ANO 3 Edição 20 - FEVEREIRO 2014 INÍCIO contactos

Olinda P. Gil


O JARDIM

 

Todas as manhãs o seu dia de trabalho começava sempre da mesma forma: chegava à casa da sua patroa, rapariga ainda nova, e na casa de banho despia a sua roupa do dia-a-dia e vestia a bata por cima do soutien e das cuecas. Não havia problema: a casa era aquecida e não havia por ali homens. Nem a sua patroa ali estava. Só a via de vez a vez, quando tinha um pedido especial para fazer ou para lhe ser pago o ordenado.

 

Terças e quintas eram os dias em que ia para aquela casa. Longe de ser das mais luxuosas que limpava: aquela até era muito simples. A patroa não era de luxos. Não havia cuidado com pormenores como ter móvel para o telefone, por exemplo. Não havia televisão e a cama era japonesa, algo que antes só tinha visto em revistas. O vazio da casa facilitava a limpeza, e compensava de algum modo a desarrumação. A sua patroa não era uma mulher arrumada, nem se preocupava com isso. Mas gostava da cozinha e da casa-de-banho desinfectadas, do pó aspirado. Era isso que fazia às terças e às quintas.

 

Às vezes cheirava a tintas e o chão da sala estava forrado a papéis de jornal. Sabia que não devia tocar em nada, porque era trabalho da patroa, artista plástica. Chegou a ver também na sala umas construções em metal, pareciam restos desperdiçados e retirados do lixo, que durante várias semanas cresceram e tomaram forma até àquilo a que chamou de estátuas.

 

Naquela tarde havia vários vasos e estrume. Ficou contente quando os viu! Adorava plantas e ao que parece a sua patroa também. Para se mostrar agradecida, porque a sua patroa era generosa para consigo, e até já lhe tinha oferecido um quadro seu, trouxe da sua casa rebentos de plantas, que cuidadosamente deixava tomar raiz dentro de pequenas jarras perto de uma janela luminosa.

 

Colocou o estrume nos vasos e plantou os seus rebentos. No dia seguinte foi despedida. Passado um mês a patroa viu premiado o seu mais recente trabalho, uma instalação chamada “jardim”.

 

Olinda P. Gil é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e mestre em Ensino do Português e das Línguas Clássicas.
Foi colaboradora do DNJovem, suplemento do Diário de Notícias. Participou com outros colaboradores do suplemento no site na-cama.com e jotalinks. Foi 3º prémio no concurso literário “Lisboa à Letra” em 2004, na categoria de prosa. Mais recentemente foi seleccionada no “4º Concurso de Mini Contos do IST Taguspark”.
Tem textos publicados em várias revistas e colectâneas.
Publicou em edição de autor “Contos Breves”.
Está a ser preparada a publicação de um ebook por uma das principais editoras nacionais.

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