ANO 3 Edição 31 - FEVEREIRO 2015 INÍCIO contactos

João S. Martins


POEMAS

quando menino eu lia...
livros de menino em palavras
de menino com histórias de menino

 

quando era menino tinha pressa
de andar de correr de aprender
a ler e a fazer muitas outras
coisas reservadas aos grandes.
de sonho em sonho ia
avançando passo pequenino passo
grande tanto como a idade
que nunca mais chegava.

 

lia linhas minúsculas pequenas
letras maiúsculas eram letras
de palavras de crescidos letras
grandes aos olhos de um menino.
lia às escondidas os livros
que devorava na biblioteca
que todas as semanas
esperava por mim itinerante
na praça da vila e das ideias
lia lia e mais queria as histórias
de menino ou de meninos
que a poesia ainda não a conhecia
dos versos que mais tarde
guardaria nos bolsos da memória
e recitava sem saber ainda
que era possível escrever
diferentemente. e somava livros
ambições palavras difíceis
refeições de prazer e de escrita
como no postal dos seis anos
que enviei de longe lá da praia.

 

já na escola conheceria outros livros
as primeiras moedas e jogos
de cartas os mapas e as cartas
o primeiro fumo aspirado fora da lareira
no secretismo de quem joga
às escondidas à sorte e aposta
no futuro por jogar. já então
sem o saber
era carente das cartas
adivinhadas as respostas inventadas
as conversas escutadas sem telefone
ou ecos da distância
entre o desassossego e o sujo
dos calções ou do mundo cão
lá fora à minha volta
a rodar invisível nos livros.

 

escrevia depois e lia música
que os sons eram eco dos outros sons
das palavras e do virar de página
folheada de terra em terra onde
continuava a leitura a escrita
agora noutras cores e dicionários
por entre o crescimento das dores
das pernas das metas e das visões.

 

(...)
In “quando menino eu lia...”, Boavista Press, 2014

 

carta a um amor de rua

 

- estou apaixonado!...
- alguém que eu conheça?
- sim!... conheces muito bem.
- diz...
- estou apaixonado por ti, rua minha.
- ?!...

 

escrevo-te deste pedaço de coração
lusitano, como tantos outros que eu sei
gostarem muito de ti.
escrevo-te com o coração nas mãos,
ao lado dos muitos corações
que também batem por ti.
e sei tu tens um coração grande
que a todos pode amar e abraçar.

 

minha rua, minha avenida
de liberdade e paixão,

 

és mais que um romance,
que em ti está e em ti se vive,
és um poema vivo que por dentro se vive.
em ti nascem novas paixões
escritas em cada minuto, em cada passo
um novo poema.

 

que mais poderei dizer de ti, rua minha,
que mais poderei dizer-te? talvez...
que te amo em cada esquina.

 

o relógio já não conta os minutos
porque sabe ser intemporal
este amor antigo.

 

é esta a minha carta de amor
por ti e para ti, por um sim
de entrega em cada instante,
a cada vez que em ti caminho.

 

noite fora te percorro...
depois, talvez mais logo, apenas
os meus passos ecoem
junto aos teus gemidos de rua.

 

In: “FERRY STRET RUA DA PALAVRA”, inédito, a publicar em 2015

 

"broken english"
ou a
polifonia de sonhos intactos

 

pode ser partida a minha fala
mantenho os sonhos intactos
(sempre ou quase exceptuando
breves momentos de dúvida e dores).
se bem que os sonhos podem ser
sonhados em qualquer linguagem
torna-se mais fácil sonhar
nas palavras que aprendi
com o leite e com os sonhos maternos

 

são tão universais como o coração
com o devido respeito pelas singularidades
deste e daqueles
quando escutamos nas ruas o linguarejar
e os adivinhamos nos rostos dos passantes
aí nessa rua de todos e de todos os sonhos
nessa rua que é casa também.

 

em casa sonhávamos e falávamos em polifonia:
na minha linguagem de berço ensinava os filhos
daí dependiam os laços com o longe e o tempo
e na linguagem deles eu aprendia as novas cores
dos sonhos. e de palavra em palavra de sonho
em sonho e nos verbos do coração
em vez de laços quebrados
tínhamos braços ligados

 

desde o tempo
em que os sentimentos nos ficaram
das raízes doutros tempos
e os sonhos ligaram as raízes aos frutos.

 

piano

 

a misteriosa invisibilidade do vento
é como um prelúdio de debussy
corre o piano entre os dedos
e nele os olhos divisam um véu ténue
afago em delicados gestos únicos

 

frases soam translúcidas suspensas
na adivinhada voluptuosidade das cortinas.
sopradas nesta brisa interior invisível
pensamento decantado subtil
jogo de encantamento “da capo”
há cascatas condensadas
na pele a água corre em sintonia
deixando vogar um tilitar em crescendo: 
múltiplo compasso binário prolongado 
nos gestos saídos das linhas paralelas
da sinfonia viva que acontece
no despertar de uma nota só

 

In: “Prelúdio na cidade - quarenta poemas de sons e um desenho incompleto”, inédito

 

ei-los

 

com eles partem as casas
ficam janelas abertas 
voam pardais ao acaso
entre migalhas e pedras

 

já estão vazias e frias
mesas cadeiras e camas
só há cinza nas lareiras
as arcas sem enxoval

