ANO 3 Edição 19 - JANEIRO 2014 INÍCIO contactos

Henrique Dória


EDITORIAL: DECLÍNIO E QUEDA DOS IMPÉRIOS EUROPEUS

Frente às ruínas da Roma imperial, interrogava-se o grande historiador inglês EDWARD GIBBON, na segunda metade do século dezoito, sobre as causas do declínio e queda do glorioso império romano, aquele que fora, até então, o mais poderoso e longo império que a humanidade conhecera.

 

Esta Europa que, desde há cerca de 60 anos, vem concretizando o velho sonho de unidade para ultrapassar a prostração em que a arrogância imperial a lançou através de duas guerras fratricidas, apresenta hoje evidentes sinais de declínio que nem a crescente unificação coroada com uma moeda única, nem o primeiro lugar na economia mundial conseguem disfarçar.

 

É, por isso, essencial reflectir sobre as causas desse declínio para o tentar impedir. Porque ele tornar-se-á inevitável se tudo continuar como tem acontecido, com a mesma arrogância imperial que conduziu às catástrofes causadas pela Alemanha, face às forças da economia mas, sobretudo, da geografia e da demografia.

 

Uma das primeiras causas do declínio da Roma imperial foi o abandono da produção. Há medida que os séculos foram passando, a fértil Itália deixou de produzir porque os bens importados ficavam mais baratos, e o abandono da produção interessava aos donos do capital, a finança e o comércio.

 

Face à queda da produção, os impostos arrecadados foram diminuindo e, com isso, veio a impossibilidade de sustentar um exército e uma administração eficientes.

 

As pestes e as guerras com os povos bárbaros que acossavam o império provocaram, por outro lado, uma enorme diminuição da população activa, com efeito negativo nas receitas públicas e na capacidade de recrutamento militar.
A corrupção aumentou exponencialmente, como sempre sucede em tempos de crise.

 

A mundo romano, que sempre fora religiosamente tolerante, adoptou uma religião intolerante e voltada para o tempo depois da morte, quando a religião romana estava voltada para a vida.

 

Perante tudo isto, a coesão política e social do império esboroou-se. Os povos dominados pelo império, face a este quadro, tornaram-se indiferentes perante a cultura e a administração romanas. O domínio de cada vez mais vastas regiões pelos bárbaros, com os quais, aliás, vinham convivendo há séculos, tornou-se para eles talvez um mal menor, de tão afastados que já se sentiam do poder de Roma.

 

Todos estes sinais de declínio que apresentava o império romano antes da sua queda são hoje evidentes na Europa:

 

Uma população envelhecida pela drástica redução da natalidade e o aumento da esperança de vida.
Diminuição da produção de bens em consequência da queda da produção industrial que está a transferir-se para os países emergentes, em particular a China, com os quais a Europa tem celebrado acordos comerciais que beneficiam a finança em prejuízo da produção.

 

Domínio cada vez maior da finança, em particular da finança alemã, que suporta baixíssimos impostos.

 

Incapacidade dos estados em arrecadarem receita, a não ser com o aumento dos impostos sobre a produção e o rendimento de quem não consegue fugir-lhes, e a venda de património.

 

Aumento da corrupção que induz a fraqueza e o empobrecimento público e privado.

 

Crescimento da intolerância com a subida perigosíssima da votação nos partidos totalitários.

 

Diminuição crescente da coesão social e cada vez maior descrença nas instituições, traduzida, desde logo, na diminuição crescente do número de votantes.

 

A Europa foi a continente que assistiu ao mais rápido declínio e queda dos sucessivos impérios. Reportando-nos só às idades moderna e contemporânea, foi primeiro a queda do brevíssimo império português; depois, do breve império espanhol, a seguir, do império britânico; e, finalmente, do trágico Terceiro Reich alemão.

 

Depois da queda deste último, a Europa compreendeu a necessidade de se unir, não só para preservar a paz, mas também a sua importância no contexto mundial. Mas essa união caiu no não declarado o Quarto Reich alemão.

 

Escreveu GIBBON na sua monumental obra DECLÍNIO E QUEDA DO IMPERIO ROMANO:

 

“A virtude pública conhecida entre os antigos por patriotismo advém de uma firme consciência do nosso próprio interesse na preservação e prosperidade de uma governação livre da qual sejamos membros.”

 

A governação europeia já não é livre porque abertamente dominada pelo poderia financeiro e económico.

 

Os europeus cada vez se revêem menos nos seus governantes, e não se sentem membros da sua governação.

 

Esta obra deveria ser atentamente lida pelos cidadãos europeus, em particular pelos seus governantes e pela sua inteligência, para bem compreenderem que o caminho que estão a seguir é o caminho do declínio. E que esse declínio conduzirá à queda, se nada de essencial for feito para o alterar, porque é ilusório o poder do Quarto Reich alemão face à realidade da geografia e da demografia que fazem da Alemanha um país apenas mediano no contexto mundial.

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