ANO 3 Edição 19 - JANEIRO 2014 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes/Carlos Vale Ferraz


O MEU FILHO É DÓTOR!

(A propósito de praxes e sinais de prestígio social)


Segundo a comunicação social (vale o que vale) a mãe de uma das jovens que morreu afogada nas ditas praxes da Praia do Meco terá declarado (mais ou menos): «A minha filha morreu feliz, estava “trajada”» Segundo se deduz, a mãe entendia que o traje, dito académico, de saia-casaco preto e capa, simbolizava a realização dos sonhos da jovem e da sua família. Sonhos de ascensão social.

 

O “traje académico” simbolizava para aquela jovem o que até ao liberalismo (séc. XIX,19), o mesmo que o hábito religioso para as jovens de classes populares e suas famílias, que conseguiam entrar e professar nos conventos. A praxe de hoje corresponde aos tractos de polé a que eram sujeitas as noviças e os noviços que queriam subir na escala social e romper as fronteiras do destino imposto pelo nascimento. Por não serem filhos e filhas de algo.

 

A universidade representa hoje o convento de então. Daí que os candidatos a subir na escala social se sujeitem a todas as experiências e humilhações. Nos conventos, os noviços e noviças deitavam-se de borco nas lajes do altar, tapados com um lençol, antes de serem graduados e admitidos na congregação. Nas praxes, ditas académicas, rastejam e, pelos vistos, até mergulham no mar bravo...

 

Dado o atraso do acesso à educação da sociedade portuguesa, para os jovens oriundos de estratos médio-baixo da sociedade, os suburbanos com ambições a vencerem os estigmas de nascimento e de residência, a universidade (e a correspondente praxe) é ainda hoje um atestado de sucesso. E também para os seus pais. Ser “doutor” e ter um filho “doutor” são sinais de prestígio social.

 

A praxe, a estupidez da praxe, assenta na ilusão de que a universidade, a frequência da universidade e o diploma universitário elevam o estatuto social só por si. O praxador e o praxado acreditam nisso e, ao submeterem-se às parvoíces da praxe julgam estar a aceder a um estatuto de poder com correspondência no seu futuro. Daí a frustração quando se vêm de diploma e sem saber o que fazer com ele. A praxe é a ilusão de que a forma substitui o conteúdo. Que a praxe abre as portas da sociedade para as suas escadas.

 

A praxe, a parvoíce da praxe, é que ela assenta na ilusão de singularidade, de excepcionalidade que a frequência de uma universidade ainda hoje provoca em Portugal no imaginário dos estratos de população recém-saídos dos campos e das fábricas. O facto de os filhos dos que vieram de todos os cantos de Portugal para os arredores das cidades irem e frequentarem uma universidade é um sinal de que venceram na vida. Por isso a mãe se afirmava consolada porque a filha estava trajada. Isto é, porque vestia um hábito. Deviam-lhe ter dito que, como as monjas pobres dos conventos, a filha nunca seria abadessa, nem madre superiora. Lugares reservados aos bem-nascidos que pagavam dotes para as filhas professarem e replicarem o seu poder. A filha da senhora seria sempre uma serva entre as servas do Senhor.

 

Se ensinassem um pouco de História nas ditas universidades a estes ditos universitários, talvez eles começassem a distinguir a praxe, das alarvidades da Casa dos Segredos. A perguntar que raio de fatiota vestem e porque fazem o que fazem e se sujeitam a fazer as tristes figuras que fazem. É capaz de ser exigir muito das universidades, incluindo as de verão das jotas...

 

Mas a praxe, a estupidez da praxe, expõe ainda a boçalidade dos recém-chegados à cidade, a uma certa ideia de riqueza feita de posses e poses, a boçalidade dos volframistas da II Guerra, que compravam canetas de ouro para pendurarem as tampas no bolso dos casacos e mandavam vir pão-de-ló para acompanhar sardinhas: porque podiam pagar. A boçalidade dos biscateiros que se empanturram de gambas e sapateira depois de um negócio bem aldrabado, porque podem pagar e querem exibir a sua prosperidade.


A estupidez das praxes revela a razão do nosso atraso enquanto sociedade mal urbanizada, de democracia mal enraizada, uma sociedade de aparências, civicamente imatura, encadeada pelo brilho do pechisbeque e sem referências, uma sociedade de vale tudo.


Uma sociedade em que os maiores praxadores são tipos como os Oliveiras e Costa, os Duarte Lima, os Vale e Azevedo, os Arnaut, os homens do futebol, os Valentim Loureiro e tantos outros chicos-espertos... Referências para os actuais praxadores...

 

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