ANO 3 Edição 19 - JANEIRO 2014 INÍCIO contactos

Henrique Dória


A INFLUÊNCIA ÁRABE NA POESIA PORTUGUESA (2ª parte)

Podemos, muito esquematicamente, dividir as atitudes do homem perante o mundo e a divindade em apenas duas: a ocidental e a oriental. E também muito esquematicamente reduzir essas diferenças ao seguinte: enquanto o Ocidente, no seguimento da tradição judaica, considera que existe uma separação radical entre o homem e o mundo e a divindade, no Oriente concebe-se a relação do homem com o mundo e a divindade como de fusão total.

 

A concepção budista, e hinduísta da existência é de absorção do Homem no Uno universal. Em consequência, a atitude do homem perante a vida é a de uma ascensão do homem para a Unidade. Daí as técnicas de integração progressiva da meditação e do yoga.

 

Para o homem ocidental existe uma separação radical entre ele e a divindade, como escreveu Kierkgaard, há “uma diferença qualitativa infinita” entre o homem e Deus. Daí não existir fusão possível entre ambos, mas tão só uma possível comunhão que deriva da descida da graça de Deus para o homem, e se concretiza quer na comunhão de Deus com a sua Igreja, quer na comunhão do homem com Cristo através da hóstia.

 

Ao contrário do que é convicção generalizada, a concepção do homem e da divindade subjacente à religião muçulmana e à civilização árabe é claramente ocidental e não oriental. Essa radical separação entre o homem e a divindade, talvez seja ainda mais radical na religião muçulmana do que na religião Cristã porquanto, para esta, Deus transformou-se em homem, através do Seu Filho, o que Lhe deu uma imanência que é totalmente estranha ao seguidores de Maomé, que, por isso se consideram constituir a única religião monoteísta.
Para além desta concepção essencial do homem, do mundo e da divindade partilhadas pelos muçulmanos e pelos cristãos, há também uma enorme dívida da civilização ocidental em relação à civilização árabe.

 

Parece estranho dizer-se, nos dias de hoje - dias que o sociólogo Samuel Huttington apelidou já de choque de civilizações - que a civilização ocidental deve muito à civilização árabe. Mas esta é a verdade. Como é sabido, na alta Idade Média o Ocidente viveu um período de trevas, do qual começou, lentamente, a emergir a partir do ano mil, por vários motivos, alguns de pura superstição. Paradoxalmente, aquilo que foi um embate entre religiões, nos primeiros dois séculos do ano mil – as cruzadas – constitui também um notável fenómeno de intercâmbio cultural. Foi sobretudo a partir das cruzadas que o saber filosófico, técnico, científico e também o saber artístico árabe foram trazidos para o Ocidente.

 

Temos de reconhecer que o mundo ocidental descobriu a filosofia grega através de Avicena e Averróis. Os primeiros progressos científicos e técnicos ocidentais, nomeadamente na medicina e na agricultura, deram-se através dos árabes, ou de judeus arabizados, como Maimónides, que foi médico na corte visigótica.

 

Por outro lado, muito, talvez o essencial do que são a poesia e a prosa medievais deriva da poesia e da prosa árabes.

 

Muito antes de Dante e de Petrarca já o Ocidente cristão tinha uma notável produção literária, particularmente poética.

 

Ora a poesia ocidental da Idade Média nasceu no sul de França, em particular na Provença e na Aquitânia. Eram os condados da Provença e da Aquitânia os mais próximos da brilhante civilização do Al–Andaluz. Não eram só as trocas comerciais entre essas regiões que eram intensas. Também as trocas culturais o eram. Um razoável número de occitanos e de aquitanos falava e escrevia fluentemente o árabe.E foi através do contacto com os grandes poetas e místicos árabes, nomeadamente al Hallaj, al Gazali e Sohrawardi que os trovadores da Provença beberam o amor cortês, que é o tema essencial do seu lirismo.

