ANO 3 Edição 32 - MARÇO 2015 INÍCIO contactos

Floriano Martins & Valdir Rocha


REFLEXÕES SOBRE A IRONIA

 

FÓSSIL

 

Os temas se repetem como um suicídio simulado.
Algumas visitas reclamam haverem sido abandonadas pelo narrador.
Os sósias prevaricam com a melancolia e a velha mobília do clube.
A noite se admira em suas galhofas.
Nos vestuários abastecidos com álbuns de falsas identidades as persianas deixam escapar os personagens indesejáveis.
Os bustos não perdem tempo.
O mofo persevera com uma trágica ideia acerca do futuro.

 

A realidade é uma sucessão de notícias sem o menor atrativo.
Nós nos desgastamos no súbito monopólio da repetição.
Inesperadamente solicito uma gorjeta.
? Com o passar do tempo já não somos os mesmos, me diz um dos sósias como quem exagera nas rugas da metafísica.

 

Os temas se desprezam, rejeitam o direito a perpetuar argumentos, a majestade do discurso e até mesmo a lira supersticiosa da glória.
A noite por vezes morre de desgosto.
A diretoria do clube decidiu reduzir o ser a nada.
Os sósias compartem uma cerveja e desistem de qualquer iniciação.

 

A realidade é alegórica, não necessita gorjeta.
Todos temos direito a nos desfazer daquilo que somos.

 

A repetição é inevitável.

 

 

AMNÉSIA DO SÁBIO

 

Eu quis trazer para mim tudo o que antes imitara.
Talvez fazer com que a dor fosse um passo até a alma acariciada e feliz.
Tantas vezes me desfiz de minhas crenças que a ofensa tornou-se um sistema irrisório.
É possível que eu ainda estranhe quando me roubam um nome ou submetem um personagem meu a revelar o que seguramente desconhecem.

 

A amnésia é o mais triunfante método de tortura.
Esvazio o continente e o preparo para uma nova vida de revelações.
Que ninguém estranhe quando digo que aprendi não propriamente a esquecer, mas sim a variar a cabeceira de minhas lembranças.
Se quero esquecer quem sou tenho que pensar em alguém que me substitua.
Alguém menos covarde que não inventarie as dores como forma de escapar de si mesmo.
Alguém que dê curso à febre ou qualquer outra manobra do desastre até que os sintomas se tornem irrelevantes.
Alguém que escave uma palavra certo de que a mesma guarde um mistério que ninguém poderia imaginar.
Eu não saberia transcrever o registro de tantas adivinhações.

 

O homem aparenta uma insanidade sem a menor persistência.
Como tutelar a alegoria se ele desconhece o que pode vir a ser?
Já não me lembro quantas vezes chamei esse desgraçado para conversar.
Um dia tratei de começar a apagar tudo o que fiz em minha vida.
Sigo atenuando ou reparando as falhas, ainda convicto de que posso esquecer quem sou.

 

 

CENA COM PACOTINHOS

 

As esculturas passam todas por aqui, e logo se repetem.
Como vulcões que vão se aquietando ou exceções descortinadas.
Estou cercado de mesas e o espaço por onde vejo o mundo é quase uma miragem.
Multiplicamos os ninhos para que renasçam as ilusões.
Shajadi um dia me escreveu, no idioma secreto de seus lábios:
Não dês aos olhos mais imagens do que eles possam suportar.
Leio agora que os olhos ocultam lágrimas em vários idiomas.
Todos estão longe de casa por alguma razão.
Os motivos costumam ser ágrafos e jamais confessam seus crimes.
Um truque da solidão é fazer com que os rostos anônimos recordem o de alguém conhecido.
Em lugares assim a vida se repete como o trailer de um filme inconcluso.
As esculturas circulam uma vez mais,
sem dar tempo para que alguém se decida a pensar em si.

 

 

ETERNIDADE

 

Minha sombra frutifica como um fragmento de espelho.
Meus olhos fechados estocam todo o ouro da imaginação.
Não há tempo para imprimir a memória de tudo quanto rabisco em silêncio.
Melhor confessar ao braseiro que as formas mudam segundo um plano próprio do acaso.

 

O que torna a eternidade acessível é a trilha sonora de seus moldes retalhados.
Uma confabulação de esculturas em galpões flutuantes.
As citações contínuas de hábitos esquecidos destinados à véspera de um mistério sempre refeito.
O tesouro genuíno dessas obras destina-se à publicidade de incontáveis quimeras.

