ANO 3 Edição 31 - FEVEREIRO 2015 INÍCIO contactos

Floriano Martins


O OUTRO NOME DO PARAÍSO

 

 

1.

A sua nudez apenas sussurrada pelo vento bailava no varal sutilmente passando de um tecido a outro. A manhã se deixava paginar por meu olhar. Eu inúmeras vezes tentei voltar para casa, porém não encontrava em seu corpo nenhuma brecha por onde ausentar-me de mim. Ela queria a todo custo fazer cenas com uma rosa entre os dentes e um colar de pérolas. Seios e nádegas se confundiam com a louçaria dispersa pelos cômodos. A varanda suspirava se refazendo de pequenos acessos de volúpia. Nossos desejos se amontoavam alheios a toda analogia. Ela tingia crepúsculos em meu peito ou então caminhava na ponta dos pés como se estivesse se equilibrando sobre o arame no picadeiro do horizonte. Ela já não sabia o que me dizer e se punha a gemer como se anunciasse um escândalo improvável. Quando comecei a dar pelas nossas roupas rasgadas tratei de esconder todas as lâminas do lugar.

 

2.

O assoalho rangia os dentes em sinal de discórdia. Desvanecida em meus braços, ainda podia sentir a eletricidade de seu último orgasmo. Eu recordava um reino de labirintos e a névoa apagando o cenário. Seu olhar se desvencilhando do meu, rindo ao preparar uma outra emboscada. A imagem acidentada daquela mulher. Talvez eu fosse quem ela não contava encontrar. Enquanto os beijos se espalhavam por sua pele ainda cheguei a pensar qual o destino da trama, qual a farsa invisível do destino. A cada pétala revelada por entre o fraseado das velas ela parecia me dizer o nome de uma surpresa distinta. Queria me contar estrelas no peito. Eu me enchia de céu para seus vislumbres. Assim como a noite se abre para o capricho das luzes, eu a entrevia sussurrando aos móveis como melhor poderiam se espalhar pela casa. Ela me espelhava o viço e o assombro de estar vivo. Tínhamos ao nosso dispor um dote incompreensível. A preocupar-nos com o verbo seguinte não faríamos nada. Suas pernas anunciavam a assunção de algo, os tambores da alma, a prosa flexível do olhar, o código não anotado.

 

3.

Tudo estava ali para se perder de vista. Cada instante não existia senão para violentar os hábitos. Ela lançando-se sobre mim como uma balsa arriscando mares em meio à tempestade de sua gula. Ela me exasperava o tempo de todos os verbos. Era meu passado por vir e um futuro deixado para trás. Quando o silêncio parecia dizer alguma coisa um de nós remexia no mecanismo do acaso. Não nos entretinha uma dieta de bússolas, menos ainda soletrar os fusos do desejo. Nenhuma geringonça absolvia seus mistérios. Ela sabia pecar como ninguém. Eu não tinha senão como aprender a merecer como suas mãos me esboçavam a melhor arquitetura de toda uma vida. Descarnamos sempre um atropelo de adagas e lágrimas. Evitamos os dissabores românticos, a orquestração de lantejoulas, os ritos invulneráveis. Como amávamos o risco de a todo instante não estarmos mais aqui. Seu corpo era sempre a rosa dentada da fortuna. Ela se encaixava em mim como uma classe pública do mistério.

 

4.

Nunca me preocupei em lhe dar um nome. Ninguém saberia como trazê-la à tona. Ela seria a pedra com que se disfarça o incompreensível. Ia e vinha, como uma multidão de espantos. Nenhuma mulher me fez rir de tanto orgasmo. Eu desapareci de mim dentro dela como se não fosse possível senão voltar para casa. Ela era o meu teleférico a caminho da vegetação agônica do nada. A névoa florida do mesmo mistério que ela recebia em si como um sinal de esplendor. Ela queimava de febre. Eu lhe fazia o mar bater nas pedras. Jamais suspeitamos da vertigem de nosso roteiro. Ela anotava o pulso de meu desejo com seus dedos em minhas pernas. Raiávamos de tanto rir. Lembro uma noite em que lhe disse que tremíamos na mesma sintonia. Não importa a equação dominada, o mundo é imprevisível. Jamais lhe disse seu nome. Ela, no entanto, sussurrava o meu com uma intimidade que me mantinha sempre por perto.

