ANO 3 Edição 22 - ABRIL 2014 INÍCIO contactos

Henrique Prior


EDITORIAL: DA CRISE, À SAÍDA LIMPA

O nosso país tem vivido momento de turbulência, que não só tem angustiado os portugueses, como os tem deixado perturbados sobre a origem da crise e os meios de a ultrapassar. Sobre isso, a confusão e a mentira têm imperado.

 

Mas, neste momento em que os portugueses têm de decidir o seu futuro, convém que se faça luz serena sobre esta questão.

 

As origens da crise em Portugal são de dupla natureza, externa em primeiro lugar e, depois, interna.

 

As razões externas da crise decorrem da falência de bancos americanos que levou a uma enorme crise na banca europeia, incluindo a portuguesa. Para além das fraudes sobejamente conhecidas na nossa banca, em particular o maior banco privado, o Millenium/BCP, a falência dos bancos americanos causou graves problemas de solvabilidade a toda a banca portuguesa, incluindo o BPI, que parafraseando o seu administrador Ulrich, tudo parecia aguentar.

 

Para além disso ocorreu, em simultâneo, a causa interna da crise. O BPN faliu, a Madeira exibiu a sua falência antes escondida, e os submarinos encomendados à Alemanha através da corrupção tiveram de ser pagos.

 

Em simultâneo ainda ocorreu a ascensão ao poder dentro do PSD pelo grupo de Relvas/Passos Coelho, e com isso a condução de uma política que recusou qualquer diálogo com o PS, centrando o seu discurso nas invocadas gorduras do Estado e na injustiça dos sacrifícios que estavam a ser exigidos aos portugueses.

 

Essa política, que acabou por ter o apoio do PCP e do BE, e a ampliação nos discursos do Presidente da República, produziu uma instabilidade tal que os juros da dívida pública começaram a subir de modo insustentável, precisamente naquele momento que os partidos do chamado arco da governação mais deveriam dialogar e chegar a um consenso, diálogo e consenso esses que Aníbal Cavaco Silva então nunca incentivou.

 

Com o chumbo do PEC IV por uma espúria coligação entre o PCP, o BE e a direita, o governo de Sócrates caiu e iniciou-se um período eleitoral.

 

O PSD, com uma astuta invocação das pretensas gorduras do Estado, dos sacrifícios que estavam a ser exigidos aos portugueses e a urgência em os aliviar, e a necessidade de chamar a troyka para tal, ganhou as eleições.

 

É claro que fez no governo, logo a seguir, o contrário do que disse em campanha eleitoral. Afinal não havia gorduras do Estado para cortar (pelo contrário, as gorduras dos serviços prestados ao governo, nomeadamente em consultadoria e nos boys, aumentaram enormemente,22), mas tão só muito maiores sacrifícios para exigir às classes médias e baixas do que tinha imposto Sócrates.

 

E foram chegando as capturas dos subsídios de férias e de Natal, os complementos de solidariedade ordinários e extraordinários, o desemprego galopante que provocou uma enorme baixa dos salários, a emigração em massa da geração mais jovem e capaz, etc.
Se a dívida da Madeira e dos submarinos tinha de ser paga pelos portugueses, já não seria assim quanto à injeção de liquidez nos bancos privados nem a nacionalização do BPN.

 

Afinal acabaram por ser os portugueses a suportar a crise e as fraudes na banca.

 

E, com isso, a fazerem uma colossal transferência de riqueza para um reduzidíssimo número de muito ricos, que as estatísticas fixam em 870.

 

Mas chagámos à saída dita limpa.

 

Só por muito cinismo se poderá dizer que, com uma dívida pública a 130% do PIB, que era de 90% quando Passos Coelho chegou ao poder. Com uma economia e uma sociedade devastadas, e com a recusa da Alemanha, da Finlândia, da Áustria e da Holanda a emprestarem-nos dinheiro para enfrentarmos qualquer dificuldade futura dos chamados mercados e os resultados catastróficos duma nova subida de juros, só por muito cinismo se dirá que é limpa esta saída do controle trimestral da troyka para um controle semestral da mesmíssima troyka.
Esta é a verdade. E é tendo-a em mente que os portugueses deverão votar.

 

Henrique Prior

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