ANO 3 Edição 19 - JANEIRO 2014 INÍCIO contactos

Kléber Lima


TEXTOS INÉDITOS DE KLÉBER LIMA

 

EXERCÍCIOS PARA OLHOS MORTOS

 

Também precisava olhar por uma fresta para enxergar alguma coisa. Numa posição incômoda, ponta-cabeça.

 

E acrescia, com sangue retesado na cabeça, um punhado de desejo.

 

Dois olhos para tudo que há para não se ver. Um montante de não-visto incrustrado na retina, apenas desencapada pela varredura de um delírio. O trânsito intranquilo de corpos intocáveis e paisagens inconcebíveis flui incontidamente como de um olho vazado.

 

(Veio vindo, meio a contragosto, aquilo que não é visão)

 

Antes você tocou a companhia. Antes você esperou haver alguma via. Antes o barco aportou e agora já está partindo.

 

Abre os olhos e os fecha ainda mais. Tira do escuro como um cego que desenvolveu um hipertato.  Arruma a casa produzindo uma combinação de coisas que opticamente não se pode ter nenhuma certeza do que é ou como está, mas essa ineficácia óptica é justamente o que permite a eficácia da arrumação.

 

Nesta escuridão os dentes afiam-se para o desjejum.  Mordem o vão. Concentram-se lá nos intangíveis sumos esfolados. Depois, salivando o jorro espermático pela boca, a mudez maciça derretendo e adentrando a garganta – um golfo súbito estanca na goela.

 

De repente falta ar, sempre falta ar.

 

O olho arregala.

 

(O iluminado é aquele que aprende a respirar com a boca inundada, aprende a respirar se afogando)

 

Desse debater de braços em nenhuma água, como em um último momento, enfim, o olho no olho.

 

ESCAPE

 

Para Lara Amaral

 

Tentando sair, deve ter feito um pouco de barulho forçando portas. Cães ladrando alto. Deixara a cama desarrumada, café por fazer, TV ligada, torneira pingando.

 

Há alguém chamando lá fora.

 

Não houve tempo para um beijo proposital à porta de casa.
Caminhando na chuva. Saltando do ônibus em outro lugar. Para outro lugar.

 

O último pão esfarelando entre as mãos. A última noite devorada espasmodicamente.

 

Jamais encontrado em nenhum dos dias. Por aí em domicílios inconclusos.

 

Foragido, quanto fosse necessário acreditar,
tamanho o silêncio do fracasso.
Que saídas na saída existem?
- Adentre.

 

Está prenhe de infernos o Inescapável.

 

APONTE PARA MIM

 

Olhe-me. Olhe-me sem parar. Olhos extáticos em mim. Olhos absortos. Olhos famintos. Olhos espantados. Olhe-me. Não pare. Olhe-me.

 

Quando me vê por aí, aponte para mim. Vá até mim. Me segure. Me segure o mais firme que puder. Se entrelace a mim. Me amarre. Me coloque entre tuas mãos. Abra um buraco no teu corpo. Me deixe dentro. Costure forte. Costure para que eu não possa mais sair. Me faça habitar tua escuridão mais densa. Deixe que meus pulmões se encham do teu hálito virulento, o mais vital purificante das asfixias que me acometem.

 

Se aproxime. Se aproxime mais. Venha para mais perto. Se esfregue em mim. Me penetre. Se misture a mim. Me seja, me seja o mais profundamente que puder. Cheire minhas vísceras. Coma minhas vísceras. Cuspa minhas vísceras.

 

Quero que me morda. Crave os dentes. Estraçalhe o que estiver a sua frente. Não há porque ter piedade. Mastigue minha carne. Dissolva minha carne com acidez nuclear da tua saliva.

 

Descanse sobre minhas feridas. Perscrute minhas feridas. As deixe bem abertas.  Vasculhe caninamente. Busque busque busque. Lá no fundo. Naquela porra de fundo escuro, irreversivelmente incurável, o ar pútrido e fedorento das essências secretas, inescrutáveis buracos nunca, absolutamente nunca, fechados. Com um dedo, vários dedos, frenéticos dedos, pedaço firme de tronco de árvore, barra de ferro em brasa, pedaço de hélice célere afiada, um mastro de navio transtornado, não sei, deixe essas feridas abertas, bem abertas, delas descendem minha vitalidade mais fatal. 

