da música dos abortados,
da música dos malditos,
da música que canta o apego arruinado.

 

A canção diz: “Darling I hope
That my dream never haunted you”

 

Enquanto escrevo, você cai no sono.
O amor é a eterna espera do “Bom dia!”.

 

O CANTO DA SEREIA MORTA

 

E eu era dessas, daquelas, de todas as formas
e colhia tempos e tentava congelá-los para
evitar que a vida  fosse:
tão rápida, tão mínima, tão flash.

 

Peguei a estrada,
inventei ternuras,
armei estragos
e sinto as falhas tornarem-se assombrações – é  sempre um bate e volta
(uma terceira de Newton).

 

Beijei homens sem dentes,
homens que chupam a pedra
e depois cospem na mão para calar o diabo.

 

Beijei mulheres mortas,
mulheres sem pernas e sem braços – sereias suburbanas
(capazes de seduzirem a lua e morrerem ao sol).

 

Eu era a caminhante,
a caçadora de improbabilidades,
a especialista em vazios,
a montadora de quebra-cabeças sem peças.

 

Caminhei com os fracassados
e aprendi a passagem rápida para o desespero,
para o estopim.

 

Hoje não falo mais que treze palavras por dia,
sou das superstições, da reza brava, do tipo
q tece a própria corda para embalar o pescoço
depois de uma vida ruim.

 

 

Lisa Alves (Brasil, 1981). É curadora da revista Mallarmargens. Tem textos publicados em diversas revistas e páginas literárias como a Revista Zunai, Flaubert, Germina Literatura, Cronópios e Diversos Afins. Tem poemas publicados em sete antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Lançou em Agosto de 2015 seu primeiro livro de poesia Arame Farpado  (Lug Editora/Coletivo Púcaro).

Site | lisaallves.wix.com/lisaalves
Blog | lisaallves.blogspot.com.br

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2016


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Foto de capa:

Clara Pimenta do Vale


Paginação:

Nuno Baptista


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