ANO 3 Edição 19 - JANEIRO 2014 INÍCIO contactos

Julio Mendonça


NO POEMA, NÃO SE ESTÁ SEGURO: UMA LEITURA DE TARSO DE MELO

É incomum uma poesia com temática social que não incorra no erro de sucumbir no empenho com o assunto em detrimento da tarefa poética de transformar nosso olhar sobre as coisas desideologizando a linguagem. Em poucas palavras, é mais freqüente que o engajamento na expressão do assunto faça descurar do modo da expressão. Pelo menos desde seu livro Carbono, de 2002, Tarso de Melo tem realizado uma poesia com forte viés social baseada num trabalho meticuloso com a palavra, contribuindo para desautomatizar nossos modos de dizer o mundo.

 

Essa articulação acurada entre assunto e forma de expressão tem um de seus melhores exemplos, na obra de Tarso publicada até agora, no poema “Seguro”, do livro Exames de Rotina, de 2008. Um poema de apenas seis versos, marcante pela economia e concisão:

 

SEGURO

 

na memória, a música que o deixa em casa;
no carro, o ar com que domina o clima;
no clube, nos restaurantes, no condomínio,
no shopping, a porta que limita a comunidade
àqueles com a sua roupa, gestos, gostos;
assim o caracol, mesmo fora, sente-se em casa

 

Uma primeira leitura do poema direciona o sentido do título para o âmbito da segurança privada/pública no ambiente urbano moderno; a “porta que limita a comunidade”, multiplicada em diversos locais fechados para que o personagem oculto do poema se sinta “em casa”, não deixa dúvidas sobre isto.  Mas, a leitura mais atenta do poema enseja uma percepção bem mais rica de implicações do tema e do modo como o personagem oblíquo do texto percebe a questão.

 

Chama a nossa atenção o fato de que, dos seis versos, os quatro primeiros têm como base a figura da anáfora, no caso com o uso de locuções adverbiais de lugar: na memória, no carro, no clube, nos restaurantes, no condomínio, no shopping. O tema das tensões sociais é tratado no poema com base na relação entre posição social e ambientes freqüentados pelo sujeito. É como se, em termos plásticos, a figura – no caso, o personagem de quem se fala (“o caracol”) – se definisse pelo fundo, pelo seu ambiente. O que está em questão é a relação entre interioridade/exterioridade, dentro/fora, privado/público.

 

O poema afirma no primeiro verso e reafirma no último o desejo do sujeito oblíquo de sentir-se “em casa”. Tendo como referência sua vocalização, os elementos sonoros – a seqüência de consoantes nasalizadas nas palavras “memória”, “domina”, “condomínio”, “limita” e “comunidade” – contribuem para a idéia de intimidade. Por outro lado, o único momento em que os de fora – os que não fazem parte da intimidade desse sujeito – são sugeridos, isso se dá pelo adensamento da presença de consoantes oclusivas surdas no quarto verso: “no shopping, a porta que limita a comunidade”. A única referência aos de fora é o limite da porta, sendo esse significado reforçado no plano vocal com o uso de fonemas de maior impacto sonoro. Não há, no texto, qualquer elemento que nomeie a razão da insegurança; ela é apenas sugerida pela “porta que limita a comunidade”. Isto permitirá que nossa interpretação amplie o alcance do tema da insegurança para além da condição – notória nos tempos atuais – da violência física. Essa dimensão ampliada ou aprofundada da sensação de insegurança – associada aos efeitos psicossociais provocados pelo mal-estar civilizatório – está presente na poesia de Tarso em outros momentos, como por exemplo no verso “tudo se comporta como ameaça, indício, grade” (no livro Planos de Fuga e outros Planos, p.8).

 

Mas não caminhemos muito rápido. Não se trata de deixar a coisa vaga, amorfa; mesmo sem nomeá-la, prevalece no poema seu tratamento direto. Observemos, ainda, que o limite que a porta estabelece reserva o espaço para aqueles “com a sua roupa, gestos, gostos”. Nessa seqüência de três substantivos também vemos o significado verbal reforçado pelo aspecto vocal. A caracterização daqueles sujeitos aceitos dentro dos limites estabelecidos pela “porta” se faz com esses três substantivos que cumprem a função de índices de status social: a roupa – um índice material de status; os gestos – índices comportamentais de status; os gostos – índices culturais de status. Na disposição dos três substantivos temos uma graduação dos índices que vai do objetivo para o subjetivo, graduação que corresponde a um gradual fechamento das vogais nessas mesmas palavras: “roupa, gestos, gostos”.

 