 

5.

Ela me beijava a pele como quem decifra uma herança. A leveza de seu corpo florescia com um bailado de margaridas. O orvalho cumpria seu bordado de luzes. Ela sabia que ali éramos possíveis, sem que nos importássemos com nenhum outro truque da eternidade. A casa estava repleta de relâmpagos.

 

— Elimine as páginas que não nos dizem respeito. Não percas tempo em sonhar com o mundo visível. Deixe sempre em desordem o celeiro dos milagres.

 

A acústica de sua voz parecia alterar as linhas de minha mão. Lia em mim os rascunhos de uma evidente utopia. E logo me eletrocutava o desejo, multiplicando garras de uma matilha de predadores. Seu corpo adornado pela luxúria crescente, a fuga iluminada por um quarteto de gemidos. Minúcias de tecidos, sofreguidão de móveis, murmúrios de pelos flutuando no ar. Seu joelho-periscópio emergindo na banheira como um ladrão de delícias em retalhos.

 

— Entrever a confusão de silêncios. Mudar a luz de canto. Resguardar os acordes ainda por afinar.

 

6.

Ela vinha com suas nuvens sobre minha pele. Eu a amava bem antes que viesse a saber, porém o amor desconhecerá sempre seus méritos. Seu corpo sussurrava algo como se a consciência houvera sido usurpada pelo mal. Por uma recorrência benevolente de sua contraparte jamais saberemos ao certo o que é o mal. Um leilão de almas, as imprecações de uma possessa em língua ininteligível, os mecanismos utilitários do cotidiano. O bem nos priva do mal. Ela me aprimora o devaneio, me orquestra a existência, me expande ao limite do incontornável. Não há sinais de retorno possível sem que ela me destile os extremos. Ela me ensina a ser o rebanho de suas vertigens. Eu aprendo a fuçar em seus flancos. Sou o sopro das províncias dessa mulher e a pedra viciosa de seus influxos.

 

7.

Desconheço quanto tempo terei vivido entre uma dor e outra. Venho notando em mim uma queda pelo absurdo. Desde que a conheci ponho em dúvida as forças que me mantêm em mim mesmo. Leio em seus lábios o trocadilho do espírito, os gestos elásticos, como quer e como se nega, a folha mais alta do ardil existencial. As páginas improvisadas da sedução. Agora me pareceu entender onde as pessoas se reconhecem. Os lábios mentem menos do que os olhos. Eu tocava em seus seios, descendo pela barriga, a pele firme, brincava com seu umbigo. Jamais seríamos desviados a caminho da realidade. Os meus olhos embaralhavam os ângulos encontrados de suas pernas ao coração. O seu corpo me diverte. Não representamos nada além do que tocamos.

 

— O acaso sequer pensa em nós. A humanidade criou para si uma fonte de justificativas de suas artimanhas. Uma espécie de véu protetor de todas as arbitrariedades. Eu morro de amor pelo acaso.

 

Já nos habituamos ao fragmento ou ainda idealizamos a vida como algo completo, finda em si mesma?

 

8.

Ela me inscreve em sua horda errante de surpresas. O verbo anotado, o jogo amoroso dos enlaces, a queda vislumbrada, o contorno perfeito de sua bunda. Ao me falar sobre milagres não esquecia de prevenir que jamais lhe desse páginas demais. Ela constantemente me testava o destino, ao fazer com que eu me visse a mim mesmo em distintas idades. Um vislumbre sutil de todas as minhas possibilidades. Ela me fez íntimo. Eu adornava sua pele com toda a minha intimidade. Ela compreendia como nenhuma outra a estranha relação existente entre o que sou e o que se desprende de mim. Ela me habita à sombra dessa pequena ponte insuspeita na noite inquieta da memória. Eu sempre fui a sua casa aberta aos mais obscuros passos. Ela me trouxe de volta da dissonância, como seu instrumento sagrado, quase impreciso. Um pássaro libertado da torre de seus lamentos. Graças a ela a morada dos deuses me abriu suas portas.

