ANO 4 Edição 43 - FEVEREIRO 2016 INÍCIO contactos

Roberta Tostes Daniel


POEMAS

me visto de sargaços
como me visto de cinzas

 

a areia aquilata
minha adoração

 

animal
mineral

 

sou pedra
e tegumento

 

duas linhas se cruzam
em um ângulo de noventa

 

graus e formam
aquilo que eu não sou

 

o símbolo
o sulfato

 

matéria incinerada
da qual provenho

 

o resíduo aquoso
da certeza

 

contra o ácido
da repulsa

 

um mar me faz
tempo

§

Fred

Preso há dezoito dias
conto as rachaduras das unhas
que limo na parede
para me livrar do tempo
confiro detalhes e sequências
de acontecimentos recentes
para vencê-los por minha
lucidez. Aprendo a
dormir apenas de bruços
inalando o cheiro
das minhas entranhas
sangue e dente perdido
jogo que preciso dominar.
Sou um personagem
literário um experimento
do absurdo e mesmo
irreal, machuco:
o que faz doer o irreal?

§

Se cortam meus cabelos
as raízes
ou as pernas de Nijinsky
tudo constitui o fato central
de a vida ter seu eco no abismo.
As monções do pólen
devoram probabilidades
de haver certeza no vazio.
Mas o vazio é um ressurreto
que salta como um Deus
no alumbramento de Petrushka.
Cresce sempre e mais
que a paródia do domínio
a máquina da aparência
ou o feitio dos bosques.
Onde as sobras ainda vicejam
as sombras são como raios
e a revolta ainda não foi domada.

§

Vocação

 

Ser água depois que a palavra queima.
Ser o nome de coisas simples.
Nossas mãos desenrolando rios
oferecendo braços
por onde a Terra corre, absoluta.
Bebemos. Ao largo do manancial, vazio.
Bebemos com estreiteza
a ideia de um corpo, transmudado alfabeto
a ideia de um sopro de hálitos nossos.
Nos perdemos em fulgurações estranhas
dentro de casas altas, como nós
andamos frágeis sob a amplidão.

§

Foi preciso muita palavra
até arrancar deste silêncio
um lugar seguro.

 

Que não dá o seu paradeiro
leva minhas pernas
antiogiva de mim.

 

Recuso fragmentos
tenho força de abandonar
o caminho escuro.

 

O que seja a minha lei
desfaço
abro-me ao sol inteiro:

 

quero um corpo para dizer.

§

as paredes estão nuas de mim
as bicicletas me querem
uma jangada rasga minha pele

 

quero partir
para lá dos acontecimentos
sem geometria
ou mesmo, música

 

meus aparelhos eletrônicos
deram defeito

 

respiro próxima a fuga
de arcozelo

 

sou um declive
meus joelhos sofrem
intervenção federal
não há lugar seguro

 

sob um punhal de dias
coleciono contraturas
lapsos, frações

 

embora as paredes nuas
a fuga
a degola
fios desencapados

 

de mim, o franco assombro
um espaço rasgado para o barco
um seixo, o enjoo

 

pilhas de paredes nuas
anotações em timbre menor
cegado tempo de abrir clarão

 

eu sou uma ausência

§

Memorial

 

a cidade tresmalhada pelo desejo canônico
da bem-aventurança do dinheiro

 

a cidade corrompida de seus traços
sequer revertida ou proibida

 

a cidade como uma aranha à deriva
pisoteada e faminta

 

tecendo teias
que enlaçam crimes

 

e refletem obsessivamente
o que sobrou do prisma

 

anticarnaval pós
moderno antropoceno

 

fluido: dejeto de vastidões
engolidas pela terra

 

em trajeto rumo
à bomba de hiroshima.

§

Me leve desse rancor
o mundo quer cordas para se enforcar
mas leve pelo peso
deformado nas ancas
(vigas ainda desventram Fridas).

 

Me leve dos galpões, dos golpes
onde só há versões
e os fatos sucumbem ao que passou.

 

Nosso abraço sem solução
se delicia de nós, estreita o Rio
retrato demorado
de dois orbes.

 

Se há uma história silenciosa
prestes a colidir
corre pela linfa
protege ou nos sentencia.

 

Se há esse espesso
mágico líquen
somos elétricos e úmidos.

 

Me leve
pela roda dentada do tempo.
Sorriremos.

§

Exercícios de fé | Dominical

i.
Preciso que Deus me guie até o seu paiol
e que do alto dos ocasos
brilhe a pedra fundamental
onde me lavo
em fogo, estrela
bruta e ampla –
crer que meus pés caminham
até a próxima explosão.

 

ii.
Todo domingo. Uma confissão
de que todo domingo
é uma fraude
sem missais.

 

iii.
Preciso que o deus venha
áspero, desesperançado
nuns olhos de Clarice.

 

iv.
Que se redescubra o fogo.

§

pão cego da poesia –
mastigo o ermo das palavras
quando não quero dizê-las
estendo os braços, frágeis de sentido
por algo como a luz. ou a fome.

 

 

Roberta Tostes Daniel, Poeta brasileira nascida no Rio de Janeiro em 1981. Teve poemas publicados em antologias no Brasil e em revistas literárias, tais como Polichinelo, Zunái, Diversos Afins, Musa Rara e Mallarmagens. É inédita em livro. Escreve no blog http://sedemfrenteaomar.wordpress.com
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra (António Ramos Rosa).

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2016


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Foto de capa:

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Paginação:

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