 

partem sozinhos os corpos
carregam malas e cartas
por escrever bem guardadas
para depois da distância

 

com selos de outros países
virão um dia ou não
notícias de alguma esperança
que já ninguém irá ler

 

penadas ao abandono
ficam as almas perdidas
quem as irá encontrar
por entre os becos gelados

 

nas ruas frias sem vozes
sem ninguém que as percorra
já não há nome de terra
neste chão abandonado

 

virão um dia virão
as saudades semeadas
porque os homens e as mulheres
virão um dia ou não

 

intemporal

 

era cedo para fazer e desfazer
a cama quando antes era tarde
para semear desejos e gemidos

 

era cedo para dizer não ao tempo
a tempo de dizer sim à eternidade
antes que seja tarde e seja fim

 

cedo ainda era cedo para dizer
que o tempo para nós não será mais
nem cedo nem tarde apenas é

 

o tempo de fazer e de entregar
os corpos ainda jovens no seu tempo
cedo ou tarde será tarde será noite

 

por isso nunca é cedo nunca é tarde
para quem esse tempo é mais que a vida 
que chega sempre a tempo e horas

 

e amanhã bem cedo nova cama
corpos novos repletos de outro tempo
e de palavras como nós intemporais

 

intemporal

 

era cedo para fazer e desfazer
a cama quando antes era tarde
para semear desejos e gemidos

 

era cedo para dizer não ao tempo
a tempo de dizer sim à eternidade
antes que seja tarde e seja fim

 

cedo ainda era cedo para dizer
que o tempo para nós não será mais
nem cedo nem tarde apenas é

 

o tempo de fazer e de entregar
os corpos ainda jovens no seu tempo
cedo ou tarde será tarde será noite

 

por isso nunca é cedo nunca é tarde
para quem esse tempo é mais que a vida 
que chega sempre a tempo e horas

 

e amanhã bem cedo nova cama
corpos novos repletos de outro tempo
e de palavras como nós intemporais

 

sabedoria

 

percorrro o mundo de saco às costas
cheio de objectos de estimação e memória
dos caminhos guardados ao longo do tempo

 

coisas novas e antigas para os meus dias
botões brinquedos jogos e livros
páginas soltas cordões e nós

 

sento-me abro o saco
da merenda e dos pedaços de história
contemplo e escuto o interior

 

há vida e um mundo contidos
numa sacola ao alcance da mão
recolhas da distância e das vozes

 

mexo e remexo e ao virar o saco
vida e haveres se espalham no chão
será que o meu mundo ficará de pé?

 

sábio é o que distingue e escolhe...

 

santo santo santo

 

santo santo me chamavas
sempre que te escutava pela tarde
sentado num ramo da existência
sagrada em suave harmonia

 

santo santo repetias
santo não serei talvez poema
simples profeta mensageiro
se quiseres ave em contraluz

 

santo santo te dizia
santo é o tabernáculo o teu corpo
santuário de paixões e devaneios
serenos jogos de equilíbrio

 

santo o desejo de encontrar-te
saudade divina do teu rosto
serei de novo para ti na eternidade
santo três vezes santo santo

 

"mão na tua mão na minha"

 

abraço-te de olhos nos olhos
com as minhas mãos te toco
desenho a linha da vida
e coloco
a minha mão na tua

 

há mãos especiais mãos frágeis
no calor de uns braços longos
letras duplas como pombas
são ditongos
na tua mão

 

chegam onde chegam palavras
mensagens de folhas cheias
falam nos rios que correm
nas veias
na tua mão na minha

 

as mesmas mãos que escrevem
a linha em que nos lemos
a mesma linha que temos
na mão na tua mão na minha

 

João S Martins, 60 anos de idade, nascido nas montanhas da Beira Interior, em Manteigas, Portugal. Durante vários anos dedicou-se ao ensino e educação. Estudou na Universidade Católica de Lisboa.Visitou pela primeira vez os Estados Unidos em 1987 por período de um mês e decidiu ficar, residindo em Livingston, NJ.
Publicou 7 livros, (“Exercício de Pintura” - poesia, “A Estrelinha da serra...” – pequenas histórias, “Cânticos Paralelos” - poesia, “Intervalo das Palavras” - poesia , “Quando toda a esperança é azul” - biografia, “O seu nome era Maria” – poema ilustrado,  “mãos verdadeiras” - poesia, “quando menio eu lia...", poesia - edição bilingue,31), para além da participação em inúmeras revistas electrónicas e publicações locais. Fundou a ProVerbo - secção cultural do Sport Club Português, de Newark, organizou durante vários anos a Gala “Língua Portuguesa em Festa”, participa em encontros de poesia e outras actividades culturais. Recentemente dedicou-se também à escultura em madeira. Mantém o blogue (www.artamarte.blogspot.com ) dedicado às artes, onde poderá ser seguida a sua actividade na poesia e na escultura.
Tem outros livros de poesia prontos para publicação ("FERRY STREET RUA DA PALAVRA", “Prelúdio na cidade”,31), para além de outros projectos na área da escrita.

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Floriano Martins, Frankelin Fernandez, Gabriel Jeminez Eman, Henrique Dória, Ilda Crugeira,

João S. Martins, Jorge Ferreira, Luís Cardoso, Manuel Varzim, Maria Toscano, Marinho Lopes,

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Paginação:

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