 

FRAGMENTO ONÍRICO-9

 

...Transformei-me num livro. Cada página minha era, antes de ser propriamente lida, acariciada por você, várias e várias vezes, e quando você se concentrava no que em mim estava escrito, sempre fazia caretas indescritíveis como se estivesse a reprovar-me... ‘assim! assim!’...e tal isso soava de sua boca, ecoava trelando pelas minhas sílabas; então, você levantou-se de uma estranha cadeira aonde sentava (digo estranha por que as pernas da cadeira eram tão finas quanto gravetos e flexionavam-se para onde você bem desejasse) e colocou-me numa gaiola...

 

QUATRO SONHOS COM D.
        

O primeiro sonho com D.

 

...você com a mão pousada em meu rosto. Eu estava aparentemente desfalecido. Você passava um pano úmido em meu rosto. Minha respiração era quase imperceptível. Seus olhos lacrimejavam. Vi você tirar-me a camisa e, cuidadosamente, dobrá-la em suas pernas, erguendo minha cabeça para pousá-la sobre seu colo...passamos a noite assim: eu semimorto e você em vigília, sussurrando, amavelmente, canções francesas em meu ouvido...pela manhã beijou-me os lábios, ergueu-se e deixou-me...olhou-me ainda, a beira da porta, usando ternamente os olhos num relance súbito e em outro, endurecia-os para dentro de mim, e través deles, avançava como trem impetuoso, pelos trilhos anímicos que se faziam um após o outro, em caminhos que se dobravam até se quebrar pela minha escuridão...a cíclica desse jogo dragou qualquer réstia de vida que poderia ainda existir em mim...e você se foi...

 

O segundo sonho com D.

 

...nossos corpos se grudavam, onde eu a tocasse, onde eu a beijasse, um pedaço de mim se ia e um pedaço de você ficava em mim...não poderíamos jamais parar; havia uma ânsia lancinante; as mãos os dedos pareciam milhares, multiplicavam-se... apalpavam desmedidos a pele, eram carnívoros, eram canibais; os poros eram como sulcos ávidos; nós, cobertos um pelo outro, ouvíamos a sofreguidão de nossos gemidos que estridulavam qual um aspirador de pó desgovernado...nos transformávamos cada vez mais num imenso vão, sem gestos mais que sombras...carinhos imersos em epiléticos movimentos, repetidos ao indefinido como  desejo agrilhoado debatendo-se contra si mesmo...desejo indissipável que  liberta...não restávamos um ao outro.

 

O terceiro sonho com D.

 

...você retirava com a língua inquieta o esperma de meu pênis, sugava-o com vitalidade, covando as maças do rosto, corrompendo o conjunto recatado do rosto...depois jogou-se a meu lado, puxou minha mão para entre suas pernas e eu, tornando bem ereto um dos meus dedos, enfiava em sua vagina adentrando devagarinho os grandes lábios molhados do seu inflamado sexo; de tal forma você se excitava erguendo os quadris, balançava-os no ar e depois me puxava com violência pela nuca na direção de sua boca entreaberta. Parávamos. Você ficava com o olhar suspenso, rindo estupidamente de forma comedida como se estivesse envergonhada, atirando para o lado a cabeça como se procurasse algum som perdido no vácuo. Depois um estupor. Meia hora paralisada enquanto meu dedo entrava no seu cu. O dedo que acabara de entrar no seu cu, eu o colocava na boca, quase que involuntariamente ávido; primeiro a cutícula das unhas donde se desprendia fragmentos escuros e amargos, depois o dedo inteiro e girando. Algo me atormentava. Observei o quarto, as tensões entre as paredes, o teto baixo. Sufoquei. Você ainda permanecia alheada.  Afastando-me, comecei a esfregar minhas mãos nas paredes. Numa gradação rítmica minhas mãos faziam um chiado violínico a mim. Era uma sonoridade que ganhava amplitude pelo quarto, debatia-se por todo o quarto, zombava do hirto nas paredes, aliciava suas instransponibilidades. Vi você despertar de si. E, como que numa comunhão inquebrantável, se ir ao outro lado e esfregar suas mãos nas paredes, assim como eu. Juntos nossas mãos eram vibrantes; soava uma música ávida de pátios, pátios sem fim, pátios planos dando a horizontes esquivos, e essa música era forte, e nossas mãos eram as matrizes sonoras de tal música, e o quarto tremia, não iria ficar de pé, uma pétala que se soltasse duma rosa ou um bocejo matinal dum recém nascido poderiam arrasar aquelas paredes; nós dois presos dentro do quarto pensávamos em nos misturar as ruínas daquele lugar fétido. 

