ANO 3 Edição 19 - JANEIRO 2014 INÍCIO contactos

Estela Guedes


VOZES INTERCOMUNICANTES DE MIA COUTO

 

Mia Couto é dos escritores de língua portuguesa com maior projeção internacional. Bem conhecido dos portugueses, o que é raro, pensando na obscuridade em que vivem nacionais de similar importância. Além dos valores intrínsecos da obra, outro dado deve ser invocado para justificar a sua popularidade: é um homem despretensioso, dotado de doçura e bondade, que fala de assuntos graves, eminentes no seu país como em muitos outros, sem preconceitos estéticos, raciais nem políticos.

 

Moçambicano, nascido na Beira, em 1955, a sua obra já considerável tem sido honrada com prémios um pouco em toda a parte, traduções em mais de duas dezenas de línguas, e com estudos académicos, alguns não publicados, por isso só disponíveis em algumas bibliotecas. A projeção no espaço universitário é determinante para a difusão da obra do escritor, ou não aludisse ao “conhecimento universal” a palavra “universidade”.

 

Tal como os confrades africanos, e cada vez mais europeus, o seu entendimento da literatura opõe-se à prática da arte pela arte. O grosso da produção literária da Guiné-Bissau assenta na prioridade do serviço de cidadania, aquilo a que os escritores aludem como “assuntos importantes”, e ainda há muito pouco, entrevistado na TV2, José Eduardo Agualusa, que faço representar Angola para meu fundamento, declarava que o escritor tem a obrigação de denunciar o que vai mal no seu país.

 

O artista tem a liberdade de seguir o rumo para que está vocacionado e que mais o cumula, não pretendo retomar uma contenda que periodicamente assoma na opinião artística. Trago-a à cena apenas para dizer que, não obstante a vocação política e social, e não obstante a sua forte presença nos livros, outras tendências estéticas se manifestam nas obras. No caso de Mia Couto, parte importante do reconhecimento público que lhe tem sido prestado diz respeito ao trabalho de criação e recriação da língua portuguesa, o que naturalmente pode situar-se, dado o enfoque no material de construção do texto, nos antípodas da intervenção política. Problema multifacetado, de que só aponto agora uma faceta, denunciada aliás pelo próprio Mia Couto, salvo erro no livro «E se Obama fosse africano?» - de um lado, as elites letradas são percentagem mínima na população dos países africanos de língua portuguesa – e em Portugal também; de outro, se os escritores de língua portuguesa escrevessem em inglês, a sua posição no mercado mundial deixava de ser marginal.

 

Então, entre os aparentes extremos de intervir pela escrita e de fazer arte pela arte, fica um gradiente muito largo de vetores de interesse no estudo de Mia Couto, que tenho andado a ler e a reler nos últimos meses por razões que fundamentam muito do que até aqui aleguei: a realização de um projecto sobre a obra do autor moçambicano, com a participação de ensaístas brasileiros. Multifacetada, híbrida, a produção literária de Mia Couto engloba crónicas, contos, romances, teatro e dois livrinhos encantadores, não só pelo texto como pelo objecto gráfico e ilustração de Danuta Wojciechowska, publicados como literatura infantil: «O menino no sapatinho» e «O gato e o escuro».

 

