Poesia & Conto

Um Carnaval micareta

A pré-publicação deste conto nas páginas da InComunidade antecipa sua edição no livro ‘Corpo Estranho’, de Danyel Guerra, que tem publicação prevista para a primavera de 2021.

 

***

 

Alain desenlaça, decidido, o amasso da frenética Romy. O que se passa, querido? Darling, o que se passa daqui a 33 segundos é o bus dos 33 minutos, não posso perdê-lo…! Ele corre o zíper, ajusta, no orifício certo, a fivela prateada do cinto, selando a separação com um beijo fugaz nos lábios Scarlatti da namorada. E sai disparado rua afora. Se o perder, vou tomar um chá de cadeira de pelo menos 33 minutos, acelera, aconchegando o cachecol black & white ao pescoço. Na parada, com apenas 33 segundos de atraso, um 33 se detém perante o solitário passageiro.  

 

Ele acomoda-se num banco da retaguarda. Nas imediações se senta um casal com um menino, que supõe ser filho de ambos. No mínimo pitoresco é o detalhe de, tanto o suposto pai como o garoto, exibirem brincos idênticos na orelha esquerda. Em compensação, a suposta mãe tem as orelhas despojadas de qualquer adorno desse jaez.

 

Cena fotografada, retira do bolso de trás da jeans um exemplar de ‘lluminations/Une Saison en Enfer’, de Arthur Rimbaud. Presente de Romy nos seus 33 anos. E folheia até à p.33. “Mês amis, je veux qu’elle soit reine!” brada um homem soberbo. “Je veux être reine!”, confirma aquiescente uma mulher orgulhosa. Ofuscado por tão vulgar “realeza”, ele fecha o book e se apercebe que no último banco viajam agora três passageiros tão joviais como buliçosos, vestidos com momescas fantasias.

 

Dois rapazes de porte galante disputam a atenção –e os favores- de uma moça loura, de eslava aparência, vistosa, apetecível, maliciosa q.b., postada horacianamente ao meio. Do ponto de vista estético, sua mais notória evidência será a silhueta longilínea de uma slim girl que vestirá manequim 33. As pernas, para lá de exageradamente aaallltas, são o pormaior que belisca a estupefata atenção do observador.

 

Além da atração pela donzela, em comum os mancebos aparentam não ter mais nada. Um deles blasona ares de falastrão e bufão. O outro não dissimula estar possuído por uma languidez romântica, patologicamente ingênua. Não hesito em apostar que ambos se imaginam deitando e rolando com a inexpugnável favorita no esplendor do jardim das delícias. De modo exclusivo, sem misturas, note-se. Ela, que depressa intui ser tão esperta quanto volúvel, esquiva-se às cantadas, grávida de sobranceira superioridade. Pudera. Ao lado da sósia da tenista Daniela Hantuchova, os meninos, calçando 33, têm a envergadura de raquíticos nanicos.

 

Um tanto enfadado pelas felações, perdão, pelas falações do trio, Alain volta a folhear o livro e para na p. 133. Seu olhar ilumina o poema ‘Noite do Inferno’. “Engoli uma notável poção de veneno- três vezes seja bendita esta riquíssima ideia- as entranhas ardem-me.” 

 

A freiada ríspida do bus desvia seus olhos desse ritual ardente e letal. Os três jovens descem na parada junto à ponte sobre o rio que vem de longe e Alain decide segui-los. 

 

Sem demora, interpela o Arlequim, a Colombina e o Pierrot. Onde é que vocês vão assim fantasiados? Ora, vamos a um baile de Carnaval, responde um solícito Pierrot. Mas o Carnaval já se foi. Estamos em plena Quaresma. O relógio de vocês deve estar atrasado, contraria. Não, o seu é que deve andar adiantado, replica um veemente Arlequim. E enquanto atira uma mão cheia de confetes sobre o indiscreto, uma categórica Colombina decreta. É Carnaval sempre que uma mulher e um homem quiserem. Nem que seja no dia 30 de fevereiro. Divirta-se! 

 

Segregado com os requintes de uma irônica insolência, o repto da aaaallllltiva  “pombinha” é entendido por Alain como um alarde de nonsense tão peculiar das partidas dos folguedos de Momo. Ela só pode estar de gozação comigo, comenta. Ao mesmo tempo confirma ser dia 15, idos de março, consultando o relógio que encima o prédio do Banco de Forros e Aforros.

 

Ao longe, o sino da igreja matriz faz ressoar a chegada da primeira hora da madrugada. Cenário forrado de um espesso nevoeiro, a cidade, que o imigrante adotou há menos de um ano, não dorme, sentindo evolar-se no ar álgido um aroma muito caraterístico. Caminhante solitário, em direção ao quente aconchego do lar, Alain puxa até ao cimo o ziper do blusão negro e aproxima-se do quartel dos bombeiros voluntariosos. Inquieta-se ao escutar uma clamorosa vozearia, captando a azáfama de dezenas, de centenas de pessoas que entram e saiem, entram mais que saiem. 

 

Tanta gente, o que é que está pipocando aqui, questiona-se. Na fachada do edifício, consulta um cartaz anunciando uma evento beneficente. Se for uma festa semelhante aquela do filme do Milos Forman, eu topo cair na empolgação. 

 

Esta até pode ser burlesca como a de ‘Horí ma panenko’, mas não é, de certeza, borlesca. Na bilheteria, Alain entrega dez extintores, recebe um ingresso e adentra no salão. Não consegue suster a ansiedade que o atravessa. Tem de extinguir, num sopro, aquela curiosidade tão apanágio dos trintões com resquícios de adolescência. Caramba, a festa está pegando fogo, por sorte estamos num quartel de bombeiros, ironiza, divertido. 

