ANO 3 Edição 32 - MARÇO 2015 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


MARIA LAMAS E AS MULHERES DO MEU PAÍS

 

Maria Lamas (1893 - 1985) é uma das feministas mais importantes de todo o século XX português.

 

Em 1936 o seu nome aparece ligado ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.

 

A 10 de Fevereiro de 1940, foi à Assembleia Nacional entregar o requerimento sobre a problemática das toleradas (prostitutas). O Conselho das Mulheres pretendia a penalização das prostitutas.
Na sequência da visita da Condessa de Pange a Portugal, Maria Lamas recebe o agradecimento de Marthe Boel e em 11 de Julho de 1945 Maria Lamas ascende a Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas: entre os problemas que se colocavam às mulheres inserem-se as questões familiares, a luta contra a prostituição e o desenvolvimento intelectual da mulher.

 

Em 1945 foi fundado o Movimento de Unidade Democrática (MUD). E no ano seguinte Maria Lamas inicia a sua actividade política assinando pelas listas do MUD sendo eleita Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.

 

Em 1947, oito dias depois da exposição das Belas Artes, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas é encerrado. É natural o seu encerramento tendo em conta que os totalitarismos não se davam bem com os feminismos.

 

Mais tarde a própria Maria Lamas seria detida pela PIDE.
Por altura da publicação do livro que vamos analisar, Maria Lamas fazia parte da Associação Feminina Portuguesa para a Paz.

 

A sua obra mais conseguida foi publicada em 1948, em edição de luxo, e designou-se As Mulheres do meu País, pela editora Actualis em Lisboa. A obra foi editada em fascículos. O livro, em formato de luxo, apresenta mais de 471páginas proliferamente ilustradas, quer com fotografias quer com desenhos. Muitas das fotos foram realizadas pela própria autora.

 

Os capítulos dedicados à operária, à empregada e à doméstica são aqueles que mais nos suscitaram a atenção.

 

Predomina uma grande ingenuidade da autora face à problemática de um Portugal salazarista recém-saído da II Guerra Mundial. Mas, o que é um facto, é que nas entrelinhas perpassa a necessidade de sindicalização e do voto universal das mulheres.

 

Veja-se como ela descreve o grande mal das operárias: “não ter possibilidade de se instruir, de alargar os seus horizontes, à medida que a consciência lhe vai despertando” (p. 365).

 

A grande questão é que a operária tem as mesmas tarefas que o seu colega operário e todo o serviço doméstico inerente a uma família alargada. E a nossa autora não se esquece disso. Quando referencia as mães operárias, nota a distorção entre o género masculino e o género feminino: os trabalhos mais elaborados e melhor pagos pertenceriam aos homens.

 

Diz a nossa ensaísta que em algumas zonas industriais predomina a mão-de-obra feminina a preços mínimos e a migração do homem para outros locais: isso sucede no Norte do país, havendo a ausência quase permanente dos homens nos núcleos familiares.
Ficamos impressionadas quando a autora refere o deslocamento das mulheres das aldeias para os centros industriais: vêm em grupos, apressadas, com um olhar vazio. Refere que a mentalidade destas mulheres ainda não despertou para as igualdades do género. As refeições, são elas que as transportam consigo. São poucas as empresas que dispõem de refeitório.

 

Quando uma operária solteira resolve casar, ao comunicar à empresa, fica automaticamente despedida.

 

Nós, no século XXI, em plena crise económica, percepcionamos um pouco essa vivência solitária das mulheres que, por exemplo, se engravidam, vão para o desemprego.

 

Retomando a obra de base: são mulheres que ficam deprimidas e desconhecem em absoluto que seria preciso resolver as desigualdades a níveis superiores.

 

A autora, apesar de admitir que as mulheres operárias trabalham em todas as indústrias, raramente atingem cargos superiores. Para isso, existem os homens. E hoje? Não será assim também?

 

No Porto, nos anos 40, admitiram mulheres como mecânicas e pintoras de automóveis. Tiveram de envergar o vestuário de mecânicos de automóveis.

 

A falta de instrução, os limites próprios dos meios onde vivem, obrigavam a que a mulher sofresse a profissão duma maneira áspera e fatigante. É preciso notar que a seguir à II Guerra Mundial a indústria cresceu em força, muito devendo às milhares e milhares de mulheres que faziam de tudo.

 

Outra profissão reconhecida no feminino é a das costureiras, curvadas sobre a costura mais de 8 horas por dia. Maria Lamas de vez em quando torna-se psicóloga e acerca das costureiras fala do gosto pelo luxo e de segredos das vidas sentimentais de então. Ainda a costureira apresentada como heroína na poesia e no romance. A ensaísta está contra o mau cinema e os péssimos romances que deturpavam a formação dessas profissionais.

 

Acha também que há uma propensão romântica e um desejo de ser estrela que iriam redundar num fracasso desmoralizador.

 

É curioso como a classe das costureiras é vista com muito maior preocupação do que as restantes profissões operárias. Diz mesmo que não havia um sentido de classe entre as costureiras. E, mais uma vez, refere-se aos sindicatos e da enorme ausência de sindicalização das que se dedicavam à costura.

 

A autora dá muita importância à saúde moral e física, o que para nós, neste século XXI já não é determinante. Nos dias de hoje tendemos a ser amorais.

 

A autora tem uma elevada preocupação com uma ética do comportamento, o que se compreende perfeitamente se lermos os autores neo-realistas.

 

Maria Lamas quer conhecer a mentalidade dominante das operárias, das camponesas, das dactilógrafas, enfim, da mulher enquanto elo mais fraco na sociedade civil.

 

A Companhia dos Tabacos em Lisboa seria a única a admitir a maternidade para as suas operárias. No resto haveria um desinteresse total pelas questões da maternidade, de creches e de refeitórios.

 

Existiriam operárias com uma mentalidade mais esclarecida e que tentavam alcançar instrução. Mas, a percentagem de analfabetismo seria muito elevada.

 

As mulheres eram também as criadas e as mulheres-a-dias em casas ricas ou remediadas.

 

Para Maria Lamas as criadas eram um dos maiores problemas na sociedade portuguesa.

 

Ao referir as criadas, fala de servas que nunca chegaram a casar para servir numa casa. E deixa uma suspeita de realidades inconfessáveis que se passariam no próprio corpo das jovens. Mas, as criadas desses anos 40 afinal eram diferentes das servas de antigamente. Aqui entra uma incongruência: Maria Lamas diz-nos que as donas de casa não estão preparadas para o trabalho doméstico, daí servirem-se de pessoal doméstico, o qual na maioria das vezes, também não está preparado para essas funções. Neste entretanto apetece-nos lembrar Juliana, a criada de Luísa em O Primo Basílio de Eça de Queirós. As trabalhadoras domésticas sentem despeito pelas mulheres que vão servir. Será que a nossa feminista pretende que cada mulher trate dos afazeres domésticos sem qualquer auxílio? Se pensarmos na Luísa e no seu fim trágico, o melhor é dispensar empregadas domésticas.

 

Como não havia, naquele tempo, máquinas de lavar roupa, as lavadeiras eram muito solicitadas. Era das mais duras profissões e deu origem, no cinema dos anos 40 e 50, a personagens cinéfilas muito interessantes.

 

A autora também nos fala das vendedoras ambulantes.

 

Uma ocupação feminina que seria muito moderna, era a de arrumadora de cinema e teatro.

 

Não se podia chamar “mandrionas” às mulheres do povo. Condescendentemente dizia-se que mesmo que a mulher não trabalhasse fora do lar a sua actividade era constante. Mas, tal como Eça de Queirós, refere-se a mulher que nada faz. E essas mulheres divagariam nos raciocínios estéreis. “A preguiça é a mãe do todos os vícios”.

 

Quer as mulheres das aldeias quer a dos bairros mantinham sociedades de recreio, romarias e sessões de cinema.

 

A autora, preocupada, critica a desorientação que certas leituras iriam fazer em mulheres pouco cultas. Mais uma vez lembramo-nos de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão nas Farpas. Aí criticavam-se as moçoilas que liam romances moralmente pouco éticos e que não beneficiavam quem os lia.

