ANO 3 Edição 19 - JANEIRO 2014 INÍCIO contactos

Jorge Ferreira


A PRAXE “DEMOCRÁTICA”

Actividade integradora para uns, oportunidade para dar livre expressão aos mais baixos instintos para outros, a praxe académica actual é uma actividade anacrónica com resquícios de violência que o progresso civilizacional há muito tinha deixado para trás.


Anacrónica porque a perspectiva integradora a que se propõe se encontra desviada no tempo e nas práticas daquilo que era a velha tradição coimbrã de não deixar o aluno sair à rua depois das nove da noite para que ficasse em casa a estudar. Anacrónica porque arredada muitas vezes das regras de respeito mútuo consagradas pelo desenvolvimento humano, reflectidas em abundante documentação de organismos internacionais de referência. Anacrónica ainda, porque outorgando-se uma perspectiva integradora, não se chega a perceber em que é que as práticas que se vão conhecendo contribuem de alguma forma para a promoção e defesa de um cidadão livre e responsável, na vida social ou académica.

 

Quem já presenciou o espectáculo degradante em que se transformou o cortejo da queima das fitas em Coimbra fica assustado quando percebe que daquela massa despersonalizada, ébria e irresponsável que se arrasta estridente e penosamente atrás de carros alegóricos carregados de cerveja, sairão futuros responsáveis do país. E interroga-se sobre as práticas cidadãs futuras desta gente, supostamente de nível cultural superior e o que deles pensarão os funcionários da Câmara Municipal de Coimbra que disciplinadamente vão limpando a porcaria deixada pelos senhores doutores.

 

O assunto resulta mais estranho quando há responsáveis que consideram publicamente que as práticas abjectas de muitas das actuais praxes são nada mais do que “rapaziadas” sem consequência nem outro significado que não o de algo leve e passageiro com que os nossos “estudantes” de agora, e seguramente cidadãos exemplares do futuro, se entretêm em algumas épocas do ano.

 

Não sou fundamentalista anti praxe, mas tenho dificuldade em compreender como é que podem constituir práticas integradoras, uma vasta gama de humilhações, bebedeiras e actos sexuais simulados, como noticiado e observado nos pequenos filmes que percorrem as redes sociais e que nos embaraçam, envergonham e ofendem a todos. Ou aceitar que as mortes, violações, suicídios e agressões que se registam e que aparentemente se vão tornando mais frequentes, são fenómenos marginais de uma integração com sucesso.

 

A tribalização partidária de que o país tem vindo a ser vítima e a correspondente luta, sem regras nem princípios, pela conquista e manutenção do poder e pela partilha dos despojos do Estado, tem conduzido a uma desvalorização progressiva das referências de cidadania, de responsabilização individual, de valores, de atitudes, de práticas e de respeito pelos outros.

 

Surge assim quase como normal aos olhos de muita gente, a existência destes grupos de pessoas que desenvolvem impunemente, à luz do dia, práticas que noutro qualquer contexto seriam certamente alvo de inquirição pela polícia e de “uma ida à esquadra” para identificação.

 

Aparentemente, a sociedade portuguesa permitiu a criação de uma zona de exclusão, onde é possível infringir a Lei sem responsabilidade nem punição.


Tudo isto revela o que somos e valemos enquanto comunidade. Os actuais praxantes, gente de nível cultural supostamente acima de lixo na nomenclatura da Moodys, são afinal, o mais fino produto desta sociedade e uma das suas expressões mais evidentes. Transportam consigo os valores e princípios das famílias e da sociedade a que pertencem e onde foram educados.

 

Nas notícias que vão surgindo, todos comentam e se preocupam com o que pensam as autoridades, os ministros, os políticos, os donos das universidades e os próprios prevaricadores. A má moeda política que não tem ideias próprias e já de há muito perdeu o papel de liderança que lhe competiria na defesa da dignidade dos cidadãos, aguarda, deixando passar o tempo, até descobrir para onde pendem as modas para depois as poder explorar, sem pudor nem hesitações, em busca do lucro fácil de uma publicidade sem princípios.


A medida da doença e a caracterização da patologia exigiria que o esforço de informação se exercesse sobre as consequências e os resultados, sobre as vítimas, os que são abusados, humilhados e violentados e que a lei não protege da matilha de abusadores.

 

Transformados em cobaias sem identidade própria, sujeitos a práticas ilegais, impróprias de gente bem formada e inaceitáveis em cidadania, que mensagem é que estes jovens transportarão consigo sobre a democracia, o respeito pela dignidade humana e a lei?

 

A forma por vezes ligeira como o assunto é tratado, acaba por ser a expressão da permissividade da própria sociedade em relação ao abuso de que também são alvo sob outras formas e que “aprenderam” a aceitar. É essa permissividade e aparente apatia que se regista na nossa democracia e que tornou possível a ascensão dos regimes mais sangrentos e a destruição das comunidades.


A praxe não pode ser apenas a expressão de um “bullying” irracional e primário, erigido ao estatuto de doutrina de referência e de actividade nobre, sob pena dos praxantes serem os futuros "thugs" da política nacional e da sociedade portuguesa.

 

Uma democracia verdadeira é indissociável da responsabilidade individual e do primado da Lei… pois que se cumpra a democracia… agora…. A praxe não pode ser a coutada privada e protegida de alguns criminosos de direito comum.

 

Jorge Ferreira, Coronel

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