Cultura

Reflexões Sobre a Escrita: O cachorro e o Lobo de Antônio Torres

 

Os braços que constroem o Brasil das grandes cidades vêm de todos os cantos dessa que deveria ser a mãe mais gentil de todas, mas, muitas vezes, os seus filhos se perdem na luta cotidiana. Na tentativa de adaptar-se ao mundo globalizado, eles podem se esquecer de onde vieram, transformando as suas identidades de tal forma que, em alguns casos, já não serão mais reconhecidos no lugar de onde partiram. Totonhim é um homem que mora em São Paulo e que, depois de mais de vinte anos sem retornar à sua cidade de origem, em algum lugar remoto no sertão da Bahia, é levado a visitar o seu pai por ocasião da passagem de seus oitenta anos. Mas ele chega um dia depois da festa, seus irmãos já foram embora e, então, precisa lidar sozinho com o seu pai, com um amor que deixou para trás, com as lembranças de sua infância e adolescência e, sobretudo, com quem ele havia esquecido que fora um dia.

 

Ao chegar em sua terra natal, Totonhim parece cruzar as fronteiras de um mundo mítico ao qual ele não sabe se ainda pertence. O medo do encontro com o passado está presente e parte de sua jornada terá de ser, forçosamente, a redescoberta desse próprio pertencimento. O primeiro choque é o não reconhecimento por parte de seu próprio pai, mas, talvez, a dificuldade mais iminente seja a de se adaptar ao tempo de sua antiga cidade com seus ciclos de plantação e chuva, de festas religiosas, de horas passadas em conversas sem fim dentro de casa ou nos bares, nos quais o álcool parece abraçar os solitários que foram esquecidos pelo próprio tempo. Totonhim tem de aprender a andar com o passo de um mundo que não é mais o seu: “preciso controlar a minha impaciência diante da fala arrastada desse povo, da sua prosa demorada, comprida, interminável”.

 

Outra dificuldade é a de lidar com pensamento arcaico que parece ainda estar presente no ar da cidade. Sobre isso, Totonhim é relembrado da frase dita por seu pai quando seus filhos tinham o desejo de estudar: “escola não enchia a barriga de ninguém”. Trata-se de uma frase que parece querer caracterizar a postura das pessoas e do lugar. Mas tudo muda e as pessoas não possuem apenas uma face. O seu pai sustenta o amor à terra, que, no romance, ganha muitos significados, pois ela é o local em que se nasce, mas também aquilo que dá sustentação, pois é nela que o corpo do ser humano encontra pertencimento e finca os seus pés, é ela que propicia o seu alimento e a sua morada final. Outra palavra-chave do livro, já trazida em seu título, é “cachorro”. Ao chegarmos naquele mundo, temos de aprender que ela pode ter muitos significados: “Cachorro pra lá, cachorro pra cá. A diferença está no tom da voz. Na carga da intenção”.

 

Em sua jornada, Totonhim tem de lidar com fantasmas, um deles é o do irmão que já se foi. Em um momento da narrativa, até então, realista, o autor habilmente traz um sonho em que o personagem principal mistura passado e presente e tem de lidar com a diminuição de si ao se comparar com o irmão. Em outro, a memória do passado é algo que surge sem o controle do personagem, que é tomado de espanto: “Agora uma lembrança me surpreende tanto quanto a minha própria sombra. O meu irmão Nelo, com toda a sua aura, lenda e fama (…)”. 

 

Trata-se de um mundo antigo em que os mortos visitam os vivos. No entanto, a terra que se deixa será sempre diferente daquela em que se visita e o retorno é, quase sempre, o cenário de um embate. Aquela cidade antiga, agora, também busca a modernidade, os mais jovens são influenciados pelo que veem na televisão e a agricultura e a roça são cada vez mais abandonadas por eles, que buscam outros modos de viver, mesmo não indo para as grandes cidades.

 

Mas nem tudo é tensão no romance de Antônio Torres. Há o espaço para o reencontro do amor e, também, para a redescoberta, que me parece essencial, da beleza da linguagem, através de formas antigas e esquecidas de dizer a palavra poética sobre as coisas simples do cotidiano. Um modo que toca o coração do personagem que retorna à sua terra natal e que faz transportar os leitores àquele lugar cheio de luzes, de sabores e de cheiros raros: “e lá vamos nós, marchando para o futuro, que fumegava num fogão de lenha mais velho do que o mundo, em panelas de barro, evaporando um cheirinho bom de coentro, manjericão, alecrim e palha de cebola. Se é que a alegria vem mesmo da barriga, o aroma que dominava o ar espantava qualquer tristeza”.

 

Há, por fim o encontro essencial do personagem principal consigo mesmo: “Agora paro para ouvir o último lamento sertanejo: o uivo de um cachorro na hora do lobo. Eis aí uma serenata de adeus”. Com O Cachorro e o lobo, Antônio Torres, oferece aos seus leitores mais uma prova de sua maestria narrativa, ao construir a história de um homem em confronto com o seu passado. Ambientando a sua história em um lugar do Brasil profundo, ele trata de um tema universal e, talvez, esse seja um dos motivos pelos quais ele crie uma narrativa tão cativante. Totonhim é todo o ser humano que teve a oportunidade de realizar uma jornada de amadurecimento e de se confrontar com os fantasmas e as incompletudes de seu passado, mas, obviamente, nem todos os neófitos dessa iniciação alcançam a desejada iluminação, se é que há algo para se alcançar dentro desse mistério que chamamos de vida… 

 

 

William Soares dos Santos é carioca, professor da UFRJ e escritor. É autor, dentre outros, dos livros Poemas da meia noite (e do meio-dia) (Editora Moinhos, 2017), Raro – Poemas de Eros (Editora Urutau, 2018), Identidades masculinas em Coriolano e Antônio & Cleópatra de William Shakespeare (Ed. Amavisse, 2020), Três Sóis (2019) e Memórias de um triste futuro (2020), organizou o livro de editados pela Ed. Patuá. Mantém o site www.williamsoaresdossantos.com.br.

O escritor brasileiro Antônio Torres (Bahia, 1940) é romancista, contista e cronista, autor de 17 livros, entre os quais se destaca a trilogia formada por “Essa Terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo fundo da agulha”, publicada em Portugal pela Editora Teodolito. Sua obra tem conquistado inúmeros prêmios no Brasil e traduções em vários países. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira fundada por Machado de Assis, Antônio Torres é também sócio correspondente lusófono da Academia de Ciências de Lisboa.

 

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