ANO 3 Edição 22 - ABRIL 2014 INÍCIO contactos

Henrique Prior


COMPETITIVIDADE E O ESMAGAR DO TRABALHO

A propaganda política da troyka nacional, Cavaco, Coelho e Portas, tem assentado, para além da necessidade de redução do défice público, na necessidade de tornar mais competitiva a nossa economia. E como essa troyka não fala em investimento na educação, na ciência e na tecnologia ou nas energias renováveis que nos libertem da dependência energética do exterior, todo o seu discurso se tem centrado no facto de os portugueses viverem acima das suas possibilidades e ganharem mais do que o país pode pagar-lhes.

 

Daí a necessidade, segundo o seu entendimento, de fazer baixar os custos do trabalho para tornar, diz-se, a economia mais eficiente e competitiva.

 

Como consequência dessa política a massa salarial nacional diminui já cerca de 20% em relação a 2011. E a população empregada caiu de 4,69 milhões de pessoas em 2013  para 4,27 milhões de pessoas em Março de 2014.

 

Dir-se-ia então que o país está mais competitivo. Mas os factos desmentem a propaganda governamental.

 

Na verdade, embora se tenham verificado alguns avanços nas exportações, alguns decorrentes do arranque de unidades industriais já iniciadas no tempo de Sócrates, como a nova refinaria de Sines, a verdade é que o défice comercial subiu, de Janeiro a Abril de 2014, 627,1 milhões de euros, isto em consequência do aumento das importações de 6%, que contrasta com o anémico aumento das exportações de apenas 1,7% em termos homólogos.

 

Este aumento das importações proveio 14,7% do comércio intracomunitário e resulta, no essencial, do aumento de importações de veículos e outros materiais de transporte, máquinas e aparelhos, e combustíveis minerais provenientes da União Europeia.

 

Porém, as exportações dentro do espaço comunitário aumentaram apenas 1,1%, e as exportações para países extracomunitários caíram 6,8%.

 

Daqui resulta claramente que não foi a baixa salarial que aumentou a competitividade.

 

Ora é por demais sabido que a média do valor dos salários na formação do preço da dos produtos nacionais não ultrapassa os 30%, sendo os restantes 70% devido a vários fatores, entre eles o preço do dinheiro e, sobretudo, a elevada cotação do euro, sobrevalorizado em cerca de 30% relativamente à capacidade competitiva da economia europeia com as economias americana e chinesa.

 

Esta sobrevalorização interessa sobretudo à banca alemã que resolveu os seus graves problemas de insolvência. Em finais de 2008, o segundo maior banco alemão, o Comerzbank, e as caixas regionais alemãs estavam à beira da falência. Salvaram-nos a venda massiva de dívida pública bem remunerada dos países do sul que foi transferida para credores nacionais, e os elevados depósitos não remunerados que esses bancos receberam, além, claro está, de empréstimos de valores elevadíssimos do governo alemão que, por isso, não tem já dinheiro de folga para emprestar a Portugal.

 

Isto é: a crise no sul da Europa, aliada à elevadíssima cotação do euro, serviram para a Alemanha resolver os problemas da sua banca.

 

E a crise está a servir também para Portugal resolver os problemas da sua banca com dinheiro que nela tem injetado, à custa da baixa dos salários da função pública e das pensões, e para que ocorra uma colossal transferência de riqueza das classes médias e baixas para 870 dos mais ricos de Portugal.

 

O governo prepara-se agora para quebrara a espinha dorsal dos trabalhadores através de medidas que destroem a contratação coletiva. Se isso acontecer, a média dos salários poderá baixar mais 20% nos próximos três a cinco anos.

 

Mas nem isso representará um especial aumento da competitividade da nossa economia.
Primeiro, porque o euro continua sobrevalorizado.

 

Segundo, porque a pobreza generalizada dos portugueses irá influenciar, negativamente, a produtividade do seu trabalho.

 

Além disso, continuará a beneficiar a banca portuguesa e alemã, essa política vai provocar o que os cínicos do poder pretendem: a continuação da colossal transferência de riqueza para esses 870 portugueses mais ricos.

Henrique Prior

 

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