 

O que torna a eternidade verossímil é este seu semblante de sucata.
A impressão que agenda em nosso espírito de que as confissões guardam sempre um segredo com o qual garantem a perpetuidade do crime.
Os vestígios empoeirados do símbolo, a avidez da tradição por ocupar as primeiras filas do teatro, os rótulos arquivados minuciosamente até mesmo para os vícios mais inesperados.

 

A eternidade é o mais aborrecido de todos os tratados de patologia.

 

 

FULANO E BELTRANO

 

A tua idade não me serve, os teus caprichos me dizem pouco.
Não me conforta a tua astúcia, tampouco me atrai a tua usura.
A tua surdez teme escutar, como um pranto escalando o vazio.
Não me ofendas como cúmplice de teus antojos, ruínas, infortúnios.
Jamais me preocupei em morrer ou estive em tribunal algum.
Não me tenhas como palhaço ou neófito seguidor de si mesmo.
A loucura é tão repulsiva quanto a caridade: ante o espelho
o mundo é demasiado comum para ser traído por seu oposto.
A que velocidade rasteja a inconsciência, entre escrúpulos
e demais imundícies que satisfazem tão pouco a alma humana?
Não provamos um a existência do outro, e certamente não estamos
na mira de um assassino contratado ou de outros planos de vingança.
Há poucos dias nos encontramos em um cenário tão desalinhado
que era a própria ausência de truques ou distrações de camarim.
Não reconhecemos um no outro a mínima sobra de autenticidade.

 

 

INSONE

 

Há 381 anos não durmo.
O tempo é um método sutil de opressão.
Observo que não tenho imitadores.
Ninguém sequer arremeda minhas dúvidas.
Médiuns e telepatas trocam envelopes lacrados com senhas para seus números mais ousados.
O negócio das senhas falsas gera lucros fabulosos.
Os fatos já não mais surpreendem quando coincidem com a realidade.

 

Reconheci o gordo fantasma inalando rapé após haver afinado seu violino.
Quando me viu começaram a saltar cifras de sua algibeira.
A música é um espectro voraz que se alimenta do que resta de nossa sensibilidade.
A verdade é que ando farto de aforismos e outros fogos-fátuos.
Há 381 anos vagueio pelas ruas escuras de um mesmo e monstruoso crime.
Ninguém me socorre do mal que fiz a mim mesmo.
A generosidade tem sido um silogismo ineficaz, um monumento enfermo, um calendário imóvel.

 

Venho consumindo mais da metade de minha vida desperto.
Meus olhos se tornaram uma semelhança do absurdo.
Qual terapêutica nos livra do carteado moral?
Converto em bronze qualquer centelha de entendimento que eu tenha de meus fracassos.
Conservo tingida a máscara com que o homem reconstitui seu afastamento da própria sombra.

 

Há 381 anos resido no mesmo sulco de existência.
Jamais indaguei por que o sono me abandonou.
Quem faz protestos contra o acaso?
Há algum tempo me sento no parapeito da janela da casa do violinista.
A minha insônia se alimenta do rapé da memória.

 

 

OBSERVADOR

 

Há muito tempo cheguei a teus lábios através de estranhos ritos.
Fagulhas de um passado ancorado na frondosidade do esquecimento.
Destes voltas em minha vida como uma máquina criada para iludir.
As tuas visitas sussurrantes aplicadas à pele de meus inventos
tanto incomodaram que passei a descrer das fórmulas e aparelhos
empenhados na permanência de nossos fundamentos e pecados.
Por algum tempo me aperfeiçoei na arte da subtração dos sentidos.
Não regressaria a mim mesmo sem me convencer do próprio fracasso.
A visita de duplos e quimeras provam apenas que nada criamos.
Somos um vespeiro decadente de cismas e inúteis velocímetros.
Viciada em cálculos banais, a arte se tornou um berço de fantasmas.
Eu peso os meus dias antecipando a moral de tantos métodos e fins.
Não guardo recortes de minha alma no bolso ou trafico armas
como quem confia em espectros para garantir a existência do milagre.
Apenas observo um velho truque do átomo: o crime perfeito
não necessita ameaça, apenas se traslada antes de ser identificado.