 

Maria Lamas fala do amolecimento de energias e do alheamento da vida real. Tudo por causa de leituras. Como estamos longe do mundo televisivo, dos big Brother e dos reality shows. Maria Lamas insiste: a leitura pode ser altamente prejudicial.

 

A nossa ensaísta acha que a mulher é mais influenciável do que o homem e isso encontrava-se na raiz dos males que afectariam a mulher.

 

É contra os meios sociais onde as raparigas são falsamente lisonjeadas pela sua beleza e vestuário pensando assim que a missão feminina seria atrair os olhares masculinos.

 

Nos romances, quando a mulher se mostra leviana, é logo apontada como elemento de perdição e de intrigas passionais. Dizemos nós: é só ler o grande romancista muito esquecido Abel Botelho, na sua série Patologia Social.

 

Também critica as mulheres que estão muito bem na vida e que penalizam a moral de outras, à margem da sociedade.
Sem dúvida que as mulheres do povo eram as mais heterodoxas tendo em conta que não tinham tempo para preceitos muito moralistas.

 

A autora critica também a mulher luxuosa que até possui um automóvel, jóias e casacos de peles, mas algures na juventude fora criada de servir.

 

Critica também as heroínas dos romances cor-de-rosa para quem o casamento com o homem, rico e poderoso, seria o culminar da felicidade. E não se demove contra o cinema que deformava a mentalidade das classes médias e populares. Em suma, a autora prefere as mulheres do povo com a sua acuidade de espírito, às burguesas alienadas por romances espúrios e cinema com pouca qualidade.

 

Mas, acaba por afirmar, no final do capítulo sobre as operárias que a mulher do povo não é feliz.

 

Em plenos anos 40 a autora fala da professora primária que é sempre uma das pessoas mais consideradas nas vilas. Refere-se que as professoras ficam muitas vezes a residir num quarto de um lavrador mais abastado ou então são obrigadas a fazer longas caminhadas. O pior passa-se com as regentes escolares: o salário era de tal modo baixo que não garantia a sobrevivência. A professora primária é extremamente considerada e muitas vezes insiste junto dos pais para que os alunos prossigam os estudos.
Existem também as enfermeiras e o pessoal auxiliar. É preciso muita dedicação e resistência física.

 

Segundo Maria Lamas o Estado pagaria igualmente aos funcionários homens e mulheres, o que não existia no universo do privado.

 

Existiriam cada vez mais mulheres nas faculdades que seriam médicas, advogadas, professoras do ensino secundário, etc.
Também existem mulheres jornalistas dedicando-se sobretudo à crónica.

 

Maria Lamas tem pena que mesmo a mulher universitária tenha uma mentalidade retrógrada de anjo do lar.
Raramente as mulheres têm cargos de direcção

 

As mulheres domésticas são aquelas que não exercem qualquer profissão.

 

Maria Lamas é fortemente crítica dessa postura. Isso também explicaria a ausência de consciência política das mulheres domésticas em geral. A autora penaliza a mulher fútil que passa o tempo nas modistas e nos chás. O marido, quando chega a casa, após a refeição vai para a taberna ou para o café. Elas ficam a lavar a loiça e a tratar dos filhos.

 

São muitas as raparigas que se ficam pelo ambiente doméstico a preparar o seu enxoval. Algumas libertam-se e vão trabalhar. Outras, através de romances banais, pensam no noivo que as há-de libertar.

 

A falta de direitos políticos da mulher é denunciada pela autora. A mulher não vota; só existem duas ou três deputadas na Assembleia Nacional; estão dependentes dos homens para tudo.

 

Maria Lamas está totalmente contra a prostituição que em Portugal era legalizada e regulamentada.
A mulher portuguesa normalmente encontra-se isolada dos movimentos feministas dos outros países.

 

Maria Lamas foi uma das poucas feministas do século XX português. Notam-se algumas incongruências perfeitamente naturais tendo em conta a mentalidade do tempo (anos 40 em Portugal).

 

Só após o 25 de Abril reencontraria a visibilidade dessa acção feminista.

 

Este livro contém elementos fundamentais para o estudo da condição da mulher nos anos 30 e 40. Daí o interesse de o recordarmos e o inserirmos numa história das mentalidades, nesses anos 40 de novecentos.

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