ANO 4 Edição 44 - MARÇO 2016 INÍCIO contactos

Maria Toscano


EDITORIAL: BOÇALIDADE DA INFERIOR CONDIÇÃO DA MULHER: A DESONESTIDADE EM QUE CHAFURDAMOS1

- esperança na mudança

 

Confio, profunda e inabalavelmente, na capacidade de mudança das pessoas e das sociedades. Fundamenta-se, esta convicção, nos ensinamentos da sociologia da acção, entre outros domínios do conhecimento em que me filio. Confio.

 

Ao mesmo tempo, também reconheço e assumo que os processos de mudança são lentos e nada lineares, pois enraízam-se na consciência colectiva e na subjectivação que os actores sociais/as pessoas vão fazendo/possam fazer quanto às suas condições de vida em geral, e à respectiva distância ou proximidade da sua felicidade.

 

Os modos e as condições de vivermos, na procura da felicidade, são construções que fazemos: não são destinos fatais. Acontece é que há tradições, ideologias, valores, padrões, até leis e, mesmo, formas de educar que interiorizam e reforçam a falsa ideia de não ser possível mudar os modos como vivemos. Contudo, a ideia de mudança permeia já outros fundamentos (ideologias, valores, leis e formas de educar) afirmando, assim, a incontornável realidade de ser possível a mudança social e humana.

 

- resistência à mudança: o preconceito naturalista

 

Um dos tópicos mais usados na argumentação resistente à mudança social e humana é o de que a natureza determina a condição humana e, desse modo, determina as diferenças entre pessoas e relações sociais. Este argumento vem sendo desmontado há 3 séculos por sociólogos, antropólogos e outros cientistas sociais, mas é persistente.

 

É inquestionável que haja diferenças biológicas e naturais entre os membros das sociedades humanas, como se pode exemplificar com categorias comuns: há pessoas louras, morenas, ruivas; altas, médias, baixas; gordas, fortes, magras; idosas, adultas, jovens, crianças; homens, rapazes, meninos; mulheres, raparigas, meninas.
Sendo inquestionável a existência de diferenças biológicas e naturais2 o que deve ficar claro é que as distinções naturais (fisiológicas, biológicas…) são falso argumento ou pretexto para discriminar e desqualificar socialmente, o que é diferente.

 

- a realidade social é tecida pelas relações sociais

 

A falsa ideia da legitimidade natural para a desigualdade social tem raízes muito antigas e colonizou o próprio discurso de alguns cientistas, pois o conhecimento científico não está absolutamente livre de erros, ao ser elaborado por pessoas na relação com os seus tempos e lugares sociais.

 

Ora, as ciências sociais têm vindo a ensinar como a desigualdade social – e todos os fenómenos que ocorrem nas realidades sociais – decorrem de factores relativos à vida social. Ou seja, a César o que é de César, a Deus o que é de Deus, e ao social o que é do social.

 

Sabemos bem que os modos de vivermos são construções.
Os modos de vivermos na busca da felicidade, e a esperança de podermos ser mais felizes, são construções. Os modos de sermos homens e mulheres (profissões, lazeres, afectos…) na sociedade, são construções.

 

Logo, os modos de vivermos (em relações sociais entre homens e mulheres) não são destinos empedernidos ao longo da história nem ditados pela natureza; são formas de vida mutáveis – no mesmo espaço, ao longo do tempo; e de espaço/local para espaço/local, num mesmo contexsto histórico-temporal.

 

- é tempo de sermos honestos

 

Simultaneamente, sabemos bem que ‘conhecimento’ é diferente de ‘informação’: aquele pressupõe o uso e apropriação desta. Portanto, a informação a respeito da frase «Não se nasce mulher: torna-se mulher» em nada garante que esta mesma frase se torne conhecimento, saber, fundamento efectivo dos actos e caminho quotidianos.

 

Por tudo isto penso que está na hora de pormos em acção, de aplicar e de tornar consequente a tanta e tão variada informação que nos cerca relativamente às boçais desigualdades entre homens e mulheres que ainda se mantêm ou que vão emergindo com novas roupagens, na sociedade portuguesa como em outras.

 

Sempre que a diferença dita natural é argumento para tarefas, papéis, lugares, posições, estatutos, leituras, representações e juízos sociais discriminatórios, impõe-se a honestidade intelectual e pessoal, desmontando e não pactuando com essa falsa desigualdade. Por exemplo:

 

i) nenhuma característica fisiológico-genital é causa legítima para que, face a igual produtividade, eficácia e eficiência no trabalho, as mulheres tenham de ser menos remuneradas, menos promovidas, mais vigiadas, mais tempo retidas no seu posto de trabalho e, até, menos vinculadas nas relações e contratos laborais;

 

ii) nenhuma característica fisiológico-genital é causa legítima para que, na rua ou noutro espaço público em geral (mas não só) as mulheres tenham de se sujeitar a ouvir ‘bocas’, provocações, insultos; nem a ser olhadas como gado ou coisas andantes;

 

iii) nenhuma característica fisiológico-genital é causa legítima para que, no espaço da intimidade (!!!), mas não só, as mulheres tenham – sem negociar nem aceitar – de planificar e executar as tarefas domésticas, em acumulação com o trabalho profissional fora de casa, seja em que idade e fase do matrimónio ou relação conjugal for;
 iv) e et caetera nenhuma característica fisiológico-genital é causa legítima para que, as mulheres usem espartilhos (como em séculos idos da sociedade ocidental); ou as mulheres sejam massacradas nos pés (como nalguns estratos da sociedade chinesa); as mulheres sejam assediadas, batidas, sovadas, violadas e mortas por violência doméstica ou profissional; as mulheres se envergonhem ou desvalorizem os seus sentimentos e inteligência emocional (o mesmo sendo verdadeiro para os homens, encerrados nos esterótipos da razão seca e a-sentimental); as mulheres usem o corpo para manter ou conseguir um emprego; as mulheres sejam punidas pelo seu prazer físico (mutilação genital; abuso de namorados e maridos); as mulheres submetam, manipulem, humilhem, explorem - comercial, intelectualmente, emocionalmente, sexualmente ou fisicamente - outras mulheres; as mulheres silenciem as suas opiniões, ideias, desacordos, fé, sugestões, inteligência racional…; as mulheres ocultem como negativo/pecaminoso (burka, véu, restrição espacial…) o seu sorriso, os seus gestos, o seu corpo…

 

Poderíamos continuar a citar múltiplos contextos e condições da desigualdade que vigora e temos reproduzido: quer quando se não toma posição, o que implica que se está a tomar a posição do consentimento3 ; quer quando se invertem os pólos e mulheres passam a adoptar papéis/estratégias/atitudes ‘ditos masculinos’ - inversão que tão-só consiste nisso, já que se mantém inalterado o tipo de relação de desqualificação e desigualdade face ao outro (a troca entre quem tem os lugares dominantes e dominados não muda nem requalifica os lugares e papéis negativos).

 

Esta é a desonestidade em que chafurdamos: ter a informação, citá-la mas não a assumir.

 

Retomando a ideia com que abri este editorial: confio, profunda e inabalavelmente, na capacidade de mudança das pessoas e das sociedades. E penso que está por fazer a «mulher liberta» - porque o caminho da paridade, que é nosso património, não esgotou os desafios nem está fechado.

 

Estão por fazer e em aberto esses modos de viver a condição social de mulheres e homens, comportamentos relacionais que nos aproximem da felicidade - ao invés de vivermos rodeados de situações que fingimos não perceber, não viver ou não consentir, num continuado boicote cinzento à mudança.

 

É claro: ‘isto’ dá trabalho, exige criatividade, persistência e energia.
Mas – pensemos honestamente – não serão estes os atributos que distinguem seres mortos de seres vivos?

 

M.ª de Fátima C. Toscano, Socióloga.
Figueira da Foz, Casa do Caes, 4-6 Março / 2016.

 

1 Grata pelo convite da InComunidade (onde tenho colaborado com Poesia) para escrever este Editorial enquanto socióloga, sobre uma problemática que me tem ocupado profissionalmente - a condição social da mulher – faço-o no mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, marco ainda necessário para alertar e denunciar a desigualdade social que continua inerente à condição social feminina.

 

2 Embora deixemos para outro momento a polémica relativa às causas ‘naturais’, pois, por ex.º, ser gordo, forte ou magro, como loiro ou ruivo, pode decorrer de critérios, comportamentos e hábitos vivenciais e sociais…

 

3 A este respeito tem de lembrar-se que, embora haja variados motivos para esta prática do consentimento (medo físico, dependência económica, fragilidade emocional ou física, sofrimento continuado e legitimado como dever…) o consentimento sempre decorre - de forma mais ou menos consciente -, de mecanismos de legitimação da desigualdade, i.é, ele é, também, uma das vias de construção da desigualdade.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2016


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