Comecemos por estes, que não correspondem ao que entendemos por literatura infantil, exceto pela ilustração, formato dos livros, e por um modo manso e suave de contar coisas ferozes e violentas, como o alcoolismo e a pobreza. Os textos afastam-se da literatura infanto-juvenil pela temática e complexidade poética do texto, mas não quero com isto dizer que sejam impróprios para crianças. Tive ocasião de os dar a ler a uma menina do sexto Ano, que só estranhou aspetos gramaticais e lexicais. No que diz respeito à interpretação das ideias gerais, não manifestou dificuldade. Aliás são recomendados para leitura dos estudantes de vários graus do ensino livros diversos de Mia Couto, quase todos eles com similar dimensão gramatical e lexical, susceptível por isso de causar perplexidade. Digo “quase todos” porque nem todos os livros de Mia Couto apresentam a densidade metafórica e invenção verbal que o tornou conhecido como um dos escritores que mais têm alargado os limites da língua portuguesa. Se os contos pseudo-infantis e muitas crónicas mostram essa densidade, já romances como «O último voo do flamingo» e paradoxalmente um dos seus raros livros de poesia, se não for o único, «Raiz de orvalho», são muito mais sóbrios. É curioso, pois o trabalho de linguagem, criador e recriador da língua, nasce na fonte poética. No entanto, não é no livro de poesia, sim em «Cronicando», nas «Histórias abensonhadas», n’ «A confissão da leoa» e noutros livros, narrativos e ensaísticos, que a linguagem desabrocha nos seus fulgores metafóricos e de invenção de palavras. O autor moçambicano é acima de tudo um poeta da prosa.

 

Mia Couto não escreve para as crianças, como aliás ele próprio declarou em entrevista à RTP: não pensa em leitores quando escreve. O que se passa é que vários dos seus livros têm crianças como protagonistas e narradores, resultado talvez da vontade de intervir, pois, quando as desgraças cobrem a maior parte da população, o que atingem com mais dureza é o futuro, a protagonizar pelos jovens e pelas crianças.

 

À faceta criadora de léxico de Mia Couto deu Fernanda Cavacas o nome de “brincriação”, no estudo publicado em 1999 pelo Instituto Camões, «Mia Couto – Brincriação vocabular». A brincriação patenteia-se até nos títulos, haja em vista «E se Obama fosse africano? E outras interinvenções», «Pensatempos» e «Histórias abensonhadas». No interior das obras, alguns exemplos mais: “adiantosamente”, “redesistiu”, “má-vidista”, “panicar” («O último voo do flamingo”,19), “desdiálogo («A varanda de frangipani»). Muitas variantes inusitadas entram no domínio da sintaxe, aproximando o discurso mais da norma brasileira que da portuguesa. É uma literatura que desafia os professores a explicarem, ou a moverem os alunos a uma aceitação do diferente que mantenha em aberto a possibilidade de emenda, caso sigam o exemplo do escritor. De resto, a questão abre-se para muitos outros, como Herberto Hélder, cuja expressão engloba o que é erro em termos escolares.

 

Alargar os limites da língua, com uma fala tão elástica no domínio sintático e lexical, resulta num idioleto literário que não se confunde certamente com o falar de Moçambique, por muito que o discurso de Mia Couto beba na oralidade, estudada por Celina Maria Rodrigues Martins na tese de doutoramento «O entrelaçar das vozes mestiças – Poéticas da alteridade na ficção de Édouard Glissant e Mia Couto» (Universidade da Madeira, 2003) e por Maria Teresa Damásio Bento dos Santos na tese de mestrado «O universo oral na obra de Mia Couto» (Universidade Nova de Lisboa, 1996).

 

A questão da oralidade chama a atenção para a escrita, o que põe em cena o analfabetismo de massas enormes de pessoas que podiam ler mas não sabem e traz igualmente à cena um dos tópicos recorrentes de Mia Couto: a defesa da tradição. N’«A varanda do frangipani» essa questão é muito notória, no aviso de que a dependência das tendências estrangeiras faz murchar o que é próprio de uma cultura, a sua identidade. Sem nenhum intuito nacionalista, Mia Couto pratica a “tradição e aventura” - como dizia Ernesto de Sousa, sábio de que o passado era tão importante como a vanguarda -, pontuando os livros com provérbios bantus, e também com epígrafes que referem falsa ou verdadeiramente textos do autor moçambicano. Vasos comunicantes estes que não só são típicos da cultura oral como da arte polifónica da modernidade.

 

Maria Estela Guedes é poeta, ficcionista, cronista, dramaturga, historiadora da História Natural e da Maçonaria Florestal Carbonária. Tem umas dezenas de títulos publicados. É directora da Revista Triplov, de Artes, Religiões e Ciências http://novaserie.revista.triplov.com/

 

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