ANO 3 Edição 32 - MARÇO 2015 INÍCIO contactos

Jorge Mendes


DESTROÇOS: UMA BREVE COLETÂNEA

ÂNIMA

 

crie asas, encantamentos, quebre o cimento, beba do meu conhaque. faça adormecer os móveis, leve minha tristeza pra passear. saia do frio com os cabelos molhados, caia morta. quero morder palavras de sal e fundo do mar. apague meu rosto e me deixa fugir pelas galerias. invente um cálculo para o que sofro, corte meus pulsos, morda meu pescoço, lamba meu desejo, perfume meu medo, invente um corpo para o que escrevo, me faça respirar.

 

DIGA ADEUS ANTES DE IR EMBORA

 

não me ame com sangue debaixo da unhas, com ódio nos dentes, com venenos finos nos olhos, na ponta da língua. não atire nosso prato de yakisoba caseiro no chão da cozinha, não cuspa as canções do kurt cobain na minha cara, não grite na fila do banco que me quer morto em pedacinhos. não seja hostil com os garçons da madrugada, não rasgue nosso retrato do dia perfeito, não desligue o telefone e nem bata a porta dizendo palavras cruéis. não vire santa prus cadáveres dos subterrâneos. não me deixe fritando na festa dos canibais. perdão se não sou e nunca fui o príncipe-fodão que você sonhou olhando a tempestade cair no seu jardim dos horrores. perdão se bebo muito e não distribuo sorrisos nem frases de efeito relaxante pra rapaziada da intelligentsia. sinto tudo, sinto medo, sinto muito. vivo dentro do bloco de gelo com os demônios fazendo festinha no peito. então não me beije com rancor, não me derrube da cama, não morda meu pau, não me foda por vingança, não me arranque o coração, não me faça sangrar e não precisa empurrar porque já estou saindo.

 

HIPÓCRITAS!

 

os hipócritas chegam sorrindo próteses dentárias, regurgitando arco-íris radioativos e florais de bach. os hipócritas tomaram a cidade de assalto, estabeleceram o poder da mentira e da falsidade calculada e depois foram pru barzinho comemorar a carnificina. os hipócritas são agora os donos do mundo, os magnatas da impostura e aparecem todos os dias nas tvs com suas caras católicas de iogurte desnatado. os hipócritas aprenderam a mentir sem desviar os olhos e são bons na arte que praticam. os hipócritas passam os dias contabilizando moedas e assassinatos e antes de dormir apagam as luzes das casas, beijam suas cruzes, rezam o pai nosso, acariciam o 45 debaixo do travesseiro e adormecem indiferentes e pétreos como bons filhos da puta que são.

 

QUESTÃO DE GOSTO

 

gosto do cabelo curto das bailarinas, dos beijos que acontecem dentro dos sonhos, dos felinos e do jeito que eles são. gosto da bebida que é extraída do blues, do ópio que existe no fundo do mar e da elétrica sensação do medo. gosto das palavras que produzem calor, das esquinas banhadas de adrenalina e mercúrio. gosto da chuva nos telhados, dos seios que são pequenos e macios, da neblina encobrindo a cidade e da conversa mole que atravessa os poemas. gosto dos que carregam pássaros dentro da cabeça, do fogo que arde e incendeia nas praças públicas, da linha do horizonte e de sorrir pru inimigo. gosto da palavra imã, das armadilhas que encontro pelo caminho, de você e de tudo que não precise fazer sentido.

 

BALADA DO INIMIGO

 

o inimigo aparece no espelho do banheiro todo dia pela manhã. o inimigo tem os olhos de vidro que hipnotizam. o inimigo faz cálculos mentais, arma esquemas, lustra o revólver, escreve poesias. o inimigo só ganha por nocaute. o inimigo passeia pelo shopping de óculos escuros. o inimigo faz uso do obscuro. o inimigo acredita exclusivamente no medo. o inimigo seduz assassinos. o inimigo pratica canibalismo, cultiva orquídeas lingüísticas. o inimigo cita os grandes de frankfurt e passeia pelos bairros da periferia. o inimigo tem um alvo, um álibi e um refrão de bolero pra casos de emergência e incêndios. o inimigo é algoz, júri e juiz. o inimigo sentencia, aprisiona. o inimigo liberta os demônios. o inimigo tem dentes de diamantes. o inimigo inventa alquimias, corrompe o azul dos dias. o inimigo nunca esquece. o inimigo sou eu e cada um de vocês.