 

A Provença foi o berço do catarismo. O catarismo é, como se sabe, uma religião gnóstica, que recusa a Encarnação de Deus em Cristo. Os cátaros recusavam a missa, a comunhão e o baptismo pela água. A missa e a comunhão eram substituídos por uma ceia fraterna, e o baptismo  da água pelo baptismo do espírito, que se realizava através do consolamentum, cerimónia que consistia numa espécie de cadeia de união dos “puros” dentro da qual os bispos colocavam as mãos sobre o iniciado a fim de fazer descer sobre ele o Espírito consolador, seguida de um beijo da paz trocado entre os irmãos. Depois, o iniciado tinha direito a uma saudação dos “crentes” ainda não “puros”, consistindo essa saudação em três reverências. Os puros, ou cátaros, recusavam o Amor físico, sendo para eles o amor espiritual o verdadeiro, o mais alto Amor. Daí que o louvor das morte por amor.
É também essa a concepção de Sohrawardi e al-Hallaj. Dizia al-Hallaj:

 

“Matando-me me fareis viver, pois para mim viver é morrer e morrer é viver.”

 

Como está tão próximo do morrer de amor, e da coita de amor dos provençais e dos místicos da Contra-reforma, Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz, quando escreviam “Morro de não morrer.”

 

Parece-nos que naquele tempo não haveria grandes contactos entre o Ocidente e o Oriente. Mas não é verdade. Foi nesse tempo que Rumi, o grande místico e poeta árabe, que num só livro escreveu 25.700 mil versos ( tantos como Ilíada e a Odisseia juntas, e mais do dobro da Divina Comédia)  que nasceu uma cidade do Afeganistão e foi ensinar para a cidade de Rum, no sul da actual Turquia, e o grande místico e poeta da Andaluzia Ibn Al-Arabi se encontraram em Alepo, na Síria. O Mediterrâneo era um mar Árabe. De Bagdad à Andaluzia falava-se uma única língua. A poesia era só uma. E foi essa poesia, os seus temas, o tema do amor, da morte, e do sofrimento do amor, o gosto da contemplação da natureza, da solidão e da meditação, que se passaram para a Provença. Foi uma retórica cifrada, altamente requintada nos seus processos, cheia de simbolismo e ambiguidades que os poetas místicos árabes transmitiram aos ocidentais da Occitânia.

 

As próprias técnicas literárias foram bebidas dos árabes. Guillaume de Poitiers, o primeiro poeta trovador reproduziu a técnica do zadjal em 5 dos seus onze poemas que nos restam. O zadjal, forma poética dominante na Pérsia, é um poema curto, de entre dez a quinze estâncias, de rima única aa,xa,xa,xa, etc.

 

Mas da técnica poética, o que os árabes transmitiram de essencial à poesia trovadoresca, foi a rima. A rima já existia entre os latinos. Mas a língua latina possuía, como a grega, suficiente musicalidade para dispensar a rima. Esta foi um acrescento de musicalidade que surgiu, primeiro por acaso, na poesia latina. No século III surge a rima no final dos versos de uma peça de Commodiano intitulada Instrucções, e, depois, em alguns hinos católicos. Mas só no século XI ela se vulgariza no ocidente por influência da poesia árabe, que era rimada. A maior obra poética árabe, o enorme poema épico de Rumi “Mathnawi” é toda rimada, de uma rima tão encantatória que faz tornar o poema em melodia quando recitado, devendo o seu título ao nome da composição poética.

TOP ∧
2

CONTACTOS


Revista InComunidade

Edição de Janeiro de 2014


Director:

Henrique Prior

Email: geral@incomunidade.com


Revisão de textos:

Júlia Moura Lopes


Editor:

515 - Cooperativa Cultural, CR

ISSN 2182-7486


Propriedade:

515 - Cooperativa Cultural, CR

Rua Júlio Dinis número 947, 6 Direito, 4050-327.

Porto - Portugal


Redacção:

Rua Júlio Dinis número 947, 6 Direito, 4050-327.

Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com




Conselho Editorial:

Carla Telésforo, Clara Pimenta do Vale, Floriano Martins,

Henrique Prior, Jorge Vicente, Júlia Moura Lopes,

Maria Estela Guedes e Paulo F. Silva.



Colaboradores de Janeiro de 2014:

Alexandre Bonafim, Amélia Vieira, Carla Telésforo, Carlos Matos Gomes, Cláudio Willer,

Estela Guedes, Floriano Martins, Henrique Dória, Henrique Prior, Joel Hasse Ferreira,

Jorge Ferreira, Jorge Vicente, José Carlos Ferraz Alves, Júlio Mendonça,

Kléber Lima, L. Rafael Nolli, Luís Cardoso/Cardosálio, Maria João Cantinho, Maria do Sameiro Barroso,

Maria Teresa Dias Furtado, Maria Toscano, Miguel Real, Olinda P. Gil, Péricles Prade,

Teresa Abreu Lima, Teresa Escoval.

Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2013 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR