ANO 4 Edição 44 - MARÇO 2016 INÍCIO contactos

Carla Diacov


POEMAS DE CARLA DIACOV

lava e leva seus paninhos
e você pode lembrar-se de um só horror
ó solidão mais trapaceira
todas umas pessoas amorosas no teu nome
digo
todas umas pessoas amorosas no teu sangue
na tua histeria corretiva
você pode se lembrar de um só horror
encontrar uma vela acendida na névoa
um javali branco perto dela
da vela
mas você só se deixa perceber o
javali pelos dentes verdes pelos dentes pretos
dele você pode agarrar-se a um só horror
não hesite ao ronco por detrás
outro javali?
uma criança?
um horror!
e o relógio da madre é o signo aqui
pulso pulso fé e pulso
você precisa mentir melhor para que a névoa seja
veja:
uma folha da figueira que ninguém havia
plantado até agora voa como que por si
há um motorzinho de horror ali no cabo da folha
voa como que por si e gruda na tua canela
a vela ainda animada com tudo
o javali sorridente e
diabos
uma criança em algum lugar
no javali?
digo
dentro dele?
a folha custa desgrudar e lá está
toda a explicação da coisa que é um horror
agora você pode lembrar-se
somente do horror descrito na folha
a coisa
ou podes voltar pra o convento
ó mulher chafurdada em sangue
toque o sino toque o sino anda!
deu-se exatamente o tempo do fogo sob a geleia de amoras

 

////

 

a mulher que sabia chorar pelada
a mulher que sabia escrever chorando
encostava os bicos no aquário e
chorava pelada sobre os peixes
chorava pelada sobre o tricô
a mulher que sabia chorar e varrer pelada
pelada a mulher que tinha mil e oitocentos espelhos
numa só parede amarelada
alcançava os temperos queimando as tetas
a mulher que sabia cozinhar pelada
sangrava onde passava o pano a enceradeira
a mulher que sabia menstruar pelada
a mulher que menstruava tocando harpa pelada
também cagava a mulher que sabia mijar pelada
olhava o frango pelado sobre a tábua
metia o dedo no cu do frango metia os dentes de alho e pimentas peladas
a mulher pelada e um cutelo na direita
a mulher que sabia chorar pelada
a mulher que sabia gargalhar pelada
era o nome dos cigarros de predileção do marido da vizinha

 

////

 

como um bebê
eu haveria de passar pelos dias
sentir cócegas nos ossos
não enxergar a tradução dos letreiros
subir as escadas pelos olhos dos outros
engatinhando para apanhar o frasco de aspirinas
os ansiolíticos
vomitar no álbum de lembranças que não são minhas
esperar que cresçam unhas nas pontas dos dedos
e arranhar as gengivas
brincar com as pernas no ar
dar nós nas bolhas de baba
morder o dedo do médico
não enxergar a tradução no que dizem
vomitar no teu ombro
me cagar de dez em dez minutos
chorar só um pouquinho
engolir moedas
não enxergar a tradução no que dançam e cantam
ter os sentimentos cercados de barras
e tomar um bom trago de vodca barata no fim da manhã
antes da papinha cheia de saliva da mamãe

 

como um poeta
eu haveria de passar pelos dias

 

////

 

amanhecida
dos tempos
absolutos de insetos
seria suficiente
dois anzóis
a respiração
um pouco mais pesada
que o estado da pena trêmula

 

ainda respiro sobre a pena
fito eternamente a marca da água
no véu da fronteira

 

o estado é minha loucura agora
digo
quando
se sobrevivo

 

essa fome nunca fez sentido
sou mais da louça desses acidentes

 

////

 

casei
me
ainda agora com um sobrevivente do
matrimônio religioso em olaria y
outras texturas
que homem mais desembuchado
dorme na terra
diz
alcanzarme nada di comoodidad a soñar
marido
tem um ó mais no que me pede
ele diz
justamente caverna minha
me chama assim
caverna minha e
planta uma sementinha di maggiorana na
cabeceira da terra
diz
para a mole memória em flechas
y lembra-te caverna minha
conserve sebastião
são alba borensztein und bieniek
piombatura
penhascos em nata
olor und gabel

 

////

 

a cidade foi cercada
e vem a noite
e de milhares de leões
um
a cidade foi devastada
e de milhares de barrigas
uma
e vem a manhã
o mar arredou
há uma concha trincada
debaixo de tão pequeno pé
há séculos a cidade sangra pelos teu canais
porque a poeira
que sempre vaza os lençóis
assim desejou
a cidade foi inundada
também
pelos teus canais
agora a noite precisa ser mentida

 

tão pequenos os pés os ovos tão moles
tão perfeitos os talos
desfigurado o ombro
tão limpinhas as cuias a cidade o leão e o peixe

 

////

 