 

O  Quarto sonho com D.

 

...depois um corpo debruçava-se sobre mim, se enroscando em meus frágeis quadris, apertava-me sem sentimento algum, parecia realmente apenas enroscado em mim. Estávamos como que boiando por um espaço deslocado, que mantinha uma indefinida ligação conosco, era um espaço que na verdade parecia ofegar e que a qualquer momento iria nos expulsar de si. Nossos gestos eram o fumo da intenção de nos concretizarmos, subtraídos de uma poderosa  precariedade da consciência, esquivos a rumos que não fossem inéditos às descobertas dúbias de nossas condições...e havia aquele espaço entre nós, aquele espaço instransponível, onde titãs eram carcomidos por enxame de bestas, onde sereias cuspiam ferrugem nos rostos de duendes, onde gafanhotos bípedes invadiam sexualmente cidades inteiras, onde bicicletas de sete pneus atropelavam formigas entediadas...havia aquele espaço oco, onde por mais próximos que estivéssemos, éramos na verdade inalcançáveis um para o outro...e ali, espremidos, misturados aos fumos ordinários de cada um, ao lixo etéreo de cada um, entregues a sutilezas impiedosas que deslocadas tornam pó mesmo a incompreensível tessitura universal; e ainda a ordem, o caos, os engendros divinos e humanos...à beira de uma liberdade colapsa, sempre antes, sempre tarde, nunca exato, sempre fugidio, resvalo do que nunca será...nossos sexos se formaram por último, ainda que sintomas de expoentes endurecidos no útero de Deus...

 

FRAGMENTO ONÍRICO 44

 

...Estava cansado. Encostei meu rosto em um muro. Direcionei o olhar para a distância. O muro parecia acompanhar toda a extensão do caminho. Todo olhar que se lançasse adiante se misturava ao condensado fumo disperso no horizonte. Sobre o muro se sustentavam aqueles que já não tinham pernas para o caminho. Eu ia indo, porque ali, nenhum impulso ou desejo antecipava-se ao sentimento de ir. O caminho estreitava-se em algumas saliências mais altas do terreno e era justamente no início da subida onde se concentravam bastante os cansados, cuja visão só me era permitido perceber difusas silhuetas encostadas pelo muro. Ia caminhando e percebendo que, desde a subida menos íngreme às mais altas, o número de cansados iria diminuindo, mas um pouco mais alto, voltando para trás a cabeça, vi que, de subida em subida, o número de cansados formava facilmente uma multidão inumerável.  Tanto nos maiores bandos de silhuetas quanto nos menores, a condição comum era ter no muro o sucedâneo para as forças das pernas e continuar pelo caminho. E eu também observava que onde se concentravam os maiores bandos o muro exibia um maciço mais denso, um concreto talvez intransponível. Poderia ser que tanto mais o muro seria intransponível quanto mais repousassem os rostos os que por ali passavam? O contrário seria verdade? Não era evidente tal relação, mas poderia ser válida. Não me surpreendi com esse possível achado, deixei-o latente, pois eu, a cada subida, tinha a recorrente preocupação de minhas pernas já não possuírem a força que correspondia ao esforço da caminhada.
O caminho não permitia qualquer promessa de fim.  O muro implacavelmente hirto lançava-se para mais perto, mas eu o evitava. Nas minhas pernas os músculos se comprimiam exaustos. Já era raro ver bandos de silhuetas naquelas alturas. Senti-me completamente só. Naquele momento não era somente o vacilo das pernas e a prontidão do corpo para o chão que me assolavam, mas as inquirições que pareciam nascer dessa situação. Um homem cansado e só, lançado em um caminho sem fim, circunscrito por um muro infindável. Certamente, tem-se que parar no momento desses, dando vazão para inúmeras inquirições, apostando mesmo em cálculos delirantemente lúcidos. E por quê? Pensava. Ora, o caminho tornara-se intrafegavelmente chato e o muro, de uma perspectiva mais atraente, se ultrapassado, revelaria algo, se não menos cansativo, diferente. É preciso parar e se fixar no muro, delegar aos olhos a incumbência única de investigar as improváveis fissuras do maciço. Estando certo que não poderia perder muito tempo com essas necessárias incumbências, me ocorreu atirar-me contra o muro, cavar-lhe uma fissura por onde ao menos um dos olhos enxergaria algo para além daquele impedimento. Para isso, é imprescindível que não haja mais nada a fazer e que as alternativas sejam diluídas e somadas à única grande questão: ou se atinge o alvo ou se é por ele mortalmente atingido. Nesse momento eu já havia me atirado.