De fato, o movimento fundamental que as situações descritas sugerem no poema se dá nesse sentido do fechamento. Esse movimento tem sua síntese no último verso: “assim o caracol, mesmo fora, sente-se em casa”. Nesse último verso, a explicitação da tensão entre fora e dentro, público e privado. Aí reencontramos a expressão “em casa”, presente no primeiro verso, a enfatizar o desejo do sujeito objeto do poema; o texto abre e fecha com essa expressão de um desejo de conforto. E o que faz com que esse sujeito, “mesmo fora”, sinta-se em casa está condensado na imagem que reverbera o tema da insegurança hiperbolizada no poema: o caracol. Essa imagem se refere a esse sujeito obliquamente sugerido nos versos anteriores. Ela sintetiza e iconiza  as características desse sujeito. O caracol é um molusco gastrópode de concha calcária espiralada, ao qual estão associadas idéias de um ser auto-suficiente, vertido para dentro e de movimento lento e rastejante. No mesmo campo semântico, temos a palavra caramujo que, no registro figurado, é usada com o sentido de indivíduo arredio e introvertido. Esse sujeito a que se refere o poema é comparado a um caracol, um ser vivo cujo casco é sua própria casa – um ser remissivo a si mesmo. Além disso, caracolar é mover-se em círculos, dar muitas voltas ou fazer ziguezagues. Os indícios que podemos perceber no texto sugerem que o sujeito em questão é um personagem de classe média, uma atualização da tradição da bestialização do burguês na literatura, aqui atenuada na imagem deste caracol que rasteja, permanentemente escondido em sua casa-casca móvel – representação do burguês que tenta desviar-se das contradições sociais.

 

Temos então que, no plano verbal, o modo como substantivos como memória, casa, carro, clube restaurantes, condomínio e shopping remetem às idéias de limitação e fechamento encontra sua síntese na metáfora do caracol. No plano vocal, essas idéias estão apontadas no fechamento das vogais na seqüência de consoantes oclusivas presentes nos versos: “no clube, nos restaurantes, no condomínio,/ no shopping, a porta que limita a comunidade”. No plano visual, contribui para essa ênfase expressiva o uso das vírgulas no início dos quatro primeiros versos e no meio do último. O uso das vírgulas, associado à presença das anáforas, parece mimetizar uma situação de emparedamento/enclausuramento. Também é um elemento visual importante a seqüência significativa de letras s nos dois últimos versos, associada ao movimento caracolar e ziguezagueante e à idéia do burguês que tenta desviar-se dos problemas e contradições. Nessa linha de leitura, é irônico que, no último verso, a ressalva “mesmo fora” esteja enclausurada entre vírgulas.

 

Chamei a atenção, no início, para o uso da anáfora no poema. A importância do papel da anáfora é realçada quando pensamos na origem etimológica do termo: (do grego) ana – “para trás” + phorá – “ação de levar, transportar”. Esse sentido de “levar de volta”, “repetir”, se coaduna com a ação do sujeito-caracol do poema. A anáfora, de fato, é um recurso expressivo bastante utilizado e em diferentes situações, tanto no uso coloquial quanto na linguagem literária. Em poemas diversos essa figura de linguagem pode assumir funções distintas. No poema de Tarso, ela reforça essa imagem do sujeito que se fecha, que remete a si mesmo, sugerida no plano semântico; basta lembrarmos, no primeiro verso, o recurso à “memória” que o leva de volta ao conforto de uma música já conhecida ou, no segundo, a referência ao ar condicionado do automóvel que mantém o clima sob controle, entre outros exemplos da preferência pela repetição de condições domesticadas e familiares.

 

Assim, vamos percebendo que o plano verbal, o vocal e o visual oferecem elementos que contribuem para a orquestração do poema. Qualquer elemento pode ter função significativa. Se vivêssemos em um outro tempo, passado ou futuro, e nada soubéssemos sobre a insegurança e o desejo de confinamento de setores da sociedade, hoje, na expectativa de se por à parte dos problemas sociais mais complexos e contundentes, ainda assim, o poema deveria nos oferecer, nele mesmo, elementos inter-coerentes que o tornassem compreensível. É claro que, dada a nossa tendência para a semiose ininterrupta, corremos o risco de excesso de interpretação.

 

Um poema inventa suas próprias regras. Diante dele e ao percorrê-lo o leitor se depara com o frescor e a estranheza de uma linguagem desconhecida. Diferentemente, a língua é o território que ele conhece, mesmo quando andou em poucos dos seus caminhos. No poema, esse território se apresenta a ele alterado como se tivesse tido um outro uso. A linguagem é esse novo modo de usar que o leitor tem que aprender ali, no ato da leitura. Essa linguagem tensiona a língua. Na língua, o familiar, o conhecido; na linguagem, a surpresa. A poesia de Tarso parece identificar o inesperado da linguagem poética com as inquietações da vida contemporânea: “nada acena aonde ir, mas impede de ficar” (Lugar Algum, p. 30).

 

No poema também constatamos uma tensão entre fora e dentro, abertura e fechamento. Mas, nele, essa tensão não conduz a uma acomodação à linguagem poética – como um ambiente semiótico ensimesmado.  Essa linguagem desestabiliza a língua e traz para o mundo do poema os problemas do mundo. A linguagem do poema oscila entre crítica e críptica. No poema, não se está seguro.

 

Julio Mendonça é poeta, doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) – São Paulo, especialista em Gestão Pública (UFABC) e analista de cultura na Secretaria de Cultura de São Bernardo do Campo. Foi diretor do Departamento de Ações Culturais de São Bernardo do Campo e consultor do Pólis - Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais. Tem publicado poemas e outros textos em veículos como o Suplemento Literário de Minas Gerais, o almanaque Atlas, o Jornal Dobrabil, a Folha de São Paulo, e as revistas Artéria, A Cigarra,  ARTEunesp e Celuzlose. Participou dos livros “Cidades: Identidade e Gestão” e “Libro verde para la institucionalización del Sistema de Fomento y Desarrollo Cultural de la Ciudad de México”. Organizou o livro “Poesia (Im)Popular Brasileira” (Editora Lamparina Luminosa, 2013).

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