MAÇÃ MAL CABIDA

 

faz já dois candelabros que ela não olha para trás
uma mulher de olhar para trás
mas então agora é o prato chinês
os ossinhos do pato no canto perto
da mão esquerda
o garfo com seus dentes virados
para o quadro onde um cavalo e sobre ele
uma garotinha forçando o rosto num
raio de sol muito mal pintado num
tom de maçã mal cabida ali
pobre
pobre beleza pobre mal cabido ali
faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás
metodologia de sondar sem ver
uma faca no assoalho de cupins
uma vaca bordada no guardanapo novo
uma mulher e um homem e uma roda de tortura
uma vaca bordada na cara da mulher
onde o homem maria de deus
uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada
uma vaca bordada na cara dela
e se ela se botasse a cantar e se
se ela botasse a querer lamber um peito marinho
e se ela se botasse
a pensar num estupro supracoreografado
uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não
ela usa um terno cinco tamanhos maiores
faz treze luas que ela não
faz treze náuseas que ela não olha para trás
uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia
uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar
um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher
coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado
cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali
se ela se bota a voltar a olhar para trás
se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar
se ela se bota a criar uma boa superstição com taças
já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não olha para trás
se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa
se ela se bota a entortar o quadro
uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura
uma carcaça bordada na cara da mulher
onde o homem maria de deus onde o homem
se ela se bota a cruzar os ossos
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a estranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas
se ela se bota a pentear a franja com o garfo
se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas
se ela se bota a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal
faz já onze moscas que ela não olha para trás

 

////

 

é um milagre
fiz umas fotografias das ruas das gentes
nas ruas suas perucas suas roupas
suas décadas
cheguei a sentir saudade quando fiz
essa fotografia da mulher com berinjelas no colo
cheguei a sentir saudade de alguma coisa ali
tenho medo de voltar à fotografia
da mulher com as berinjelas
a vida toda vai ser isso de não voltar
nunca ao instantâneo
da mulher com as berinjelas no banco perto da praia
é muito bonita a imagem toda e cheia
de lembranças que não são minhas
a nuvem porém uma só nuvem miudinha e porém
se essa fotografia tivesse um nome chamar-se-ia nuvemporém
eu jamais voltaria lá nunca sozinha
ou desarmada
não eu jamais voltaria
o milagre é não voltar
a mulher estará
é um milagre
SE A MULHER BEIJA OS JOELHOS
ESPREME AS BERINJELAS
é um milagre ela saber e não fazer
eu não quero voltar
lá eu não volto
lá ela estará
não me obrigue a voltar
esse milagre é só meu
SE A MULHER BEIJA OS JOELHOS

 

////

 

o burro trota tão lentamente
perdido do nome gritado
carrega ovos nas mãos escondidas nas
mangas do casaco extralargo
coitado do burro com mãos
perdido da moldura antiga
pacífico de sua própria demência
bonito tão bonito pacífico tão lindo
lentamente ruma
já a casa de fé nos olhos de burro
parece um peixe coitado pacífico
tem esse jeitão de aquário trincado
gosta de cadeiras em geral
mas é boa gente
gosta de leite quente e de cadeiras
em geral
chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia
deixa os ovos no altar
faz carinho nos porcos
pega o microfone e repete
quase porque quase porque quase
tudo empilhado
quase porque quase porque quase porque

 

é mesmo um burro
queria ser pianista
tem muita fé quase porque tudo empilhado
mas é mesmo um lento burro de carregar ovos
pacífico todo pacífico demente e lindo
tão bonito tudo empilhado

 

////

 

tremulando sob o couro
a cegueira tão perto do sexo
logradouro e sangue e uma porca rósea
acordar os olhos ali perto
sem alterar o andamento da luz na tua pupila sob
puxar tua cabeça feito a júpiter
tremulando sob o couro
um ou três corações para morrer
uns instantes
veias sobre a meia calça
veias sobre o sofá de morrer sobre a mesa de vidro pardo
veias ligando nosso idioma ao do lustre
um dia nos moveremos de novo
um dia ventaremos feito o sono
um dia tremularemos feito gente
sob o couro
daí um ou três cafés
uma vela
e tua sombra monstra sobre o meu couro morto

 

////

 

o mendigo disse que hoje seria
o dia
disse que eu seria contemplada
disse que eu tinha cara de gente
que descama
eu disse todo mundo troca de pele
o mendigo limpou o nariz
disse que eu tenho cara
de gente que se reimplanta
você tem cara de gente que se mutila
você tem cara de gente que se masturba
você tem cara de gente que se deturpa cara
de gente que custa reflorescer
você tem cara de gente que muito se poda
nas piores temporadas
disse que hoje é o dia
serei contemplada
mas já?

 

////

 

para abrir essa janela
sento-me numa cadeira branca
descasco uma manga verde
como lascas da polpa com sal marinho

 

eu que achava que todo sal é marinho
eu que sei que todo o azul é do pedro
que toda paisagem é cristalizada
assim que se abre uma janela

 

sento-me numa cadeira branca
descasco uma manga verde
destampo todos os meus dedos

 

eu que sei que em todo vermelho
pode o sal o sol minhas chagas no azul
para abrir essa janela
para amolecer essa janela
para esvaziar essa janela e matar
a mosca que vem todos dias
suavizar o parapeito e o palavrão

 

////

 

meia hora depois de iniciar o óbvio
um beijo
só um beijo
nem metade um inteiro
achávamos que faríamos dez
mas um
um beijo
e a nova ordem: o mundo
sem amor e sem intimidade
um beijo
meia hora para o óbvio novo
meia hora para um outro
mas não
um beijo
e faríamos intervalo mas não
só um beijo
nem sede nem fome nem chuva nem lava
só os ossos perto da janela
e um beijo
e reconhecer o país pela nova ordem: o mundo
maior que a língua na faca melhor que a infância
o beijo o tétano o óbvio inteiro

 

////

 

estou triste
mas é de costume
e é de customizar
não estou triste
não mesmo
não há nem espaço para um mar aqui
e nem adianta tentar me comprar com goteiras
e nem adianta tentar me comprar com gestos
com a proximidade de gestos
com o estreitamento da distância entre
um dedo teu e meu queixo trêmulo
nem adianta tentar abrir a gaiola
nem adianta libertar o coelho mais novo
nem adianta ficar exibindo esse costado largo
nem adianta dizer que o porco voltou
estou triste pra fazer exercido um costume meu
não estou triste quero explodir
mas é de costume querer explodir e não conseguir nunca

 

estou triste não estou triste
e olhe que as pitangueiras já nos cercam às janelas

 

////

 

considerava imperativo
pintar
então cuidava
da casa
das crianças
das rezas
nunca deixava de cuidar
das bromélias e das boninas
mas
imperativo era pintar

 

pintava de corpo voltado para o norte
sem que o sul saltasse à paisagem

 

um dia morreria

 

poderia ser hoje o dia de morrer
poderia ser ao sul a paisagem onde deitar-se-iam uns olhos

 

imperativo era pintar
então morrer
cuidar
regar e rezar e lavar
esmorecer sob as horas
cozinhar sobre elas

 

////

 

foi concebida em sonho e funciona
como digo agora
digo que funciona com rodas
papai passa pelo tecido e o aplaude
em pé
o vendedor corre o balcão
mede
corta
embrulha
amarra tudo com um cordão vermelho que faz laços
à felicidade de papai
papai que chega desembrulhado e
com todo e mais algum amor
cobre a máquina com o tecido de motivos marítimos
no que a família toda comemora tomando
suco de cana e arrotando nomes da pilantragem atual
e assim é que
realmente funciona a máquina de costurar
o que diz o manual é outra dança

 

Carla Diacov (9 de Abril de 1975 – São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil). Com formação em teatro (de 1995 até 2005), pôs-se a escrever e des­de então é só o que faz. Vez ou outra se atraca com alguma pintura ou desenho. Tem poemas publicados na COYOTE (editada pela Kan com distribuição pela Iluminuras / Brasil) e em vários sítios na internet. Afora seus tantos blogues
http://nichosdamortaquasemenoria.blogspot.com.br/), tumblrs, plataformas digitais em geral, é uma devotada integrante do site Escritoras Suicidas, tem um bom apanhado na revista Germina Literatura, na Mallarmargens e publicou na Revista Usina, na Revista Ellenismos e através de seu selo, Ellenismos Livros, tem o e-book FAZER A LOCA. Também publicou no Jornal RelevO, nas revistas Diversos Afins, Cruviana (terceira edição), Zunái, Musa Rara, Randomia, Modo de Usar e no site Cronópios.

Recentemente agregou poemas inéditos à Vida Secreta#2 e à eletrônica Portuguesa, Enfermaria 6. Integra as coletâneas 70 Poemas para Adorno (fruto do Festival Literário da Madei­ra/2015), Antologia Poética 29 de Abril - O Verso da Violência (Editora Patuá/ 2015) e a ESCRIPTONITA: mitologia-remix & super-heróis de gibi (Patuá/ 2016). Pela Douda Correria, Amanhã alguém morre no samba é a sua estreia universal em livro solo (Maio, 2015).

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2016


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Colaboradores de Março de 2016:

Ángela Hernández Núñez, Carla Diacov, Daniel Culla, Danyel Guerra, Eva Cataneda, Fernando Cuartas Acosta,

Fernando Martinho Guimarães, Floriano Martins, Francisco Prior, Jacob Klintowitz, Jorge Valero, Jorge Vicente, Leontino Filho,

Lissete Lopez, Luiz de Gonzaga, Lisa Alves, Luiza Maciel Bozola, Maria Toscano, Moises Cardenas, Nicolau Saião,

Oscar Castro Garcia, Sandra Makowiecky, Silas Corrêa Leite, Susan Pensak, Wilmar Silva de Andrade.


Foto de capa:

Clara Pimenta do Vale


Paginação:

Nuno Baptista


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