Cultura

Tá calado, Zé! | Gabriela Pacheco

Meti no papelito uma porção pouca de tabaco. Meio cigarrito daria o investimento de tempo e saúde. Importa-me cá esta última evidência.

 

Vou pensar-te neste bocadinho. Mentira. Não há bocadinho em que não te pense.

 

Gostava de saber a data da minha morte para marcar contigo um repentino encontro, meio alvoraçado e estranho. Uma coisa sem lógica, de engenho duvidoso, pelo descabido de um encontro depois de anos a fingir esquecimento. Não! Antes de saber a data precisa não tem o encontro o mesmo efeito, por nunca me permitir dizer-te o que te diria em caso de fôlego decrescente. Servia o dito para te confessar o invejoso que fui a vida inteira. Do padeiro e da padeira, do Zé dos correios, da Ilda das flores. Do Fausto do autocarro é melhor que nem saibas, foram mais os dias de inveja que os outros. 

 

Um dia apeteceu-me gritar ao Zé dos correios, mandar-lhe as bolas de farinha e água que tinha comprado aos outros dois de quem também me dá a invídia. Disse-me que lhe dava o trabalho: aborrecimento, nada de mais ou de bom! Que o trabalho não lhe dava nada de bom. Como ousou ele dizer-me isto na cara, com aquela leveza quase maquiavélica? Velhaco! Disse-lhe, pois é, os trabalhos têm disso. Fartam. Ou muda-se de mulher ou muda-se de trabalho, agora com os dois toda uma vida é viver num casulo dentro de uma floresta.

 

Foi a porcaria que me ocorreu dizer-lhe, não podia oferecer-lhe a verdade.

 

Nesse dia, meti várias porções em vários papelitos a ver se queimava os nervos. Confundimos os pulmões com os nervos, nestes casos.

 

Tem a decência de te calares, Zé! De sorrires todos os dias e de te levantares com a maior felicidade de todas pela possibilidade de, pelo teu posto de carteiro de assento, a ver todo o santo dia a espreitar o apartado. Sabes as vezes que alguém lhe escreve, as contas recebidas, o frenesim da morada. Recebes os bons dias com o sorriso maior de todos. É de poucas palavras, mas de um sorriso que as devora. E não só sou eu que digo isto, ouvi-o de um par de bocas.

 

A cobiça que faço ao teu trabalho, Zé. Ao teu e ao de toda a gente que a vê passar, que sabe dos afazeres onde está metida. Se acordou de pés de fora, se arranjou o cabelo. Se está com roupa de praia ou daquelas reuniões que nem sei se as tem. São migalhas que encheriam a vida de um apaixonado que já se assumiu eterno. É isto que é o amor da vida da gente. O amor da vida da gente faz cobiçar as vidas alheias, simples, que estão perto do amor da vida da gente.

 

O que não disse ao Zé, era o que te diria se soubesse a data precisa da subida.

 

É que eu, amo-te.

 

Gabriela Pacheco é escritora, copywriter e ghostwriter. Tem presença em várias revistas, jornais, plataformas literárias e coletâneas, como a “Palavrar”, “Human”, Jornal “O Postal do Algarve”, “Elefante de Papel”, “Repórter Sombra”, “Mulheres à Obra”. Tem um eBook e foi autora premiada com o 1º lugar no Concurso Artístico JA – literatura, em 2021.

É Gestora de Desenvolvimento e Formação com Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e Graduação em Direção Hoteleira. Formadora nas áreas de Desenvolvimento Pessoal e Escrita Criativa. Foi artista convidada para ministrar sessões de Escrita Criativa nas escolas pelo Plano Nacional das Artes.

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