ANO 3 Edição 22 - ABRIL 2014 INÍCIO contactos

Nuno Rebocho


ABRAÃO VICENTE A CORPO INTEIRO - A NOVA GERAÇÃO DA BOA LITERATURA CABO-VERDIANA

 

Escrever é um vício e uma necessidade. Representando a nova geração da literatura cabo-verdiana, Abraão Vicente é, a um tempo, escritor, poeta, pintor, deputado nacional, ex-jornalista televisivo. Aproveita todos os momentos que pode para mergulhar na escrita, “quer em campanha, no parlamento ou em qualquer cidade ou lugar onde esteja”, sempre preparado para tomar nota de ideias para escrever. Como ele próprio assinala, “o único alerta diário no seu calendário de telefone móvel e computador diz escrever”.

 

Com quatro livros publicados – um romance “O Trampolim” (2010, editado na Kankan Studio,22), dois livros de poesia “E de repente a noite” (2012, também na Kankan Studio) e “1980 Labirintos” (2013, poesia em prosa, na Lua de Marfim,22), mais “Traços Rosa Choque (coletânea de crónicas, 2012, igualmente na Lua de Marfim,22), participou na recolha de narrativas “Dez Contos para ler Sentado” (Caminho, 2012) e está a concluir um livro de poemas - “Amar100medo, cartas improváveis & outras letras”.

 

Enquanto político, é deputado independente pelo MpD (Movimento para a Democracia, da oposição, que em Cabo Verde foi responsável pelo fim do totalitarismo e pela abertura democrática). E, durante anos, apresentou na televisão, TCV, o programa de grande impacte “Nha Terra, Nha Cretcheu” (Minha Terra, Meu Amor). Quando as oportunidades o permitem, expõe as suas telas que, todavia, na sua opinião, representam um trabalho que “não se imiscui com o mais, constitui um espaço distinto” - o leitor de obras literárias influencia muito mais o político nele existente do que o escritor, que se considera “bastante intransigente e vive num mundo muito próprio”.

 

Desde a adolescência, “impulsionado pelo vício crónico na leitura”, Abraão Vicente ganhou o hábito de escrever. Em 2010, publicou o seu primeiro romance e teimosamente foi burilando “1980 Labirintos”, que recebeu ao longo dos anos vários títulos até a sua publicação.

 

Formado em Lisboa (Portugal,22), depois de estudos feitos em Barcelona (Espanha,22), o sucesso da sua exposição televisiva chamou-o para a política sempre o mostrando como uma voz inconformada e independente. Em 2012, na Bienal Lusófona de Odivelas (Portugal,22), onde apresentou a voz da nova literatura arquipelágica, começou a ganhar expressão internacional.

 

Quanto muito novo, Caminho castelo Branco, Eça de Queirós, Fernando Pessoa por serem presenças no estante do meu pai. Com o tempo leio autores muito variados  e por razões diversas. Adoro Charles Bukowski, Pedro Juan Gutierrez, Jack Kerouac, Roberto Bolaño pela escrita crua e pelo imaginário ao mesmo tempo real, mas fantástico ao se debruçarem em pormenores. Herberto Helder pela intensidade. E logo Carlos Ruiz Zafón pelo ambiente de Barcelona, Lobo Antunes pela técnica de escrita e devoção pelas palavras, pelas intermitências. Carlos Drummond de Andrade, Jose Luis Borges,  Neruda.  Boris Vian, Günter Grass, Pepetela, Arundhati Roy, Mia Couto também entram na lista.  Paul Auster e Coetzee, Claro. Depois existem clássicos aquém convém visitar frequentemente: continuo a ler Fernando Pessoa por afinidade com Caeiro e  Homero cujos cantos, quer de Ilíada quer Odisseia, funcionam como espécie de mantras diários. Leio-os para treinar a dicção. Mas tenho uma lista de autores muito extenso a quem aprecio

 

POEMAS DE AMAR100MEDO, CARTAS IMPROVÁVEIS & OUTRAS LETRAS, DE ABRAÃO VICENTE

 

Terra

Na minha terra onde
Não há embondeiros
Nem mulheres negras
De seio descoberto

 

Na minha terra
Os navios
Foram queimados
E o mar é montanha
Liquefeita pelo pasmo
E angústia de chicotes
Hoje invisíveis

 

Minha terra
Onde os rios
Os leões,
Os elefantes,
Os crocodilos,
Toda fauna,
Toda a beleza,
Todo o continente,
Tornaram-se invisíveis
No momento em que
O primeiro
Homem pisou
A areia negra
Da Ribeira Grande

 

Minha terra
Invisível pela força
Dos quilómetros
Sucumbidos
Na escuridão
De não ter
Mais chão
Que o mar.

 

Minha terra,
Meu corpo,
Esse infinito
Degradado
Entre os dedos
Leprosos do tempo

 

Minha terra
Nas lantunas
Amargas das
Encostas de
Gil bispo,
Nas grutas
Tenebrosas de
Águas Belas

 

Minha terra
Nos cumes
Do monte
Pilón di
Nha Rainha
Minha terra,
Invenção
Utopia e
Quimera.

 

Guerras e máscaras

Mascaras impenetráveis,
Virtude, medalhas e dotes
Ganhas como perdão e dívida.

 

O medo implacável
Onde tudo repousa.

 

Túmulos profanados
Rituais sarcásticos
Toda a podridão da carne
Cala a arrogância do ego
Que compra e
Vende os espólios
Do tempo e dos
Gestos intransponíveis
De murros dados e
Dividendos reclamados
Por hábeis coronéis
Que na sombra venceram
Guerras nunca travadas.

 

Teu ventre, teu mundo
Abrigo e refúgio das
Mãos rebeldes e dos perigos.
Ocultos que o silêncio
Calcula no tic tac
Dos relógios
E no silêncio
Das armas.
Poema ao Non sense

 

Ausência, vazio
O Cliché dos dias.
Elevadores, portas entreabertas
Cacos de vidros cortando
Desertos de areia.

 

Objectos abandonados
Insinuando o fim e o resto
Água benta, beatas e o crack
A minar o aborrecimento
Das noites luarentas
Sem poesia, país ou
Nome.

 

A terra inóspita da
Inocência nua
Das tuas entranhas.
A descoberto.

 

O desejo e a métrica.
Teu corpo escavado no
O estado-maior da derrota
E do esquecimento.

 

Cinzeiros de cristal,
Fitas e agulhas.

 

O desespero do non sense
Reinventado infinitamente
Em escaparates iluminados.

 

Ausência, limite
E a palavra.

 

Nuno Ferreira Rebocho, ex-jornalista e escritor, 68 anos de idade, é português mas reside atualmente em Cabo Verde onde assumiu funções de assessor da Câmara Municipal da Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha, Património Mundial).  Viveu em Moçambique, tem 26 livros publicados. Antigo chefe de redação da RDP-Antena 2 (Rádio Cultura,22), colabora com o jornal Cultura, de Angola, entre outros órgãos. Durante cinco anos esteve preso, por motivos políticos, na Cadeia do Forte de Peniche, por sua oposição ao regime fascizante de Salazar. Foi comissário da Bienal de Belas Artes de Dubrovnik (Croácia).

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