 

Essa ebulição lhe sugere uma vontade indômita de beber. Tenho de engolir uma notável poção de veneno, decide,  aproximando-se do bar.

 

Sirva-me, por favor, 33 cl de cerveja. Mas não quero a lourinha estupidamente gelada, pede, encostado ao balcão. Cearense de Aracati, o barman entende o pedido e serve uma Super Bobocka, no capricho. 

 

Que muvuca, amizade! A sala está lotadérrima. Todo mundo veste fantasia. Seria um baile de Carnaval se ele já não tivesse passado, entusiasma-se. 

 

Companheiro, até é um baile carnavalesco, o baile da pinhata. Pinhata? Sim, é parecido com os bailes da micareta lá do Brasil, compara o garçom, tisnado pelo sol fulgurante de Canoa Quebrada. Esta festança é para angariar verba. O corpo de bombeiros carece de mais um carro de combate aos fogos de artifícios e desperdícios do verão, revela, imbuído de genuíno espírito de missão..  

 

“Quanto riso, oh quanta alegria…”, cantaria o Zé Kéti se aqui estivesse, usando sua Máscara Negra. Metros e metros de serpentina riscam, cromáticas, o firmamento do recinto. Gotas e gotas de confetes são lançadas nos corpos empolgados dos foliões. As três horas da madrugada, quase nada, chega ofegante e no salão já não cabe nem um alfinete.

 

 

Junto ao bar, bebericando mais 33 cl de veneno, Alain volta seu olhar para um par que dança agarradinho, como se estivesse colado com Araldit. O cavalheiro veste garboso a fantasia do justiceiro Zorro. A dama consegue que o donaire que exala dos seus gestos -prefiro designá-lo como malemolência-, não suavize, não enfraqueça, não anule, o carisma da impetuosa, intrépida, arrojada Kathy Kane, trajando uma fantasia colorida de rouge et noir. O negro do uniforme de super heroína harmoniza-se com os fulvos e longos cabelos em revolta ondulação. 

 

Senhoras e senhores, atenção, aproxima-se a apoteose da festa. Vamos conhecer o rei e a rainha deste Carnaval beneficente. A voz metálica do locutor interrompe a música e anuncia o início da abertura da pinhata. São 33 os casais candidatos à coroa real. Alinhem-se à roda da pinha e comecem, na sua vez, a puxar as suas fitas, desafia.

 

Dezenas de fitas multicores tremulam, agitam-se, são esticadas em frenesi, por sucessivos casais. Pendendo do teto, no meio do salão de baile, a pinha resiste impávida aos esticões. Chega, contudo, o momento em que o Zorro e a Batwoman puxam as fitas de cor magenta e a pinha começa a ceder e, por fim, capitula. Do seu prenhe bojo despencam no soalho, dezenas e dezenas de frascos de lança-perfume. Sem demora, os brincalhões começam a batalha da vaporização, à imagem do sacristão que com um hissope salpica água benta sobre os fiéis…

 

Temos rei, temos rainha, exulta histérico o locutor. Uma grande salva de palmas para o Sr. Francisco Beleza e para a Senhorita Cátia Toledo. Tenham um feliz reinado.

 

Não acredito, o rei é o Chico Beleza e a rainha é a Cat, não é possível, espanta-se Alain. E durante a entronização, os novos monarcas são ovacionados por um séquito de vassalos toldados pelos vapores etílicos.  Salve a rainha! ‘Bate-me uma’, batwoman, desatina um ébrio folião.

 

Helius ainda dorme a sono solto no dorso de um horizonte nimbado de geada, quando Alain abre cambaleante a porta do apartamento. Já passa das cinco da manhã, surpreende-se. Sacudindo da cabeça as últimas gotas de confetes, ele não demora a acionar  o pick up, botando a rodar um 33 rpm da música ‘Manhã de Carnaval’, na versão cantada pela Nara Leão.

 

 

 

Recostado na poltrona, bebendo 33 cl de um chá das 5 da manhã, ele volta a folhear o dileto Rimbaud, iluminando a inexorável p. 33. Nem o Jean Arthur adivinharia que seriam coroados o Chico, dono da boîte ‘A Gata Assanhada’, o dancing mais in..fernal da cidade, e a Cat, a pussycat mais cool do honorável estabelecimento. E na sua plebeia condição, o proxeneta e a meretriz foram rei e rainha nessa noite, madrugada e manhã de um Carnaval micareta*. A insolente Colombina tem (quase) toda a razão. É Carnaval também sempre que um rei e uma rainha quiserem.

 

*Glossário

 

  Muvuca- multidão

 

  Micareta– assim se designa no Brasil, o “Carnaval fora de época”. O nome é uma aportuguesação de Mi-carême (meia-Quaresma), uma festa carnavalesca, originária de França, realizada na quinta-feira da terceira semana da Quaresma.

 

Momesco– relativo às folias de Momo, o rei do Carnaval.

Danyel Guerra

Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu em São Sebastião do Rio de Janeiro, no Brasil, num dia de Vênus  do mês de novembro, sob o signo de Escorpião. No ano em que Agustina Bessa-Luís publicava ‘A Sibila’. Guerra tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

São de sua autoria os livros ‘Em Busca da Musa Clio’ (2004), ‘Amor, Città Aperta’ (2008), ‘O Céu sobre Berlin’ (2009), ‘Excitações Klimtorianas’ (2012), ‘O Apojo das Ninfas’ (2014), ‘Oito e demy’ (2014), ‘O Português do Cinemoda’ (2015) e ‘Os Homens da Minha Vida’ (2017).

 

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