 

 

TEATRO

 

Até onde eu represento as tuas ânsias
eu me protejo de minhas frustrações.
Se acaso revelo o que te aborrece
logo trato de educar minhas alegrias.
Evitamos os cenários fixos, o enredo
obscuro e o preenchimento de endereço,
pelo menos em nosso primeiro contrato.
A verdade é a arte mais perfeita,
e o homem só a suporta no palco.

 

 

TOTEM

 

As árvores imitam uma cidade sonâmbula.
Há luzes que não descansam ao sair de uma sombra a outra.
Quanto tempo mais eu insistirei em descrever um mundo que mal cabe em meu olhar?
As árvores quebram seus galhos para assumir formas humanas.
Os deuses já não se reconhecem na chuva ou no vento.
Quantas vezes mais eu direi a mim mesmo que os extremos um dia se tocam?
As árvores jamais sonharam com o retorno a algum paraíso perdido.
Meus dias ajustaram seus planos para que a queda não florescesse tanto.
O olhar murcha quando não fixa bem o que acredita ver por trás de todo plano.
Eu aceito não saber. Aceito jamais ter estado aqui. Ou mesmo não ter a quem regressar.
As árvores se habituaram a fingir o que não teriam como ser.
O tempo ia simplesmente passando enquanto a realidade perdia contato com suas formas.
Quanto mais cobrarei de mim por tudo o que confundi em um vislumbre?
As árvores descobrem surpresas o leito em que as cidades deliram sua insônia.
E o imitam, como se fosse o ninho de uma outra ilusão de estar no mundo.
As trevas não cabem aqui. Eu não recordo meu nome. Nem identifico o que vejo.

 

 

REFLEXÃO SOBRE A IRONIA

 

Um jovem mestre em suposições encomenda
pequenas monografias a cada uma das sombras que frequentam sua cela.
Dá a elas a liberdade de eleger os temas,
porém os dias devem se confundir com páginas
tomadas por diálogos interiores.
É hora de deixar os braços estendidos na névoa.
Eu criei meus filhos antes que batessem à porta as bombas caseiras e os vetores invisíveis da angústia.
O infinito levou uma tarde inteira a ser recortado em postais
que seguiram viagem para os lugares mais previsíveis.
Que conselhos práticos podemos dar à indiferença?
Por onde as noites vão decaindo até que não amanheça jamais?
O que as cartas mais temem é que um dia não tenhamos mais o que contar a elas.
Não há vertigem quando aposentamos o essencial.
Escolas de imagens razoáveis são abertas em cada esquina.
Nelas se prepara o pensamento para expandir-se apenas o necessário.
As vocações implodem em um labirinto de imitações banais.
Sinceramente cansamos de dar chance à paz.
Os corpos se contraem no varal esquecidos de suas roupas.
Os manifestos são fábulas escritas ao revés.
Os valores foram tão remarcados que perderam importância em qualquer prateleira que ainda lhes dê guarida.
A mais simples ideia de valer a interpretação de si mesmo.
O humor mantido durante a coleta diária de mundos possíveis.
Quantos se livram de sua própria miséria?
As moedas são valores degenerativos.
Decerto há alguma distinção entre viver e frequentar casas de aposta.

 

Um jovem mestre rascunha displicentes modelos para o espírito humano.
Os espelhos perderam seu aspecto original.
Já não reproduzem senão a plenitude da memória.
Os meus filhos foram relatando aos sonhos seus dragões inconscientes.
As escolas subornam desejos, conflitos, astúcias.
Há personagens que transcrevem a ordem conveniente de suas falas.
Os livros sagrados bafejam uma névoa de figurações que nos afastam de nossos sentimentos.
Não recordo quando vim aqui solfejar minha agonia,
porém há fascículos arquivados em minha aura que garantem que o tempo é impessoal.
A imagem é uma árvore de lacres. Um cadafalso na ponta da espada. Uma soberba gerada entre dois corpos.
A imagem jamais compreendeu as emoções.
O homem precisa se livrar da imagem.
Como passar para a fase seguinte quando deciframos nosso engano?
Rei de ouro, rainha de espadas, quem melhor desfruta meu coração?
Cada verbo erige conjugação e conjuração de suas forças.
Eu sou a pedra caída antes que o mundo se reconcilie com o abismo que foi esquecido em seu bolso.
A vontade é uma figura de retórica.
Não há evasão de milagre na criação ou túnica tão bem guardada que não se distraia com o retábulo de outras forças primitivas.
A televisão modera a versão de uma épica intransigente.
As noites ardem com certa constância e os assassinatos não dependem disto.
Morrer jamais foi uma solução adequada para qualquer enigma.
Eu volto a dizer que um dia meus filhos saíram de casa e não se associaram às pressões da imagem.
A alegria de viver não se converteu em um postal da autonomia.
Eu não ensinei nada a eles. Não desceram aos céus ou subiram ao inferno. Jamais aboliram as contradições.
Em casa não julgávamos as repetições ou a tensão sangrenta do insólito.
A iluminação não é um conforto ou um prêmio.

