ANO 3 Edição 22 - ABRIL 2014 INÍCIO contactos

Olinda P. Gil


EU QUERO VIVER EM PORTUGAL

Ouvi falar de um país, Portugal, e gostava de lá viver. Nesse país as pessoas entram às 10h00 no trabalho, às 10h30 fazem uma pausa, ao 12h00 vão almoçar e demoram duas a três horas no almoço. Nesse país as noites são amenas e é por isso que as pessoas não se importam de trabalhar até tarde. Nesse país há uma intervenção do FMI mas as pessoas continuam a cometer excessos e a viajar. Nesse país houve uma revolução há quarenta anos e a população vive com direitos adquiridos desde aquela época.

 

Eu vivo noutro país, não sei bem qual, mas é outro. Onde vivo as pessoas estão às 7h45 no trabalho para entrar às 8h00. Apesar disso saem tarde do trabalho. Não perdem tempo na Internet, porque nem têm acesso à Internet no trabalho. Onde vivo as noites de Inverno são frias, húmidas e desagradáveis. As casas não têm aquecimento central, por isso as pessoas deitam-se cedo. Especialmente os idosos. No verão as noites são demasiado quentes, só adormeces lá para a 1h00 ou 2h00 e mesmo assim, no outro dia de manhã, tens de estar às 7h45 pronto a começar a trabalhar. Onde vivo há uma intervenção do FMI, que é quem realmente governa o país. Os políticos em que se vota são apenas fantoches. As pessoas vivem mal, e as que, mesmo assim, vivem melhor, conseguem juntar dinheiro para ir duas semanas em Agosto para o Parque de Campismo de Monte Gordo. As outras levam anos sem ver o mar, apesar do mar não ser longe. Onde vivo houve uma revolução há 40 anos. Os direitos adquiridos na altura eram considerados esquerdistas e caprichos. A comunicação social dá cada vez mais tempo de antena a opiniões ditas de direita. As pessoas que assim falam acham que têm pedigree. Para eles é um horror que um filho de um operário a tirar um curso superior seja melhor aluno que os filhos deles que estudaram sempre em colégios privados.
Depois há outros países, sem ser Portugal ou o país onde vivo. Nesses países não houve revoluções de esquerda e as pessoas vivem bem: mas nesses países as pessoas não acham que têm pedigree só porque tiveram um avô ministro ou um antepassado negociante de escravos. Os discursos de direita atacam os problemas desses países e não as pessoas. E quando alguma coisa corre mal saem todos à rua: todos. No país onde vivo as pessoas vêm manifestações na televisão. Ouvi falar de um país, Portugal, e gostava de lá viver. Nesse país as pessoas entram às 10h00 no trabalho, às 10h30 fazem uma pausa, ao 12h00 vão almoçar e demoram duas a três horas no almoço. Nesse país as noites são amenas e é por isso que as pessoas não se importam de trabalhar até tarde. Nesse país há uma intervenção do FMI mas as pessoas continuam a cometer excessos e a viajar. Nesse país houve uma revolução há quarenta anos e a população vive com direitos adquiridos desde aquela época.

 

Eu vivo noutro país, não sei bem qual, mas é outro. Onde vivo as pessoas estão às 7h45 no trabalho para entrar às 8h00. Apesar disso saem tarde do trabalho. Não perdem tempo na Internet, porque nem têm acesso à Internet no trabalho. Onde vivo as noites de Inverno são frias, húmidas e desagradáveis. As casas não têm aquecimento central, por isso as pessoas deitam-se cedo. Especialmente os idosos. No verão as noites são demasiado quentes, só adormeces lá para a 1h00 ou 2h00 e mesmo assim, no outro dia de manhã, tens de estar às 7h45 pronto a começar a trabalhar. Onde vivo há uma intervenção do FMI, que é quem realmente governa o país. Os políticos em que se vota são apenas fantoches. As pessoas vivem mal, e as que, mesmo assim, vivem melhor, conseguem juntar dinheiro para ir duas semanas em Agosto para o Parque de Campismo de Monte Gordo. As outras levam anos sem ver o mar, apesar do mar não ser longe. Onde vivo houve uma revolução há 40 anos. Os direitos adquiridos na altura eram considerados esquerdistas e caprichos. A comunicação social dá cada vez mais tempo de antena a opiniões ditas de direita. As pessoas que assim falam acham que têm pedigree. Para eles é um horror que um filho de um operário a tirar um curso superior seja melhor aluno que os filhos deles que estudaram sempre em colégios privados.

 

Depois há outros países, sem ser Portugal ou o país onde vivo. Nesses países não houve revoluções de esquerda e as pessoas vivem bem: mas nesses países as pessoas não acham que têm pedigree só porque tiveram um avô ministro ou um antepassado negociante de escravos. Os discursos de direita atacam os problemas desses países e não as pessoas. E quando alguma coisa corre mal saem todos à rua: todos. No país onde vivo as pessoas vêm manifestações na televisão.

 

Olinda P. Gil é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e mestre em Ensino do Português e das Línguas Clássicas.
Foi colaboradora do DNJovem, suplemento do Diário de Notícias. Participou com outros colaboradores do suplemento no site na-cama.com e jotalinks. Foi 3º prémio no concurso literário “Lisboa à Letra” em 2004, na categoria de prosa. Mais recentemente foi selecionada no “4º Concurso de Mini-Contos do IST Taguspark”.
Tem textos publicados em várias revistas e colectâneas.
Publicou em edição de autor “Contos Breves” e "Sudoeste" pela Coolbooks (Porto Editora).
Está a ser preparada a publicação de um ebook por uma das principais editoras nacionais.

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