Cultura

Seis Poemas

 

CORDEIRO DE ABRIL

 


Eu sou filho de Abril,
um deus do calendário
que traz no semblante
trinta sóis a contemplar
meus cinquenta rubis.

Nasci no seio de Abril,
por isso esta cor rubra,
esta atitude vermelha,
este desejo encarnado.

Circulo nos veios de Abril,
faço parte da claridade,
da brisa que atravessa
o sertão das palavras.

Eu sou filho de Abril
e apascento as roseiras
no verdor das horas.

Sou o cordeiro e o signo
tangendo a si próprio
como quem tange
para bem longe
o pensamento.

O cordeiro de Abril,
que vivencia pecados
e inventa mundos
por onde passear
de tardezinha.

 

***

 

OUTONO

 


As árvores se despem do verde
Para sentir com mais intensidade
A nervura do caule.

 

***

 

CHUVA SECRETA 

(O SEMEADOR DA MIRAGEM II)

 

Receba o gozo do lírio
da minha agreste paragem,
alta voltagem de rios

que estão só de passagem,
moldura líquida e incerta
desta perene paisagem,

que mesmo sendo tão seca
traz uma chuva secreta
no cerne de cada verso.

 

***

 

PIANOS ZEBUÍNOS 

(O PIANISTA SELVAGEM VI)

 

Pianos zebuínos mugem suas sonatas pelos céus do meu destino 

e uma cidade inteira pousa sobre o meu olhar aéreo,
mais alto que o mar, mais alto que o meu irmão mais velho. 

 

Ah, as nuvens, manada de búfalos em disparada
por sobre o céu desta cidade que se oferece aos meus sentidos. 

 

E os pianos zebuínos mugem, no desalento da noite do Sertão. 

Suas sonatas elevam aos céus o sétimo menino. 

 

E os búfalos de algodão, por sobre a cidade, não dizem nada, 

apenas correm, correm em louca disparada. 

 

E há castelos nestas sonatas que vêm de longe
para lembrar que os pianos espicham suas caudas 

no sólido árido, sob a noite enluarada,
enquanto sobrevoo por esta cidade
e acontece, diante do meu ver, o estouro da boiada. 

 

Pianos mugem estranhas sonatas
e eu sou apenas a mão que escreve, o ser que sente
mugidos de pianos, cidades atlântidas e búfalos em disparada. 

 

***

 

NA ESTEIRA DO INFINITO

 

Somos furacões intergalácticos, fenômenos inconcebíveis.

Tudo o que sou está gravado na minha pele

e ainda assim quase nada consigo compreender.

 

Preciso descobrir minha cosmogonia.

Olho para o céu com os olhos da Terra

e o que vejo é a poeira da minha essência.

 

Sou um aborígene, um índio, um caatingueiro

que passa noites lendo a caligrafia do céu,

assistindo a coreografia de ninhadas de estrelas.

 

Sou uma nave que passeia no Horizonte dos Eventos

com olhos de fera perplexa diante do fogo das coisas.

 

Perquirindo o Cosmo, busco a semente do meu povo.

É nele que me sustento. Apoiados, uns nos outros,

é em nós que o mar de prata do Infinito

resplandece o espectro das estrelas

e abre suas asas numa explosão de ondas.

 

Somos uma multidão que se agita

dentro de uma forma.

No núcleo das minhas células, 

no núcleo dos meus átomos,

a vertigem, o oásis.

 

Meu estado físico concentra energia de todas as eras.

Venho de um passeio de bilhões de anos.

Sou um milagre à espera de um milagre.

Sou um milagre e meu núcleo é um santuário.

 

A minha noite é povoada de manhãs.

Sinto a vasta aurora da Via Láctea

quando miríades de astros nasceram

e o Universo deu um grandioso espetáculo

que perdura até agora na retina da minha essência.

 

Eu, bicho da Terra, que vive a mirar a linha da Luz,

eu, que tenho o pó das origens nos meus dedos,

danço livre sob as estrelas e logo estou sobre as estrelas.

 

 

***

 

 

A ROTA DO SER

 


Que a luz chegue em cada quarto,
em cada recanto do teu ser.

Que tua vida seja grande.
E que na soma dos erros e acertos
o sol continue a iluminar tua rota.

E quando chegar a hora de partir,
parte. Mas parte contente,
celebrando o mistério do porvir.

 

 

Fotografia de José Inácio Vieira de Melo. Autoria: Ricardo Prado.

 

 

Fotografia de José Inácio Vieira de Melo recitando na Fundação Casa Jorge Amado. Autoria: Ricardo Prado.

Fotografia de José Inácio Vieira de Melo Autoria: Ricardo Prado.

 

 

Fotografia de José Inácio Vieira de Melo Autoria: Ricardo Prado.

José Inácio Vieira de Melo​ (1968), brasileiro, alagoano radicado na Bahia, é poeta, jornalista e produtor cultural. Publicou os livros Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), A terceira romaria (2005), A infância do Centauro (2007), Roseiral (2010), Pedra Só (2012), Sete (2015), Entre a estrada e a estrela (2017) e as antologias 50 poemas escolhidos pelo autor (2011) e O galope de Ulisses (2014). Organizou Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia (2004), Sangue Novo – 21 poetas baianos do século XXI (2011). Publicou os cds de poemas A casa dos meus quarenta anos (2008) e Pedra Só (2013). Foi coeditor da revista literária Iararana (2004 a 2008). Participa das antologias Pórtico Antologia Poética I (2003), Sete Cantares de Amigos (2003), Roteiro da poesia brasileira – Anos 2000 (2009) e Autores Baianos: Um panorama 2 (2014). No exterior, participa das antologias Voix croisées: Brésil-France (Marselha, 2006),  Impressioni d’Italia – Piccola antologia di poesia in portoghese con traduzione a fronte (Napoli, 2011), En la otra orilla del silencio – Antologia de poetas brasileños contemporáneos  (Cidade do México, 2012), Traversée d’océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Paris, 2012), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo, 2013) e Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas, 2013).

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