 

Um jovem mestre oferece sua propensão à instabilidade a quem almeje uma consciência coletiva.
Quando o mundo tarifa a verdade o absoluto se perde de si.
Viver é um tabu, uma vontade, uma evacuação?
Quem nos descreve, limita ou parodia?
Somos enfadonhamente pioneiros em nossa extraordinária perda da razão de ser.

 

 

Seleção de poemas de uma série homônima, escritos por Floriano Martins a partir de esculturas de Valdir Rocha © 2014/2015. Fotografia dos autores © Ed Guimarães.

 

Valdir Rocha  (São Paulo, 1951) é pintor, desenhista, escultor e gravador, com dedicação às artes plásticas desde 1967. Parte expressiva de suas obras está reproduzida nos seguintes livros: Mentiras, Verdades-meias e Casos Veros (desenhos, pinturas, esculturas e textos diversos,32), São Paulo, 1994;  Xilogravuras, São Paulo, 2001; Cabeças. São Paulo, 2002; Gravuras em Metal, São Paulo, 2002; Títeres de Ninguém, Florianópolis, 2005; SÓS (desenhos e pinturas sobre papel impresso,32), São Paulo, 2010; Confidências (desenhos e pinturas sobre papel impresso,32), São Paulo, 2013; e Lembrança de homens que não existiam (desenhos e poemas, com Floriano Martins,32), Fortaleza, 2013. A obra de Valdir Rocha é objeto de diversas monografias, como as seguintes: A Escultura de Valdir Rocha, de Mirian de Carvalho, São Paulo, 2004, e O Desenho de Valdir Rocha, de Péricles Prade, São Paulo, 2010. Em 2012, foi publicado o livro Só sobre SÓS, de Valdir Rocha, coordenado por Péricles Prade, Florianópolis, com textos de 17 autores. Realizou exposições individuais e participou de algumas coletivas. Contato: vr@valdirrocha.art.br.

Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor e editor. Diretor da Agulha Revista de Cultura e da ARC Edições. Estudioso do Surrealismo e de poesia de língua espanhola. Tradutor de Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Pablo Antonio Cuadra, Vicente Huidobro e Aldo Pellegrini. Alguns de seus livros de poemas: Cenizas del sol [edição trilíngue, com o escultor Edgar Zúñiga] (Costa Rica, 2001,32), Tres estudios para un amor loco [tradução de Marta Spagnuolo] (México, 2006,32), Duas mentiras (Brasil, 2008,32), Teatro imposible [tradução de Marta Spagnuolo] (Caracas, 2008,32), Fuego en las cartas (edição bilíngue, tradução de Blanca Luz Pulido] (Espanha, 2009,32), Autobiografia de um truque (Brasil, 2010,32), Em silêncio [com Viviane de Santana Paulo] (Brasil, 2014,32), e Overnight medley [edição trilíngue, com Manuel Iris] (Brasil, 2014). Contato: arcflorianomartins@gmail.com.

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Edição de Março de 2015


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Clara Pimenta do Vale, Floriano Martins,

Henrique Prior, Jorge Vicente, Júlia Moura Lopes e Maria Estela Guedes.



Colaboradores de Março de 2015:

Ana Farrah, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Enrique Gómez Carrillo, Filomena Barata,

Floriano Martins, Francisco Cabanillas, Henrique Prior, João Pedro Cesariny Calafate, Jorge Mendes,

Jorge Vicente, José Servo, Julião Bernardes, Ludwig Zeller, Omar Castillo,

Veronica Cabanillhas Samaniego, Vladir Rocha.


Foto de capa:

Clara Pimenta do Vale


Paginação:

Nuno Baptista

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