 

9.

Jamais pude inventariar suas contrações. Uma delicadeza de elementos implantados enquanto eu dormia, sob a guarda trêmula das luzes cobiçadas pelo vento. Ela me trafega como uma centelha inabalável. Quando alteramos a ordem das estações ela cruza as pernas languidamente. Eu não me atrevo senão a esvair-me. Ela brilha com meus truques dentro de si.
— Os seus olhos todos saíram para pescar. As suas noites confabulam estrondos. As suas ancas assaltam as calhas do horizonte.

 

A vidência é tão imprevisível quanto a memória. Conto em meus dedos quantas vezes eu estive aqui antes que ela pudesse me identificar. O desejo retorcendo-se, os traços febris da pele, a essência sussurrada desde a nuca até o tecido arredio das coxas. Paisagem de luzes crepitantes. Minhas mãos em suas pequenas luas. O coro de penugens, vegetação solidária que me convida para o festim de seus minerais. Meus beijos aplicados em sua textura irisada. O corpo evoluindo a caminho do ápice, tão lentamente quanto possível. Desdobrando-se em uma cadeia vertiginosa de suspiros, em um novelo murmurante de improvisos. Um regaço de vislumbres e a maloca de seu desejo queimando ao me abrigar.

 

10.

Ela então chorava e me dizia que eu a estava fazendo inesperadamente feliz. Eu me aturdia. Meu nome uma vez mais aprendia a ser outro. Todo o cenário havia ido embora. Nada fora de nós resistira à voragem do tempo, à moeda comida pela ferrugem da desolação. Fomos consumidos pelo espírito. Ela se pôs a contar seus passos dentro de mim. O silêncio nos cercava com seus instrumentos fibrosos. Éramos invocados pelas tintas do desconhecido e ali mesmo bebíamos do caldo do abismo. Ela murchava em minhas mãos. Eu me extinguia ainda em seu íntimo. Não havia ciência do que fosse ou mesmo prenúncio de algo. Nos resumimos àquela sombra extasiada: não importa o que seria.

 

Floriano Martins (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura: http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com.br/.

TOP ∧
2

CONTACTOS


Revista InComunidade

Edição de Fevereiro de 2015


Director:

Henrique Prior

Directora-adjunta:

Júlia Moura Lopes

Email: geral@incomunidade.com


Revisão de textos:

Júlia Moura Lopes


Editor:

515 - Cooperativa Cultural, CR

ISSN 2182-7486


Propriedade:

515 - Cooperativa Cultural, CR

Rua Júlio Dinis número 947, 6 Direito, 4050-327.

Porto - Portugal


Redacção:

Rua Júlio Dinis número 947, 6 Direito, 4050-327.

Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com




Conselho Editorial:

Carla Telésforo, Clara Pimenta do Vale, Floriano Martins,

Henrique Prior, Jorge Vicente, Júlia Moura Lopes e

Maria Estela Guedes.



Colaboradores de Fevereiro de 2015:

Cecília Barreira, Cláudio Parreira, David Cortes Caban, Eduardo Mosches, Estela Guedes,

Floriano Martins, Frankelin Fernandez, Gabriel Jeminez Eman, Henrique Dória, Ilda Crugeira,

João S. Martins, Jorge Ferreira, Luís Cardoso, Manuel Varzim, Maria Toscano, Marinho Lopes,

Matheus Trunk, Norma de Souza Lopes, Otto Apuy, Paulo Cecílio, Paulo César Gomes, Rafael Spaca,

Valdir Rocha, Viviane Santana Paulo.


Foto de capa:

Paulo Burnay


Paginação:

Nuno Baptista

Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR