Cultura

Questiono

Ah, como preciso da calma letargia das horas. Por que ninguém entende que o meu tempo é outro? Preciso de largos minutos para me levantar da cama, para extrair lentamente do corpo a imantação que os pensamentos da noite deixaram. Preciso sorver a vida aos poucos senão me afogo. Caio rápido no vão das coisas infinitamente inúteis e sábias. Pois toda sabedoria é inútil nesse mundo até que nossos ossos cresçam e estalem o som dos anos vividos.

Te digo. Só há um modo de ser feliz. Aquele de ignorar completamente a necessidade da felicidade. Mentira. Isso é cinismo. E em mim essas coisas não duram um segundo. Caem feito máscaras sem aderência. Sou um rosto sem molde e isso me faz ser só e estranha. O que é bom. Nos dias de hoje o que nos salva é a rebeldia sobre as coisas fixas.

Por exemplo, hoje na rua, cedo pela manhã, vi uma mulher que observava o chão enquanto esperava o farol abrir. Era métrica esse momento. Não havia nada de mágico. Apenas uma mulher esperando para atravessar a rua com segurança. E digo que isso me exaspera. A ordem fixa das coisas me exaspera. Não me limito a respeitar a luz verde para caminhar. Quero saber quem inventou a cor verde e porque ela se chama verde e não península ou grama. Entende? Se não houvesse pontos de interrogação eu não existiria. Morreria sufocada entre tantas vírgulas e pontos de finalização. Ponto de interrogação é algo utilíssimo.

As pessoas não compreendem. Possuem um gosto ferrenho por crases e colchetes. Pra mim não serve.

Nada mim está entre parênteses. Não recuo ao que sou. Não me contenho. Minha água nunca será escura.

Mas eu dizia que o meu tempo é outro. Viu que já saí do curso? Acho que estou voltando à infância. Agora, aos quarenta e cinco anos de idade, volto à infância e estou mais impertinente que nunca.

Vejamos o que aprendi até aqui:

O amor é um desafio grotesco. Eu logo informo. Mas não fujo dele e não o desdenho. Embora o tenha chamado de grotesco. Digo isso porque amar não é o nosso estado natural. No amor ou estamos estupidamente felizes ou serenamente contentes. Mas estamos sempre loucos. Pois é loucura exigir um comportamento etéreo a seres de carne e osso.

Mas é bonito amar. Disso não abrimos mão. Talvez seja essa nossa maior rebeldia, nosso maior ponto de interrogação. Pegamos a vida pelo colarinho e dizemos, cheios de uma fúria infantil em suas fuças;

E se??

Ela ri e nos deixa.

Gosta de observar nossos desastres.

E nós vamos. No fundo estamos todos loucos.

Veja que a filosofia está cheia de desculpas niilistas. O que criamos para lidar com nossa angústia é impressionante.

Mas porque acabei falando sobre tudo isso não sei.

Veja  o que faz a inquietação humana.

Temo que olhem para tudo o que fiz e escrevi e digam:

“Mas por que ela simplesmente não sossega?”

Mentira. Não temo não. Gosto de andar na contra mão das coisas. Porque parece que o percurso linear já conheço o fim. E conhecer tudo me assusta, pois é a morte mais violenta que se pode ter.

Te falei que agora ando ao contrário com o intuito de acariciar as costas da paisagem? Venho com essa mania. Mas não se preocupe. Faço isso mentalmente. Ainda não enlouqueci de todo. Minha insanidade segue disfarçada e segura como em qualquer outro. Tudo segue a contento. Não fugirei da ordem esdrúxula da existência. Nascer, viver, envelhecer. Também eu serei vã e ingrata assim como todos os outros.

Mas até lá questiono. Questionar é um presente que me dou. É o meu maior luxo. Já te falei que sou caprichosa? Sou. E adiciono: gosto desse estado febril em que vivo. Gosto. É luxuoso arranhar a superfície das coisas e dizer; “Veja! Há aqui uma outra cor! Uma outra textura!”

É bom ser selvagem. Paga-se o preço, mas é maravilhoso. O ar de mártir e melancolia é para adicionar um charme. Só isso.

Eu gosto dessa lascívia que tenho com as palavras e com os sentidos. Gosto mais ainda de derramá-la sobre as coisas e as pessoas fixas que vejo pelo caminho.

Te explico; isso que faço é quase como um incesto. Um incesto com o mundo. Não é ele homem e pai?

Sim. Reverto a ordem das coisas nele contidas e abro as pernas para recebê -lo. Ele se confunde e treme. Adoro ver o mundo tremer. Estou sendo pornográfica? Não. Não estou. Mas gosto de ver o mundo tremer. E as pessoas também. A inocência mora na fragilidade. É só no morno medo da entrega que somos realmente quem somos. E isso me excita ao máximo.

Ver o rosto imberbe e aflito de alguém que pede para ser amado. Esse é o meu maior fetiche. Identificar um semblante frágil e pedinte no outro. Essa é a minha maior prova de amor para com todas as coisas. Não sou eu também assim, frágil e pedinte? Que sejamos todos então. Trêmulos e entregues. É bonito. Não devemos temer. Um deus bom há de nos proteger os passos e agasalhar nossos ombros do frio.

Sabe, um dia no teatro, eu fazia um papel de tal intensidade, de tal verdade que emocionou a todos. Eu chorava, ria e contava as dores de ser gente, e toda aquela gente à minha frente também entendia, chorava e ria.

Eu orquestrava os seus sentimentos como bem queria e poderia até me divertir com isso não fosse a extrema beleza do momento. Todos ali estavam envoltos pela mais absoluta verdade. Foi a coisa mais bonita que já vi.

Depois as luzes se acenderam e cada um foi para a sua caverna. Mas o que foi vivido ali ficou impresso nas digitais da alma. E isso ninguém apaga.

Veja que trunfo, Francisco? Que vitória sobre o cinismo? Veja. Sim. Eu tenho essa pretensão de imprimir algo de bonito e definitivo nas pessoas. É vaidade eu sei. Mas tenho. Não nego. Melhor isso do que outra coisa. Outra existência que eu nem sei exemplificar. Só sei viver se for assim.

Dispo a minha pele por onde passo e acolho os olhares de assombro ou contentamento. É isso. Não somos todos viajantes? Somos.

Olha, vou comer algo. Escrever assim nua e intrépida me traz uma febre boa e lenta. E eu gosto tanto disso.

Mas preciso voltar ao mundo dos mortos. Digo isso porque é somente nesse de agora que existo. Que é onde escrevo.

No outro precisamos de máquinas respiratórias e aparelhos de reanimação. Nesse não. Nesse tu e eu e todas as outras coisas não fixas existimos numa simbiose quase perfeita. É o caos e o céu. E por acaso hoje o céu está bem azul.

Vou comer e volto. Volto.

Se não escrevo, se não extraio, tudo em mim gangrena.

 

Beatriz Aquino é formada em Publicidade e Propaganda e é atriz de teatro. Tem publicados os livros:  Apneia (romance), A Savana e Eu (crônicas), Anne B.  – Sobre a Delicadeza da forma (romance) e Caligrafia Selvagem, lançado em Julho de 2020. Vive atualmente em Portugal.

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