 

HELL PARAÍSO

 

agora assinamos leis que matam crianças, tatuamos o nome do medo e da cobiça em nossas carnes, perdoamos o inimigo e amamos nossas bichinhos de estimação. cientistas políticos, agências publicitárias e poetas irascíveis negociam o céu azul enquanto queimamos índios e fugimos em nossos velozes carros envenenados. agora cultivamos flores cheias de rancor em nossos jardins dos horrores. milhares de nós sentem piedade e psicose, assistem a morte colorida nas tvs e mentem e riem e batem palmas e emitem sons semelhantes as focas e as hienas. agora os falsários e os corruptos se multiplicam nos corredores das repartições públicas, vampiros almoçam em fast-foods como príncipes das trevas que são. agora o gelo nos dentes, a primavera devastada, os amores minúsculos,  o hálito podre das vaidades dos mesquinhos dos bairros. agora é o futuro em ruínas, a ilha dos tubarões, o prometido paraiso dos assassinos.

 

O HOMEM QUE ENLOUQUECE

 

o homem que enlouquece acorda cedo, faz a barba, segue o comando da voz. o homem que enlouquece tem juízo de valor, senso prático, bom gosto e um deus pra perdoar os pecados. o homem que enlouquece mora num condomínio fechado, pratica neurolinguística e tem um chips de localização implantado no pulso direito. o homem que enlouquece almoça todos os dias crianças da periferia, bebe drinks que o fazem ter visões megalomaníacas. o homem que enlouquece tem um marca-passo cardíaco no lugar do coração, ama mulheres de plástico impermeável e do seu sorriso sai líquidos corrosivos. o homem que enlouquece cumpre suas funções diárias como máquina, é binário, maniqueísta e 100% filhodaputa. o homem que enlouquece vive em seu mundo de felicidade asséptica e monitorada, sente piedade e é filantrópico com fins lucrativos. o homem que enlouquece já enlouqueceu e só ele não sabe disso.

 

LEMINSKIANO

 

parece que a coisa veio antes. eu só via a metade. mas, mesmo assim, dava sempre ocupado. não porque não tenho asas. é que são só palavras trazidas de longe. um corpo que se afasta. o que não nasceu ainda. afinal, se é tudo enigma, então é um sonho sem dono. algo que nasceu numa praia, um momento de distração. agora só os versos, as flores que caem, o naufrágio mais profundo. quem mandou, jorge, nascer pra ser longe, distância, infinito?

 

FISIOLOGIA ANTROPOMÓRFICA

 

o organismo vivo bebe da cachaça dos deuses e orixás logo de manhã, vomita bílis e espuma nas esquinas e ainda se reproduz. o organismo vivo é minotauro fálico, máquina desejante, dínamo eólico. o organismo vivo dança de braços abertos na beira do parapeito, bombeia sangue pra cabeça, produz calor radioativo. o organismo vivo é fonte de energia auto-destrutiva, é imã que atrai a tempestade. o organismo vivo respira fundo o perfume da noite tóxica, atravessa os corpos, cambaleia entre muros. o organismo vivo é química brutal, ardente semântica, núcleo de gelo, linguagem das pedras, texto.

 

 

Jorge Mendes é formado em História, “quase” pós-graduado em Teoria da Comunicação pela Eca-Usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí,32), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

TOP ∧
2

CONTACTOS


Revista InComunidade

Edição de Março de 2015


Director:

Henrique Prior

Directora-adjunta:

Júlia Moura Lopes

Email: geral@incomunidade.com


Revisão de textos:

Júlia Moura Lopes


Editor:

515 - Cooperativa Cultural, CR

ISSN 2182-7486


Propriedade:

515 - Cooperativa Cultural, CR

Rua Júlio Dinis número 947, 6 Direito, 4050-327.

Porto - Portugal


Redacção:

Rua Júlio Dinis número 947, 6 Direito, 4050-327.

Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com




Conselho Editorial:

Clara Pimenta do Vale, Floriano Martins,

Henrique Prior, Jorge Vicente, Júlia Moura Lopes e Maria Estela Guedes.



Colaboradores de Março de 2015:

Ana Farrah, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Enrique Gómez Carrillo, Filomena Barata,

Floriano Martins, Francisco Cabanillas, Henrique Prior, João Pedro Cesariny Calafate, Jorge Mendes,

Jorge Vicente, José Servo, Julião Bernardes, Ludwig Zeller, Omar Castillo,

Veronica Cabanillhas Samaniego, Vladir Rocha.


Foto de capa:

Clara Pimenta do Vale


Paginação:

Nuno Baptista

Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR