ANO 3 Edição 22 - ABRIL 2014 INÍCIO contactos

Leandro Durazzo


DEZ POEMAS DE LEANDRO DURAZZO

 

eu não sei o que responder
eu normalmente sei o que responder mas eu não sei o que responder
isso me suprime
sufoca
isso me coloca sem saber o que dizer
sem saber o que
fazer
sem saber o que responder eu não sei o que
responder

 

a ignorância e o amor se equivalem
silenciam
a ignorância e o amor se sobrepõem
o amor e a ignorância são os mesmos
são um só
e eu não sei
o que
dizer


 

deixe que façam
como bem
entenderem, deixe
que saiam
quando bem quiserem
faz vista grossa
tapa ouvidos
feche tua boca
vem comigo

 

em silêncio
e despidos


 

orfeu desceu ao inferno
voltou
cristo desceu neste inferno
subiu
jizô foi pro inferno e lá
ficou
cristóvão, o são
passou jesuzinho no lombo
no rio

 

eu
aqui
mal carrego minhas próprias coisas
mal consigo estender a mão
mal enxergo minha própria vida
minha ação

 

orfeu, jesú, jizô
cristóvão, carregai
que eu também vou


 

temos sorte
distância e sorte
e não podemos sentir o toque
e não sabemos dizer o nome
daquele acaso
que nos atira
naquele ocaso
que nos inspira
e não podemos sentir o toque
a pele, a brisa
o som da voz, a fome
que não sacia
e temos sorte, e temos sorte
distância e sorte
e temos fome


 

montamos nossa própria rede
somos aranhas
cearenses
montamos nossa própria rede

 

que o barulho a martelar
das máquinas de óleo gás
que o barulho a martelar
não nos desfaça

 

montamos nossas próprias redes
e tudo passa


 

penduro um lençol na jangada
e sopro
e sopro
e sopro
penduro um lençol na jangada
e zarpo


 

se alimentar como um passarinho
e voar


 

ana se aproximou
trouxe na mão a flor
e um corpo que não o meu

 

ana me relembrou
de uma história passada
uma dor
que morreu

 

ana angustiada
trazendo na mão copo d'água
e calor
e cansaço
e fuga em lá menor
em laço

 

ana vira em poema
talvez se transforme outra coisa
talvez se transforme em Ana
talvez se transforme estrela


 

eu
acho

 

ela disse

 

que não consigo
ser
feliz
contigo

 

ela disse

 

eu
ouvi

 

ela
ficou
feliz

 

eu parti


 

eu queria que ela estendesse a mão
um colchão desdobrado na sala
uma esteira de palha, uma rede
que fosse
eu queria uma tarde inteira passada na calmaria
uma noite

 

talvez um dia

 

 

Leandro Durazzo. Tradutor e escritor. Autor de terra húmyda (ficção, Ed. Patuá, 2014) e Gestação de Orfeu: profecia e transcendência na poesia de Jorge de Lima (ensaio, Ed. Multifoco, 2013). Escreve em http://miseramesa.blogspot.com e traduz em http://transcriacao.blogspot.com. Contato: leandrodurazzo@gmail.com.

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