 

POEMA

 

Estou costurando um novo corpo.
Por enquanto, ainda posso descrevê-lo,
depois
imenso, imensurável, infinito,
será preciso encostar os ouvidos nas páginas em branco e sentir o chão por debaixo dos pés ruir-se.
Na verdade, buscava uma roupa que me tornasse infalivelmente nu.  Substituir todos meus ossos por uma melodia que me deixasse íngreme, e que meus passos ondulem pelos ares e o olhar engravide-se de tentáculos sedentos.
O maior órgão do meu corpo é o silêncio,
abrindo frestas na minha pele onde guardo
os fugidios objetos que não cabem no cotidiano.
Pouco a pouco, estou crescendo,
e, no final, ainda que não findo,
não terei nada em minha alma.

 

UMA ALMA LIVRE

 

Eu coleciono pontos sublimes sobre a pele de uma mulher.
Atiro pétalas sobre seus olhos escuros.
Estico um de seus cílios até atingir toda a extensão do céu.
Meu sonho: contornar seus lábios no momento de um sorriso.
Ela me vê chegando de muito muito longe, acha-me longínquo,
Eu descanso sobre seus seios, tão cansado, tão cansado.
A vida nos trouxe até aqui, eu digo,
Até nossos corações balbuciantes,
Até esses segredos que escorregam de nossos olhos,
Até essas mãos enlaçadas,
Até esses céus que explodem em nossos corpos.
Deixa-me dentro do teu hálito,
deixa-me exposto sobre a lua que trazes nos olhos,
deixa-me como uma flor repousando em tua incompletude,
como uma flor que poderás, em todos os momentos,
sentir o perfume, inesquecível perfume.
Guarda-me em teu abraço noturno antes do sono,
ama-me como teu gato preferido.
Não me deixa partir se acaso uma lágrima deslizares do teu rosto,
não me deixe.
Ouve-me: entrego-me a ti.
E, se por acaso, me avisas: cuidado!
E, se por acaso, me avisas: tenho medo!
Eu te digo:
guardo em mim um bom espaço para o inesperado de você.

 

O LEITOR EXAUSTO

 

De novo ele pegava mais um livro e se enterrava sobre a pequena mesa para ler. Novamente, como tantas vezes desde sua infância, havia aquela maneira de folhear livros como quem toma distância para saltar. Lentamente as páginas soavam entre seus dedos atenciosos. Lentamente, página após página, hora após hora, extraviando-se. Itinerário pretensioso camuflado de inércia. Desejo de evasão que carrega uma elipse sombria. Naquele momento e somente ali, tudo que não caberia num dia e que, por certo, nunca caberia em séculos, subitamente cabia em seus bolsos.

 

Nesta noite a febre estava bem espalhada pelo seu corpo. Um manto invisível de calor. Gravidade na dobradura dos braços e pernas.  A cabeça erguida, bem erguida para além da noite por todos os lados. Olhos tremendo em meio ao acirramento de realidades inconciliáveis, pé ante pé, linha ante linha, tomou algum trem célere por trilhos descarrilhados. Saiu inadvertidamente pela porta ou pelo teto ou pela fechadura do buraco da agulha, com a qual costura esse novo corpo.

 

Que corpo?

 

(Por enquanto, ainda pode descrevê-lo, depois - imenso imensurável infinito- será preciso encostar os ouvidos nas páginas em branco e sentir o chão ruindo por debaixo dos pés.)

 

Era um livro apenas, mas ele se debatia sentado na cadeira. Era um livro apenas, mas seu corpo era atirado contra a parede como se houvesse ali uma força invisível e devastadora. Agarrou a primeira moça de olhos róseos que conseguiu pressentir naquela escuridão. Dançou com ela. Só podia dançar com ela. Nada o faria parar de dançar. Não sairia mais de perante aquela moça de olhos róseos que não piscavam.

 

Voltando a folhear com irregularidade as páginas do livro, o pondo bem perto dos olhos como se míope, mas atento às frestas que abriam inestancáveis de sonhos, ele conservava sólido silêncio.
 

As rajadas de sonho faziam seu corpo tremer. Ele nunca mais sairia dali. A viscosidade elétrica das páginas o mantinha inominável, atravessando o mundo dependurado naquele trem pulsante que parte sem parar do seu coração.

