ANO 3 Edição 32 - MARÇO 2015 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


O PAGAMENTO DOS IMPOSTOS E O PRINCÍPIO DA INTUIÇÃO

A propósito de luz. Escreveu Frederich Nietztsche em “O Primado da Intuição”: Numa manhã de sol prefiro passear numa floresta onde tive as maiores intuições do que encafuar-me numa biblioteca a ler um livro. Eu também prefiro o gozo das manhãs de sol, a intuição, em vez do método e do trabalho. Também, como Passos Coelho, em vez de gastar dinheiro em impostos, prefiro gastá-lo em marisco numa esplanada, no que entendo ser boa vida, de dia ou de noite. Com luz ou às escuras. Também tenho uma alma epicurista.

 

A resposta de não paguei os impostos porque não tinha dinheiro é um programa luminoso. Define claras prioridades. Passos Coelho não tinha dinheiro para pagar impostos, mas tinha para outras coisas mais importantes para ele. É assim mesmo, como aconselhava Epicuro, devemos libertar-nos dos grandes temores a respeito da vida, da morte, do além-túmulo, de Deus e atuar em conformidade enquanto estivermos debaixo do Sol.

 

O único bem é o prazer, como o único mal é a dor; nenhum prazer deve ser recusado, a não ser por causa de consequências dolorosas, e nenhum sofrimento deve ser admitido, a não ser tendo em vista um prazer. Pagar impostos é doloroso. Recuso. Ter um chefe de governo epicurista é uma bênção, mas a filosofia causa estragos no desempenho do cargo. É que, ou bem que se ama o prazer, ou bem que se sofre para tratar das res publica. Passos Coelho não é Berlusconi!

 

Dado o conceito da vida concebida como liberdade, paz e contemplação, Passos Coelho, tal como Epicuro, deve ser hostil à atividade pública, à política, considerando a pátria como causa de agitações e aborrecimentos. Passos Coelho tem um problema a resolver, mas não é com os impostos e as taxas, nem com a verdade. É com ele, com a sua natureza. A intuição, a queda de Pedro Passos Coelho leva-o a seguir instintivamente as estrelas da boa vida, a beber o delicioso cocktail de irresponsabilidade e de recusa do sofrimento causado pelo trabalho. Os deveres de um chefe de governo, um cargo que lhe dá o prazer da importância do ser, o prazer da vaidade, das luzes da ribalta impedem-no de atingir o grau de displicência indispensável à sua felicidade. Passos Coelho não é Santana Lopes.

 

Passos Coelho enfrenta um dilema que só Santana Lopes ultrapassou com sucesso. Pedro Santana Lopes não fingiu que era chefe do governo. Divertiu-se como chefe do governo. Mas Passos Coelho não possui, obviamente, o génio de Santana Lopes. Escorrega-lhe sempre a palavra para a mediocridade, mesmo na imposição da felicidade eterna, para afastar os cidadãos dos conflitos humanos: vão para o estrangeiro, deixando subentendido que aqui e com ele nada há a esperar; aproveitem as oportunidades do desemprego, frequentem cursos de formação em artes etéreas, na Tecnoforma, por exemplo, em vez de: divirtam-se, desculpa-se: seguimos a troika, do que mais precisamos?

 

Infelizmente, a verdade contida nos desejos expressos pelas proclamações de Passos Coelho coloca-nos perante uma outra: a de que ele é um arrumador de teatro que se perdeu nos bastidores e deu por si no meio do palco, sem saber o que está ali a fazer, a esfregar os olhos, encadeado pelas luzes dos projectores. Ele não vê o que está diante de si. Não percebe que os assobios e apupos que ouve não são por causa da sua incapacidade para o papel, mas pelo seu convencimento em o representar. Não percebe que o vaiam por não aceitarem ser gozados por um animador de pista, que entrou com bilhete de favor.

 

Durante três anos, Passos Coelho bombardeou os portugueses com uma metralha impiedosa de leis fiscais de violência desproporcionada – sem qualquer vestígio de consideração pelo sofrimento de quem vê penhorada a casa, o salário, as pensões à mais leve falta; atirou às gargantas dos portugueses fiscais e meirinhos, destruiu serviços essenciais, aumentou os impostos de forma brutal, tudo acompanhado por um discurso de é comer e calar. E depois jura: eu seja ceguinho se sabia que havia taxas de descontos e espera que os cidadãos compreendam que ele é um tipo imperfeito! Não, ele é um perfeito imbecil. Apadrinhado por outro, que o reconhece vítima de tricas político-partidárias!

Os 25% dos portugueses que estão em risco de pobreza (1/4 da população!,32), os 400 mil desempregados, o meio milhão que tem bens penhorados, os 400 mil que emigraram, os que esperam dias em macas nos corredores dos hospitais, todos eles estão envolvidos em tricas politico-partidárias, que o chefe de Estado não comenta. Não são portugueses. São tricadeiros.

 

Ó ceús, e não vem daí um raio que os parta, que os transforme num feixe de luz?

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