ANO 4 Edição 44 - MARÇO 2016 INÍCIO contactos

Floriano Martins


BASTIDORES DE UM ESPELHO: CRUZEIRO SEIXAS NO BRASIL

 

Aos 95 anos de idade Cruzeiro Seixas ainda nos surpreende pela perene juventude de seu espírito. O Palácio da Cidadela de Cascais, de dezembro de 2015 a abril de 2016 abre a público uma relevante mostra de sua obra plástica que se intitula Sou um tipo que faz coisas, afirmação que tão bem se integra ao fascinante painel que vem tecendo com seus desaforismos, sorte de máximas que atuam como verdadeiro manifesto de uma poética. Duas das publicações máximas de Cruzeiro Seixas Local onde o mar naufragou (2000) e Prosseguimos, cegos pela intensidade da luz (2009) são justamente obras artesanais, onde este fazer coisas opera com maestria e paixão. Ambos são frutos de um processo serigráfico artesanal, o primeiro deles executado por Rui Alves, o segundo por António Moreira, com tiragens respectivas de 400 e 450 exemplares. Nos dois volumes uma mescla que tanto singulariza sua criação: pinturas sobre papel, desenhos, anotações, desaforismos, citações, constituindo um todo com acentuada voltagem poética.

 

Disse certa vez Cruzeiro Seixas: "A dúvida é a minha paixão, a razão da minha vida", aspecto marcante que tão bem definiu tudo o que fez e sobretudo fez com que não visse distinção alguma entre escrita e pintura, pois bem a exemplo de outros grandes nomes da arte contemporânea, como Hans Arp, Henri Michaux e Ludwig Zeller, também não se sabe em Cruzeiro Seixas onde termina o poema, onde começa o desenho, em qualquer ordem que se observe. E foi justamente de um destes nomes referidos, o belga Michaux, que Seixas cuidou pessoalmente de produzir mostra em Portugal, a única do artista até hoje, em 1972, na Galeria S. Mamede, uma entre tantas exposições ali curadas por ele. A exigência criativa deles todos sagra a dúvida e desconfia com todo corpo e alma daquela fatia existencial que se expõe isoladamente. Não à toa os quatro se irmanam à luz do Surrealismo, sob o imperativo anímico dos vasos comunicantes.

 

No documentário O vício da liberdade (2009), Cruzeiro Seixas recorda o quanto lhe causou feliz surpresa a descoberta de Hieronymus Bosch, cuja obra A tentação de Santo Antonio se encontra no Museu Nacional de Arte Antiga. Jovem ainda, entregou-se ao espanto de ver como se encontrava naquela tela uma infinidade de detalhes que, juntos, compunham o retrato imenso de uma visão de mundo. Talvez aí se encontre a revelação de uma poética também ela evidenciada pela soma comunicante de pormenores. Têmperas e desenhos inúmeros, de que são respectivos exemplos Da realidade das coisas (1981) e Sete histórias inconfessáveis (1980), revelam um criador inspirado pela descoberta de um mundo através de suas minúcias. Não é outro o âmago da eternidade senão o instante. Não se alcança a permanência se não for pela porta do efêmero.

 

Fiz referência a duas obras específicas, mas poderia rapidamente evocar outras, inclusive alternando gêneros, citando poemas e objetos, aquarelas e colagens. Esta aventura de plasmar novos significados a partir do encontro inusitado entre fatos diversos, tão cara, em essência ao Surrealismo, sempre foi determinante na criação de Cruzeiro Seixas. Um de seus truques entranháveis é justamente o deslocamento de expectativas, o modo nele já natural com que nos descortina a paisagem repleta de elementos inesperados. Não à toa dá a umas notas autobiográficas o título de Uma ferida que dança, por mais certo que acabemos admitindo que viver será sempre uma composição arbitrária de perdas e ganhos. A todo instante nos lembra que a vida, como a própria criação artística, está determinada pela surpresa, pelo inesperado, pelo desconhecido.

 

No poema não é distinto, e seu espelho não revela senão aquele ponto íntimo em que se irmanam autor e leitor, quando ambos se sentam e se deliciam com os imperativos mágicos da entrega, desse território da descoberta comum e inesperada. Lemos ali que "a luz escrevia na trama das fibras / um pássaro realmente real", ou então que árvores "desfilam em chamas / vindas de muito longe / sustentando cidades nos ramos". O mundo não para de surpreender e surpreender-se na criação de Cruzeiro Seixas. E esta mútua ação é que o situa como um dos nomes mais expressivos em nosso tempo.

 

Seu invejável apreço pela provocação o levou a anotar, em um de seus livros, frase de Natália Correia que diz: "Os amantes infelizes que se amam demais para se entenderem". Este talvez seja o dilema maior na relação entre Cruzeiro Seixas e a realidade. Sua própria longevidade pode aí identificar certo mecanismo perverso. Viajante em vários parágrafos de sua biografia, nem mesmo preso ao cais este português se considera. Sempre foi alguém que soube muito bem ir e ficar. Um de seus desaforismos que mais me cativam revela: "por vezes procuro imitar-me". Seu profundo senso de humor não tem nada de irresponsável ou levianamente arbitrário.

 

Quando se produziu o catálogo O surrealismo abrangente, exposição de sua coleção particular doada à Fundação Cupertino de Miranda, em 2004, no exemplar que me enviou escreveu: "Aqui tens, prezado Floriano Martins, um mundo de relacionamentos, que para mim representa um oceano, em que me tenho batido com a minha ideia de realidade". O acervo em 2005 tive a oportunidade de visitá-lo , que a referida fundação deveria entender como um presente dos deuses, constitui uma das máximas galerias do Surrealismo de que se pode orgulhar o mundo.

 

Quando um poeta balbucia suas primeiras palavras é quando percebe uma distinção entre o mundo que habita e aquele que traz dentro de si. Não há remédio para essa disjunção, porém a criação artística ajuda a compreender suas dores e dolos. Em um de seus manuscritos lemos a inquietude: "Quantas vezes a tragédia interior é exterior e quantas vezes a tragédia exterior é interior?". Talvez haja casos em que a compreensão não seja suficiente para corrigir um erro, porém não há razão superior à descoberta. O homem quase sempre é aquilo que desconfia de si. Cruzeiro Seixas, ao falar, por exemplo, dá a seu corpo um protagonismo excelente, o gesto nele está em permanente elucidação de sua inquietude. Somente aí podemos entender a maravilha dessa frase: "As minhas mãos é que pensam, não eu".

 

O Surrealismo em Cruzeiro Seixas de algum modo transcende os limites do Surrealismo em Portugal, pela simples razão de que tanto ele quanto António Maria Lisboa compreenderam que era preciso expurgar a barreira dos nacionalismos. Talvez a minha única discordância com Seixas seja a de sua proclamação irredutível de uma genialidade de Mário Cesariny de Vasconcelos. Não pelo atributo honorífico, mas pela compreensão que tenho, naturalmente como fato irreversível, de que a morte prematura de Maria Lisboa, a longevidade de Cesariny de Vasconcelos e o período ausente de Cruzeiro Seixas (vivendo em Angola), deram as cartas definitivas do Surrealismo que se fez em Portugal. Não o questiono aqui, apenas observo suas coordenadas. O que trato de evitar é uma leitura parcial, por mais que a realidade seja bem seca no resumo de suas preferências.

 

Disse certa vez o poeta: "O Surrealismo continua a ser, para mim, a mais segura prova de que as mãos do homem o podem manter, suspenso, sobre o precipício". Tudo o que o homem cria está ali, no centro nervoso de sua mão, na magia mecânica de quem consegue imprimir movimento à matéria bruta. É isto o que sempre fizeram os artistas: graças a eles os corpos se movem. Dão dinâmica à vida. Uma animação que se distingue pelo fato de que traz consigo a alma da criação. Uma identidade buscada na diferença e não em um selo fabril. A arte não mora perto ou longe do homem. A arte é o próprio homem. E o homem que se chama Cruzeiro Seixas, afeito à dúvida como uma razão de ser, indaga por que tantas razões explicam o homem e nenhuma resolve seus males.

 

A arte é este bordão incansável, uma teimosia perene, não de defesa ou correção, não de lamúria ou diletantismo, mas de anotação de que estamos com os sentidos recheados de soluções momentâneas e descartáveis, que a todo momento nos dispersamos e perdemos contato com o que somos, e não nos procuramos para mais nada. A longevidade de Cruzeiro Seixas é uma grande lição para todos nós. Não há outro modo de atuar senão a convicção incansável. E que transcenda a própria vida. Cruzeiro Seixas sempre foi admiravelmente natural em sua vida. Jamais necessitou de uma carta de apresentação da morte. Ainda hoje está aqui entre nós, como sempre estará.

ARC Edições, no Brasil, acaba de publicar o livro "Confissões de um espelho", com estrutura variada e que reúne a correspondência ativa de Cruzeiro Seixas com o poeta e editor brasileiro Floriano Martins; desenhos e gravuras do surrealista português, entrevistas e depoimentos, além de um estudo introdutório. A edição do livro esteve a cargo de Floriano Martins e Leontino Filho, este último assinando também um esclarecedor texto nas orelhas. Esta é a segunda vez que Floriano Martins organiza escritos e obra plástica de Cruzeiro Seixas para publicação em seu país. "Confissões de um espelho" foi há poucos dias (07 de março) lançado na Costa Rica, por ocasião da Exposição Internacional do Surrealismo, com a presença do poeta brasileiro, ocasião em que também foram exibidas algumas obras plásticas de Cruzeiro Seixas. O texto que aqui reproduzimos para os leitores de InComunidade é um fragmento do estudo introdutório de "Confissões de um espelho". Maiores informações sobre o livro, incluindo aquisição de exemplares, devem ser dirigidas de acordo com as indicações da loja virtual da ARC Edições: http://abraxasloja.blogspot.com.br/2016/02/cruzeiro-seixas-confissoes-de-um-espelho.html. Ou diretamente através do e-mail de floriano.agulha@gmail.com.
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Revista InComunidade, Edição de Março de 2016


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Colaboradores de Março de 2016:

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Fernando Martinho Guimarães, Floriano Martins, Francisco Prior, Jacob Klintowitz, Jorge Valero, Jorge Vicente, Leontino Filho,

Lissete Lopez, Luiz de Gonzaga, Lisa Alves, Luiza Maciel Bozola, Maria Toscano, Moises Cardenas, Nicolau Saião,

Oscar Castro Garcia, Sandra Makowiecky, Silas Corrêa Leite, Susan Pensak, Wilmar Silva de Andrade.


Foto de capa:

Clara Pimenta do Vale


Paginação:

Nuno Baptista


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