 

Desde então, mesmo que o dia papagueia-se intransigente o mistério dos mortos ou ruminassem os muros as sequelas das águas, do outro lado, da outra margem, portas, janelas e estradas bifurcadas eram membros irrejeitáveis em seu novo domicílio fantástico: si mesmo.

 

PARA NÃO SER INCOMODADO POR IDIOTAS

 

Não se identifica um idiota com facilidade. Ao contrário do que se pensa, idiotas são raros. Ninguém sabe exatamente de onde provêm. Há uma maneira deles, só deles, de serem efetivamente onipresentes e onde quer que se olhe, quando menos se espera, eis um idiota bem diante de você. Eles pouco sabem de si mesmos. Tem certa facilidade em nada dizer mesmo conversando por horas. Agradam em qualquer mesa de bar, aniversários, formaturas ou quaisquer situações em que estejam aglomeradas muitas pessoas. Rindo, rindo eles criam um mundo só deles. Falando nisso: o som dos sorrisos dos idiotas é diferente. É mais intenso, sempre demora mais, é um estardalhaço bem demorado. Chega a contagiar. Mas não se engane, sempre esteve ausente a compreensão que poderia esclarecer como se chega a ser um idiota e assim oportunizar a qualquer um fazer parte dessa raça maravilhosa, desse grupo privilegiado e que são os únicos que podem afirmar, sem qualquer engano, que chegaram a ser idiotas por conta própria, e talvez, contaram com algum mistério inaudito que cabe apenas a indivíduos selecionados por um sublime filtro. Ser idiota deve ser muito legal. Como podem? O mundo de cabeça para baixo (e talvez o mundo sempre tenha sido assim) e os idiotas conseguem gozar sempre da mais plena felicidade. Os idiotas são reverenciados. Têm os melhores empregos, os melhores carros, as mulheres mais bonitas e inteligentes (neste último caso, pra se fazer justiça, é preciso dizer que a genuína idiotice extrapola os Gêneros). Malditos idiotas! Está tudo em ruínas, tudo destruído, tudo repousando na mais incorrigível falta de sentido, mas mesmo assim os idiotas seguem adiante, enchem o peito, erguem a cabeça, acreditam  em coisas que só idiotas, na mais absoluta idiotice, poderiam acreditar sem maiores problemas para si. Na verdade eu tenho inveja dos idiotas.  Uma vez fui abordado por uma turma de idiotas, (a verdade é que quando se juntam são invencíveis) e mais hora menos hora, os idiotas se incomodam com quem não é idiota. Os idiotas se aproximam. Eles te olham bem de perto. Eles querem saber algo de você. Eles querem diminuir o espanto. Querem qualquer coisa que os faça seguros, porque neste momento, você, que não é um idiota, pode vir a se tornar um idiota, pois, enfim, é legal ser idiota. Mas eu digo, sem medo: você que não é idiota, pode vir a ser idiota vez em quando. É como abrir uma janela, você clareia por dentro muitas coisas. Você consegue até ter algumas certezas que se estampam, quase que naturalmente, sobre o contorno do seu riso, certezas que não vão ser diluídas nos primeiros raios de sol do dia seguinte. Ser idiota! E como isso tem passado pela minha cabeça ultimamente! E como seriam mais fáceis as coisas para mim! Como me causam inveja! Talvez eu devesse mesmo me juntar a esse selecionado, me tornar especial de alguma forma, coisa que aqui, fazendo parte da maioria, não há chances. Preciso pertencer a algo único uma vez na vida. Shiiiiii! É preciso ser prudente e não ser escutado. Tenho que me controlar. Neste exato minuto, eu olhei de relance. Vocês não vão acreditar! Há um grupo de idiotas bem aqui, bem perto de mim. Estão brilhando como sempre. Eu começo a caminhar na direção deles. Eu acho que vou ceder, vou apertar a mão de um deles. Vou ser um idiota, vou me permitir, vou sufocar essa minha constante falta de ar, que se fodam de vez os desarcertos da minha alma, vou embotar minha imaginação! Preciso de paz! Chega! E meu Deus! Os idiotas já me receberam! Já estou entre eles! Como foi fácil! Eles são legais, são sim! Não há dúvida! Nova vida! Nova vida! Estou um pouco sobressaltado com tudo isso! No entanto, algo ainda persiste. Algo ainda me incomoda, tenho que confessar: minha boca é fora do lugar e me deixa sem graça quando eu tento rir no meio dos idiotas.

 

Kléber Lima ((Brasil, 1984). Narrador e poeta, inédito em livro.

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Edição de Janeiro de 2014


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