Cultura

Silente… ou a linguagem primordial do silêncio | Krishnamurti Góes dos Anjos

 

 

Sob o título de “Silente”, a escritora portuguesa Sandra Santos, lança pela Editora Laranja Original seu segundo livro de poemas. Em belo projeto gráfico, a edição bilíngue português/ espanhol (com tradução de Mario Rodríguez García), apresenta em suas poucas páginas, conteúdo instigante, original e, sobretudo, oportuno.

 

Instigante porque o leitor, a princípio, sequer se dá conta de que há toda uma sutileza na abordagem lírica de variadas nuances temáticas que, vistas em seu conjunto, conduzem o leitor pelas mãos, como se estivéssemos em doce caminhada ao lado de antiga amizade. A originalidade reside em que cada um dos sete poemas que compõem cada uma das quatro partes, embora possuam completa existência autônoma, e possam ser lidos, sentidos e pensados independentemente, lançam, como em uma partitura musical, e sob  aumento progressivo da sonoridade poética, a materialidade de breve sinfonia ‘poética”, que evidentemente caminha para determinado clímax. E finalmente, oportuno, porque aborda aspectos que, direta ou indiretamente, se interligam a perquirir a(s) razão(ões) de não darmos a devida atenção, ou relegarmos a segundo plano, certa postura diante de nossas vidas de seres pensantes. Tudo confluindo para causar uma epifania (percepção intuitiva súbita) no leitor, evidenciada no último poema da obra “o azul das tardes”. Texto antológico, memorável. Portanto o que fica aqui sintetizado denota não se tratar de mera reunião de poemas escritos dispersamente, e afinal, acondicionados de maneira mais ou menos aleatória. Não; é obra muito bem pensada e trabalhada para um determinadíssimo fim. 

 

Certas palavras que utilizamos acima, como ‘partitura musical’, ‘sonoridade’ e ‘sinfonia’, por certo nos foram suscitadas pelo quase ensaio escrito pelo doutor Sérgio Guimarães de Sousa, da Universidade do Minho, que assina o posfácio da obra. Pergunta ele na abertura de seu texto: O que é a poesia, nos seus diversos andamentos enunciativos e na sua matéria verbal, senão aquela música do pensamento (George Steiner) pela qual se cristalizam, na sua expressão mais pura, as marcas da subjetividade? Examinando a etimologia da palavra ‘silente’, que tem no latim sua origem “silentium”, referida a ‘silens’ a significar o: “que se cala; silencioso; que não faz ruído; calmo; que está em repouso.”, observamos que tal vocábulo ao longo do tempo, adquiriu, no ocidente, sentido negativo, a começar, por exemplo, pela relação de “silêncio-nada” que se estabelece em Shakespeare (Hamlet – obra de 1599): “o resto é o silêncio”. Ou seja, o silêncio significado como morte.  Mas o silêncio, advertimos, não é a mera ausência de palavras; ele é o que há entre as palavras. Uma pausa.  A pausa pode estar antes, entre e depois do som ou palavra, possibilitando a produção de sentidos. Pausa é um intervalo, uma respiração de determinado som, ou sentimento humano. Funciona como matéria significante. Não representa as palavras silenciadas que se guardam no segredo, sem dizer. Ele guarda um outro segredo que o movimento das palavras não atinge (e pode ser percebido em diversas situações, como a de dor, de confissão, de tristeza, de alegria…). Daí inferirmos que a linguagem necessita mais do silêncio do que o silêncio necessita da linguagem. Aí a importante e fundamental relação. A formação de significado, advindo do silêncio, é, por outras palavras, lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido. Reduto último do possível e do múltiplo também. Talvez por isso, ou justamente por isso Foucault tenha afirmado que “o silêncio é uma das coisas às quais, infelizmente, nossa sociedade renunciou”.

   

 No primeiro cenário – ou capítulo – em que a autora dividiu sua obra, observemos logo  no primeiro poema, o inicio de um certo ciclo de sensações, impressões e reflexões que se inicia ali e se desenvolve nos 28 poemas, fechando o ciclo no já citado “o azul das tardes”. Um dia se insinua: “uma aldeia por entre a névoa / da madrugada”, e o andamento do texto evoca naquele eu poético, muita “recordação.” p.9. Adiante lemos de que forma … “a memória escorre / amor sobre as feridas”, e o ser caminha “com um pé na infância / e outro no futuro.” p.13. Sempre a buscar o “mergulho na memória / como um falcão na noite”. Não importa se adormecido ou em vigília: “nos vários estágios do sono / onde um ponto de luz / aguarda / bruxuleante / por um novo dia.” p.15.

 

Sandra Santos lança mão de uma economia formal de recursos, é direta em sua subjetividade que se revela em múltiplas vertentes. Versos curtos. Pontuação quase inexistente. Apenas um único, solitário e silencioso ponto final marca o desfecho de cada poema. Até que:

 

“naquele convento / várias bocas entoavam liras / seremos nós capazes de intuir / o fulgor do canto? / muitas histórias precedem-nos / e ao violino importa a precisão / somos mais a cada nota / – couraça confessando o sorriso / de quem lançou a chave / ao infinito / vários olhos fitando: / será que acedemos / ao avesso do silêncio?” p.20.

 

Outro exemplo se bifurca na expressão do eu poético e reside nas coisas mais simples e fundamentais da vida.

 

“volta um pensamento de amor / ao coração cansado / num corpo que não recorda / a sua eternidade / o homem que sonha / extravasa as costuras / resvala sobre outro corpo / sutura e perscruta / é o vento / caminha até à fé / e cimenta a beleza, / volta um pensamento de amor / que fixa sobre o cume / o nome que damos às coisas / sombrio e intocável / à margem do que suspeitamos / ser ainda mais belo.” p.23.

 

Como perceber? O que todos nós, sem exceção, “suspeitamos / ser ainda mais belo”? Talvez uma das respostas possíveis esteja no poema que se segue:

 

“ousara ser simples / como o vento / que passa pela árvore / e a agita suavemente / insondável é  / o movimento dela / adentrando no real / talvez eu habite / no interior do tronco / e me vá alteando / sem ciência / e assista ao baile de duas vespas / ao acasalamento de dois pirilampos / 

à maternidade do ninho / à multitude da cor / ao voo sem retorno / à beleza por si só.” p. 22.

 

Salientamos neste poema o verso: “sem ciência”. Pode a nossa ciência dar-nos conta da essência do que seja a maternidade de um ninho? ou a multitude da cor? O que é afinal a beleza por si só? Por certo essas respostas não estão com a ciência, tal como a conhecemos em seu pragmatismo utilitarista. Certas percepções não se encontram no exterior sensório, mas no interior intuitivo e só podem ser alcançadas se nos projetarmos dentro de nós mesmos com a introspecção, e não fora de nós, com a observação; enquanto se permanecer na dimensão atual da razão, certas questões permanecerão insolúveis.

 

Buscamos traduzir em palavras nossas expressões, mas para que possamos expressar de forma correta e organizada, necessitamos do silêncio para escolhermos, para decidirmos, qual vogal, qual palavra, qual frase, qual texto, qual discurso usar, para somente depois agirmos.

 

Em nossa contemporaneidade, sabemos, o homem está a todo o momento sendo bombardeado por sons, ruídos, palavras, produzindo, o “apagamento do silêncio”. Vivemos no imediatismo com uma ideologia marcada pelo visível, pela necessidade de estar-se produzindo sons a todo o momento, e muitos acreditam ser necessário responder a tais sinais com sons, ruídos, palavras e sem escutar. O silêncio incomoda a sociedade atual, habitada por pessoas sem paciência, agitadas, contaminadas pelo imediatismo. Em constante movimento na produção de sentidos e, assim, não ESCUTAM. Ouvir é mero processo mecânico referente ao sentido da audição, é além da vontade. Escutar é ação que depende da vontade em prestar atenção, tentar entender o que está sendo dito, refletir e, depois, assimilar.

 

“após a negritude / já nada importa / resta a carne do agora / [as mortes / em partes / de mim]/ cintilam pontos / geograficamente / vivos / o rio avança / pelas minhas costelas magras / os campos fenecem / o sagrado mingua / os lugares repetidos / são tudo o que temos.” p.39.

 

Vale a pena ainda uma última transcrição:

 

“os pés pisam a erva/ e o meu olhar se espraia / num tempo dobrando o tempo / sou uma criança / que perscruta  / a pulsação do ínfimo / agrego-me multiplico-me / à agitação dos animais e das crianças / caio de amores pelo indizível  / aproprio-me da fragrância das flores / e parto em busca do vento / que me traga de novo / a esta imagem / que eu sei de cor.” p.42.

 

A mensagem mais ampla que a poética de Sandra Santos (uma jovem de 27 anos do Norte de Portugal) parece transmitir-nos em seus belíssimos poemas é a de que necessitamos pensar o silêncio como fundante. Achamo-nos numa grande curva de nosso caminho evolutivo, e a eterna criação biológica está operando atualmente no nosso nível psíquico. Não existe a possibilidade de sentido sem silêncio, há a necessidade do silêncio para que o sujeito alcance o seu sentido. Para que possamos escutar o real das coisas, sendo atingidos por outros sentidos que estão funcionando eternamente em outros lugares. Além disso, é necessário relacionarmos a introspecção com o imaginário, com o lugar operativo da memória no autoconhecimento, para enfim, e associando estes elementos, o silêncio possa produzir outros significados no sujeito e seja considerado como aquele que produz, que funda, que gera, que movimenta, que significa.

 

Livro: “Silente” – Poesia de Sandra Santos – Edição bilingue (português e espanhol) da Editora Laranja Original – São Paulo, 2021, 112p.

 

ISBN  978-65-86042-17-7  

 

Link para compra e pronta entrega:  

https://www.laranjaoriginal.com.br/

 

 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é escritor, pesquisador e crítico literário. Tem publicados os livros: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema e À flor da pele – Contos.  Participou de 28 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Há textos seus publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último romance pela editora portuguesa Chiado – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional – Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 300 obras de literatura brasileira contemporânea publicadas em diversos jornais, revistas e sites literários.

 

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